Moçambique mobiliza fundos para barragens e prepara regresso estratégico ao mercado da ACP

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Em Addis Abeba, Governo articula agenda de resiliência hídrica e diversificação comercial, procurando financiamento para infra-estruturas estruturantes e reforço da inserção externa.

Questões-Chave:
  • Presidente participa na 39.ª Cimeira da UA com foco na mobilização de apoios para barragens;
  • Cheias recentes afectaram cerca de 800 mil pessoas no Sul e Centro do país;
  • Infra-estruturas resilientes posicionadas como prioridade estratégica;
  • País sinaliza reforço da participação na Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (OEACP);
  • Diversificação de mercados e diplomacia económica ganham centralidade.

Moçambique aproveita a 39.ª Conferência Ordinária dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, em Addis Abeba, para articular duas frentes estratégicas de elevada relevância económica: a mobilização de financiamento para construção de barragens e outras infra-estruturas hídricas resilientes, e o reforço da sua inserção comercial externa através de uma participação mais activa no espaço da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (OEACP).

A presença do Presidente da República na cimeira ocorre num momento particularmente sensível, marcado por cheias severas que, desde Dezembro de 2025, afectaram cerca de 800 mil pessoas em várias regiões do país. Dados oficiais indicam que o transbordo de rios como Limpopo e Incomáti provocou danos significativos em estradas, pontes, campos agrícolas e infra-estruturas sociais, isolando comunidades e dificultando operações de socorro.

Barragens como resposta estrutural à vulnerabilidade climática

Segundo a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, o Governo está a mobilizar apoio financeiro e técnico para a protecção e reconstrução de infra-estruturas danificadas, com ênfase na sua transformação em activos mais resilientes às alterações climáticas.

A construção de barragens é apresentada como parte de uma estratégia de longo prazo destinada não apenas a mitigar cheias recorrentes, mas também a assegurar disponibilidade de água em períodos de seca, apoiar a agricultura irrigada e reforçar a segurança hídrica nacional.

Num país atravessado por bacias hidrográficas partilhadas com vizinhos regionais, a cooperação transfronteiriça assume dimensão estratégica. A experiência de países como a Etiópia na concepção e implementação de grandes infra-estruturas hídricas surge como referência técnica relevante para Moçambique.

A agenda da cimeira inclui debates sobre fortalecimento da gestão dos recursos hídricos, expansão do acesso à água potável e saneamento e investimento em infra-estruturas capazes de resistir aos impactos das mudanças climáticas, temas directamente alinhados com as prioridades nacionais.

Reposicionamento comercial no espaço ACP

Paralelamente, Moçambique sinaliza intenção de reforçar a sua participação activa no mercado dos países de África, Caraíbas e Pacífico, actualmente estruturado na OEACP.

O enquadramento histórico da participação moçambicana no espaço ACP remonta ao Acordo de Georgetown, de 1975, que estabeleceu uma parceria entre os países ACP e a então Comunidade Económica Europeia. Instrumentos como o Protocolo do Açúcar desempenharam papel determinante na revitalização do sector açucareiro nacional, assegurando quotas e preços preferenciais no mercado europeu.

Com o encerramento formal desse mecanismo em 2009, no âmbito das reformas da política agrícola europeia, as vantagens comerciais foram progressivamente reduzidas, exigindo nova abordagem diplomática e comercial.

O reforço da presença no espaço ACP é agora enquadrado como parte de uma estratégia mais ampla de diplomacia económica, orientada para diversificação de mercados, promoção das exportações e captação de investimento.

Infra-estruturas e comércio como pilares complementares

A articulação destas duas agendas — resiliência hídrica e diversificação comercial — reflecte uma leitura integrada do desenvolvimento económico.

Por um lado, infra-estruturas robustas são condição essencial para proteger activos produtivos, garantir estabilidade agrícola e reduzir custos económicos associados a desastres naturais. Por outro, acesso ampliado a mercados externos e integração em redes de cooperação internacional são determinantes para expandir exportações e dinamizar cadeias de valor.

Num contexto global marcado por volatilidade climática e reconfiguração geoeconómica, Moçambique procura posicionar-se como actor que combina gestão de risco, investimento estrutural e diplomacia económica activa.

A cimeira da União Africana funciona, assim, não apenas como fórum político, mas como plataforma estratégica para alinhar financiamento, cooperação técnica e oportunidades comerciais, num momento em que o país enfrenta desafios climáticos internos e simultaneamente procura consolidar uma trajectória de crescimento mais resiliente e diversificado.

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