Governo e Bancos Lançam Medidas Financeiras para Recuperação Económica em Moçambique

0
560

Moçambique enfrenta um momento de reconstrução económica após um período de forte instabilidade. No Lançamento das Medidas Financeiras para Recuperação Económica, realizado esta sexta-feira, o Governo e a Associação Moçambicana de Bancos (AMB) anunciaram um conjunto de soluções de crédito e reestruturação de dívida para apoiar as empresas afectadas pela crise pós-eleitoral e pela degradação do ambiente macroeconómico.

A Ministra das Finanças, Carla Loveira, destacou a urgência da implementação dessas medidas, sublinhando que os últimos três meses de 2024 foram marcados por manifestações violentas, que resultaram na destruição de infraestruturas públicas e privadas, afetando gravemente o setor produtivo. “Essas ações tiveram um impacto severo na economia, provocando uma retração do Produto Interno Bruto (PIB) em 4,9%, com destaque para quedas de 8,9% no setor secundário, 4,8% no setor primário e 3,8% no terciário”, afirmou a governante.

Impacto da Crise e Necessidade de Intervenção

O efeito da instabilidade foi sentido de forma transversal, atingindo a indústria manufactureira (-11%), a mineração (-10,1%) e o comércio e serviços de reparação (-10,6%). O sector da hotelaria e restauração registou uma contração dramática de 14,7%, enquanto 1.677 estabelecimentos comerciais e 23 armazéns foram destruídos durante os tumultos.

Para além dos distúrbios internos, os impactos dos choques climáticos, como a Tempestade Tropical Severa FILIPO e o fenómeno El Niño, agravaram ainda mais a situação, com perdas significativas na produção agrícola e no fornecimento de bens essenciais.

Diante desse cenário, o Governo de Moçambique convocou o sector bancário para apresentar medidas concretas para estimular a recuperação das empresas e da economia.

Medidas Financeiras Anunciadas

A Associação Moçambicana de Bancos (AMB), representada pelo seu Presidente, Teotónio Comiche, anunciou duas medidas principais que entrarão em vigor a partir de 1 de março de 2025.

A primeira medida é a Reestruturação de Financiamentos Concedidos às Empresas, um mecanismo que permite às empresas afetadas pela instabilidade pós-eleitoral renegociar os seus créditos, garantindo maior flexibilidade financeira. “Os mutuários poderão propor junto dos seus bancos a reestruturação das suas operações, sujeitas a uma análise de risco e às condições bancárias aplicáveis”, explicou Comiche.

A segunda medida, e a mais esperada pelo setor produtivo, é a criação de uma Linha de Crédito Bonificada, no montante global de 10 mil milhões de meticais. O financiamento destina-se a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), permitindo acesso a crédito para capital de tesouraria e investimentos, com condições especiais.

“O Governo recomendou que o foco seja nas micro, pequenas e médias empresas, que empregam até 100 trabalhadores e têm um volume de negócios anual até 160 milhões de meticais. Estes são os negócios mais vulneráveis e precisam de apoio urgente”, explicou Comiche.

Condições da Linha de Crédito

A Linha de Crédito Bonificada Global terá prazos e taxas diferenciadas consoante o destino do financiamento.

  • Para capital de tesouraria, o empréstimo terá um prazo máximo de 12 meses, com taxa de juro fixa de 15%.
  • Para investimentos, o financiamento poderá ser de até cinco anos, sendo que no primeiro ano a taxa de juro será de 15%, enquanto do segundo ao quinto ano será aplicada a Prime Rate menos 4%.
  • O montante máximo de financiamento por empresa será de 20 milhões de meticais.
  • As empresas candidatas devem ter situação fiscal regularizada e não apresentar incumprimentos junto do Estado (INSS e AT).

As operações estarão disponíveis em todos os bancos comerciais afiliados à AMB até 30 de Setembro de 2025, sendo que a lista de bancos participantes está acessível no site da associação.

Um Passo para a Retoma Económica

A Ministra Carla Loveira reconheceu que a estabilidade económica depende não apenas de medidas financeiras, mas também da garantia da segurança e da confiança dos investidores. “O Governo está consciente de que a incerteza afecta a actividade económica, e por isso continuaremos a trabalhar para manter a lei e a ordem, resgatar a confiança dos investidores e melhorar o ambiente de negócios”, afirmou.

Além das medidas de curto prazo, o Governo também trabalha na criação de soluções estruturantes, como o Fundo de Garantia Mutuária, que deverá facilitar o acesso ao crédito para as MPMEs em médio prazo.

O sector privado vê estas iniciativas como um alívio necessário, mas mantém a expectativa de que o Governo implemente medidas adicionais para resolver a crise cambial, que continua a ser um dos maiores entraves à recuperação económica.

O sucesso destas medidas dependerá da agilidade dos bancos na concessão de crédito e da capacidade do Governo em garantir um ambiente de negócios estável. Resta agora acompanhar a implementação dessas soluções e avaliar o seu impacto na economia real.

SUBSCREVA O.ECONÓMICO REPORT
Aceito que a minha informação pessoal seja transferida para MailChimp ( mais informação )
Subscreva O.Económico Report e fique a par do essencial e relevante sobre a dinâmica da economia e das empresas em Moçambique
Não gostamos de spam. O seu endereço de correio electrónico não será vendido ou partilhado com mais ninguém.