
Entendimento Sino-Russo Sobre o Power of Siberia 2 Reforça Eixo Estratégico Eurasiático
Mais do que um gasoduto, o acordo simboliza a consolidação da aliança energética e política entre Moscovo e Pequim, num contexto de reconfiguração da ordem global
- Rússia e China firmaram acordo juridicamente vinculativo para o gasoduto Power of Siberia 2;
- Projecto transportará 50 bcm/ano de gás da Sibéria Ocidental para o norte da China via Mongólia, durante 30 anos;
- Entendimento surge após o colapso das exportações de gás russo para a Europa, superiores a 120 bcm/ano;
- China aproveitou a urgência russa para negociar condições mais favoráveis, reforçando a sua posição como cliente estratégico;
- Analistas apontam o gasoduto como peça simbólica da aproximação Moscovo–Pequim e da construção de uma ordem multipolar.
A assinatura do acordo para o gasoduto Power of Siberia 2, entre a Rússia e a China, tem um alcance que ultrapassa a dimensão energética. Mais do que um contrato de fornecimento de 50 mil milhões de metros cúbicos anuais de gás durante três décadas, o entendimento simboliza a consolidação de um eixo estratégico eurasiático que desafia a ordem global liderada pelo Ocidente.
O anúncio do acordo foi feito em Pequim, após o encontro entre Vladimir Putin e Xi Jinping. O projecto prevê o transporte de gás da Sibéria Ocidental para o norte da China através da Mongólia, reforçando a posição de Pequim como cliente de referência da energia russa num momento em que Moscovo perdeu o seu maior mercado – a Europa.
Com a União Europeia decidida a cortar totalmente a dependência energética russa até 2027 e com perdas superiores a 120 bcm/ano de exportações de gás desde 2022, a Rússia acelera a sua “viragem para o Oriente”. Para a China, o entendimento assegura uma fonte estável de energia, numa conjuntura de crescente rivalidade com os Estados Unidos.
Analistas consideram que o acordo simboliza a nova correlação de forças. Christopher Granville, da TS Lombard, sublinha que se trata de um “sinal claro do apoio estratégico da China à Rússia como pilar central de uma ordem multipolar em formação”. Timothy Ash, do Chatham House, nota que Pequim terá aproveitado a necessidade russa para impor condições mais favoráveis, reforçando a sua posição negocial.
Ainda que falte um acordo definitivo sobre preços e a decisão final de investimento, o memorando assinado marca um avanço substancial em relação a anos de impasse. O precedente do Power of Siberia 1 mostra, contudo, que entre um entendimento político e a concretização técnica pode mediar quase uma década.
O anúncio ocorreu à margem da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), onde Rússia e China procuraram apresentar-se como motores de uma nova ordem económica e de segurança. No seu discurso, Xi Jinping destacou que o mundo atravessa “uma nova fase de turbulência” e que a governação global encontra-se “num cruzamento”, reafirmando a necessidade de alternativas ao modelo ocidental.
Mais do que infra-estrutura energética, o Power of Siberia 2 emerge assim como símbolo da interdependência estratégica Moscovo–Pequim: para a Rússia, representa sobrevivência económica e diversificação de clientes; para a China, garante segurança energética e projecção geopolítica no quadro de uma ordem multipolar.
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