
Guterres Alerta Para Uma Nova Disputa Pelo Poder Económico Global
- Na última intervenção na abertura da Assembleia Geral enquanto Secretário-Geral da ONU, António Guterres coloca dívida, desigualdade, financiamento, energia, minerais críticos e inteligência artificial no centro de uma transformação da economia mundial que considera inseparável da redistribuição global do poder.“
- Guterres considera irreversível a evolução para uma ordem mundial multipolar, mas alerta para o risco de fragmentação dos mercados e enfraquecimento das instituições;
- Secretário-Geral defende reforma da arquitectura financeira internacional e maior capacidade dos bancos multilaterais para fornecer financiamento acessível de longo prazo;
- UNCTAD estima que 99 países em desenvolvimento, onde vivem 5,5 mil milhões de pessoas, perderam espaço fiscal entre 2018 e 2024 devido ao aumento dos encargos com juros;
- Transição energética está a aumentar a importância estratégica dos minerais críticos e das tecnologias de energia limpa;
- Guterres defende que países produtores e comunidades locais retenham uma parcela maior do valor criado pelos recursos minerais;
- Inteligência artificial reforça a concentração de capital, capacidade computacional, dados e propriedade intelectual;
- África procura transformar recursos minerais e energéticos em maior participação nas cadeias globais de valor.
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou, esta terça-feira, em Nova Iorque, para o aprofundamento da fragmentação económica mundial e defendeu reformas no sistema financeiro internacional, maior financiamento aos países em desenvolvimento e uma distribuição mais equilibrada dos benefícios associados à transição energética, aos minerais críticos e à inteligência artificial.
Na abertura do Debate Geral da 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, Guterres afirmou que o mundo caminha de forma “irreversível” para uma ordem multipolar, num momento em que novos centros de influência económica, política e tecnológica estão a alterar a distribuição internacional do poder.
O Secretário-Geral advertiu, contudo, que essa transformação pode resultar num mundo de mercados fragmentados, instituições enfraquecidas, menor cooperação e crescente competição entre Estados. Como alternativa, defendeu uma “multipolaridade em rede”, assente na interdependência económica, política, social e tecnológica e em regras internacionais comuns.
Guterres identificou três mudanças na distribuição do poder: o surgimento de novos centros de influência entre os Estados; a transferência de poder dos governos para um número reduzido de empresas privadas e indivíduos; e a crescente transferência de capacidades humanas para máquinas e sistemas de inteligência artificial.
A intervenção colocou igualmente a dívida, o acesso ao financiamento, a transição energética e a exploração dos minerais críticos entre os factores que poderão determinar a posição dos países na economia mundial nos próximos anos.
Multipolaridade Avança Com Mercados Mais Fragmentados
Guterres considera irreversível a evolução para um mundo multipolar e identifica diferentes caminhos para essa transformação.
Um deles é marcado por fragmentação, relações crescentemente transaccionais, mercados divididos, instituições enfraquecidas, menor cooperação e cálculos de soma zero. O outro, que designa por “multipolaridade em rede”, assenta na interdependência económica, política, social e tecnológica e na coexistência de vários centros de influência dentro de uma estrutura comum de regras internacionais.
O Financing for Sustainable Development Report 2026, das Nações Unidas, aponta para uma deterioração das condições de financiamento ao desenvolvimento num contexto de menor colaboração internacional, aumento das barreiras comerciais, tensões geopolíticas e sucessivos choques climáticos.
A UNCTAD identifica igualmente uma crescente influência da política industrial, segurança económica e competição geopolítica sobre os fluxos internacionais de investimento e sobre a localização de novas capacidades produtivas e tecnológicas. Depois de uma queda de 11% em 2024, o investimento directo estrangeiro mundial recuperou 5% em 2025, mas mantém forte concentração em determinados sectores e economias.
África atraiu cerca de US$ 70 mil milhões de investimento directo estrangeiro em 2025, segundo o World Investment Report 2026 da UNCTAD. A organização alerta, contudo, para a concentração crescente do investimento estratégico em inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, tecnologias da transição energética e manufactura avançada.
Dívida Reduz Espaço Para Financiar O Desenvolvimento
Guterres voltou a defender uma reforma da arquitectura financeira internacional, considerando que as actuais condições de acesso ao financiamento penalizam particularmente os países em desenvolvimento.
O Secretário-Geral defendeu mecanismos de alívio da dívida mais rápidos e eficazes, bancos multilaterais de desenvolvimento com maior capacidade financeira, aumento do financiamento acessível de longo prazo, mobilização de capital privado e melhor utilização dos Direitos Especiais de Saque.
Segundo a UNCTAD, entre 2018 e 2024, 99 países em desenvolvimento, onde vivem aproximadamente 5,5 mil milhões de pessoas, registaram aumento dos pagamentos de juros que reduziu os recursos disponíveis para educação, saúde, infra-estruturas e acção climática.
A organização assinala também que as economias em desenvolvimento continuam a suportar custos de financiamento externo significativamente superiores aos enfrentados pelas economias desenvolvidas.
As Nações Unidas estimam que quase 40% dos países em desenvolvimento enfrentam problemas graves relacionados com a dívida, enquanto o défice anual adicional de investimento necessário para financiar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável nas economias em desenvolvimento ronda US$ 4 biliões.
O aumento do serviço da dívida reduz a parcela dos orçamentos disponível para investimento público nos países que apresentam maiores necessidades de infra-estruturas, educação, saúde e transformação produtiva.
Energia Limpa Aumenta Peso Estratégico Dos Minerais
Guterres apontou a expansão das energias renováveis como uma das principais transformações da última década e associou a redução dos seus custos à segurança energética, independência e crescimento sustentável.
A substituição progressiva dos combustíveis fósseis aumenta, entretanto, a procura por cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite, terras raras e pelas tecnologias necessárias para processar estes minerais e transformá-los em componentes industriais.
O Global Critical Minerals Outlook 2026, da Agência Internacional de Energia (IEA), indica que a concentração geográfica do processamento voltou a aumentar em 2025. A Indonésia, no níquel, e a China, na maioria dos restantes minerais energéticos, responderam por mais de três quartos do crescimento da oferta refinada registado nos dois anos anteriores.
Nos mercados de grafite, manganês e níquel, praticamente todo o crescimento recente da oferta teve origem no principal fornecedor mundial.
Na grafite, um recurso de particular importância para Moçambique, a IEA estima que a China detenha mais de 90% da oferta mundial na etapa de refinação.
A concentração do processamento significa que países com importantes reservas minerais podem continuar dependentes de outras economias nas etapas industriais em que são produzidos materiais intermédios e componentes de maior valor.
Guterres Defende Maior Retenção Do Valor Dos Minerais
Guterres defendeu perante a Assembleia Geral que a exploração dos minerais críticos não deve reproduzir as desigualdades historicamente associadas às indústrias extractivas.
“Os países produtores e as comunidades afectadas devem reter uma parcela muito maior do valor gerado a partir dos seus recursos”, afirmou.
A posição coincide com uma discussão crescente em várias economias africanas sobre a necessidade de avançar da exportação de matérias-primas para o processamento e transformação industrial.
Processamento, refinação, produção de materiais intermédios, propriedade intelectual, equipamentos especializados e fabricação de componentes concentram parcelas importantes do valor acrescentado gerado depois da extracção.
A IEA assinala que, apesar do surgimento de novos projectos mineiros fora dos principais países fornecedores, a diversificação avança mais lentamente nas etapas de refinação e manufactura. A Agência estima que a construção de capacidade de processamento fora dos actuais centros dominantes pode envolver custos de capital entre 20% e mais de 150% superiores, enquanto os custos operacionais podem ser, em média, cerca de 50% mais elevados.
Energia competitiva, infra-estruturas, logística, tecnologia, equipamento especializado, competências e financiamento influenciam, por isso, a localização dos novos investimentos industriais.
Moçambique participa nesta cadeia através da grafite e de outros recursos minerais. O desenvolvimento de capacidade de processamento e de fornecedores associados à indústria mineira determinará uma parte do valor económico que poderá permanecer no País antes da exportação desses recursos.
Inteligência Artificial Concentra Capital, Tecnologia E Informação
Guterres incluiu a inteligência artificial entre os quatro grandes temas que, na sua perspectiva, determinarão a distribuição futura do poder.
Segundo o Secretário-Geral, durante séculos o poder esteve associado ao território, depois à indústria e posteriormente às finanças. Actualmente, uma parcela crescente encontra-se nos dados, capacidade computacional e algoritmos.
A UNCTAD alerta que o investimento em inteligência artificial e infra-estruturas digitais está concentrado num número relativamente reduzido de países e empresas e considera que essa concentração poderá ampliar as diferenças de desenvolvimento.
Segundo o Technology and Innovation Report da UNCTAD, apenas 100 empresas responderam por 40% da investigação e desenvolvimento empresarial mundial em inteligência artificial em 2022, enquanto Estados Unidos e China concentram cerca de 60% das patentes relacionadas com IA.
Guterres reconhece o potencial da inteligência artificial para a medicina, investigação científica, produtividade e melhoria das condições de vida, mas alerta para os riscos associados ao desenvolvimento tecnológico sem mecanismos adequados de responsabilização, supervisão e transparência.
Países com menor disponibilidade de capacidade computacional, centros de dados, energia competitiva, competências digitais e financiamento tecnológico enfrentam maiores dificuldades para desenvolver sistemas próprios e participar nas etapas de maior valor da nova indústria.
Guterres Reclama Maior Representação De África
Guterres voltou também a defender mudanças na representação africana nas instituições internacionais.
O Secretário-Geral recordou que a maior parte de África permanecia sob domínio colonial quando as Nações Unidas foram fundadas e classificou como “injusto e indefensável” um Conselho de Segurança do século XXI sem assentos permanentes africanos.
A discussão sobre representação estende-se à arquitectura financeira internacional.
As propostas apresentadas por Guterres incluem maior participação das economias em desenvolvimento, financiamento multilateral de longo prazo em maior escala e reformas destinadas a melhorar a capacidade dos países mais vulneráveis para responder à dívida, alterações climáticas e necessidades de investimento.
O Compromisso de Sevilha, adoptado em 2025 na Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, estabeleceu uma agenda destinada a mobilizar mais financiamento para o desenvolvimento e reformar componentes da arquitectura financeira internacional.
As Nações Unidas consideram que a implementação desses compromissos ganhou maior urgência num contexto de crescente fragmentação económica, pressões sobre a dívida e dificuldades de financiamento enfrentadas pelas economias em desenvolvimento.
Grafite, Energia E Logística Inserem Moçambique Na Nova Disputa
Moçambique reúne alguns dos activos que ganharam maior importância na reorganização da economia internacional.
A grafite coloca o País nas cadeias de fornecimento associadas às baterias e à mobilidade eléctrica. O gás natural amplia a sua presença nos mercados internacionais de energia. A capacidade hidroeléctrica e o potencial de novas fontes renováveis podem suportar actividades industriais intensivas em energia, enquanto os corredores logísticos ligam economias do interior da África Austral aos mercados internacionais.
A disponibilidade desses activos não determina, isoladamente, o valor que ficará na economia nacional.
Processamento, desenvolvimento de fornecedores, formação de competências, incorporação tecnológica, infra-estruturas e acesso competitivo ao financiamento influenciarão a participação das empresas nacionais e a capacidade de transformar recursos naturais e posição geográfica em produção, emprego, exportações e receitas.
A defesa de Guterres de uma maior retenção de valor pelos países produtores de minerais críticos encontra particular relevância nas economias africanas que procuram utilizar os seus recursos para ampliar a base industrial, em vez de permanecerem concentradas na exportação de matérias-primas.
Instituições Globais Enfrentam Nova Distribuição Do Poder
Guterres agrupou paz e segurança, desigualdade, clima e inteligência artificial como quatro grandes áreas em que a distribuição e utilização do poder deverão influenciar a evolução da ordem internacional.
No discurso, relacionou igualmente paz, desenvolvimento e direitos humanos, argumentando que os três pilares não podem ser tratados como agendas separadas.
A dívida condiciona a capacidade de investimento dos governos. O custo do capital influencia a localização de novos projectos. Os minerais críticos tornaram-se componentes essenciais das cadeias energéticas e tecnológicas. A disponibilidade de energia afecta a competitividade industrial. Dados, capacidade computacional e algoritmos assumem peso crescente na produtividade e inovação.
Estas transformações decorrem num sistema multilateral que, segundo Guterres, continua a reflectir estruturas de poder estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial.
Na despedida da Assembleia Geral, antes de deixar o cargo no final do ano, o Secretário-Geral afirmou que “o maior poder não é o poder de dominar”, mas o de “construir um futuro que funcione para todos”.
A intervenção deixa, igualmente, um quadro económico definido: financiamento, tecnologia, energia, minerais críticos e capacidade industrial estão a assumir um peso crescente na distribuição do poder mundial e na posição que países desenvolvidos e economias emergentes ocuparão nas cadeias internacionais de produção.
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