Montepuez Ruby Mining Gera US$23,1 Milhões Em Novo Leilão, Mas Queda Do Teor Pressiona Oferta De Rubis

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  • A primeira venda no formato “Trade Select” colocou 348,4 mil quilates no mercado e elevou para US$76,1 milhões a receita da Montepuez Ruby Mining no primeiro semestre. O resultado comercial contrasta, porém, com a redução para metade do teor recuperado de rubis premium, dificuldades na segunda planta de processamento, mineração ilegal e US$28,3 milhões em reembolsos de IVA ainda por receber.
Questões-Chave:
  • O leilão realizado entre 22 e 29 de Junho gerou US$23,1 milhões, com um preço médio de US$66,30 por quilate;
  • Foram vendidos 82 dos 89 lotes oferecidos e 348.409 dos 374.008 quilates disponibilizados;
  • A receita dos leilões da MRM atingiu US$76,1 milhões no primeiro semestre, contra US$38,9 milhões no período homólogo de 2025;
  • Os rubis premium representam menos de 5% do peso produzido, mas normalmente geram mais de 70% da receita da operação;
  • O teor de rubis premium caiu de 0,06 para 0,03 quilates por tonelada, condicionando o inventário disponível para os próximos leilões.

Novo Formato Converte Produção Diversificada Em US$23,1 Milhões

A Gemfields arrecadou US$23,1 milhões com o primeiro leilão de rubis realizado no formato “Trade Select”, composto por uma combinação mais ampla de qualidades de rubi bruto extraído pela Montepuez Ruby Mining (MRM), em Cabo Delgado, e por novas categorias de safiras.

Segundo os resultados divulgados pela empresa, foram vendidos 82 dos 89 lotes disponibilizados, equivalente a uma taxa de colocação de 92,1%. Em volume, foram comercializados 348.409 dos 374.008 quilates oferecidos, correspondentes a 93,2% da oferta, a um preço médio de US$66,30 por quilate. (Gemfields Group)

O formato “Trade Select” foi criado para ocupar um espaço intermédio entre os tradicionais leilões de rubis de qualidade mista da MRM e os leilões de menor dimensão introduzidos em 2025. A intenção é combinar categorias seleccionadas numa única oferta, aproximando a composição do inventário disponível das diferentes necessidades dos compradores.

Adrian Banks, director de Produtos e Vendas da Gemfields, considerou positiva a resposta dos clientes ao novo modelo. Apesar das condições ainda difíceis em algumas áreas do mercado mundial de pedras preciosas coloridas, a empresa registou uma participação elevada e procura nas várias categorias oferecidas.

As pedras foram disponibilizadas para observação presencial em Banguecoque, na Tailândia, seguindo-se uma venda através da plataforma electrónica da Gemfields, na qual compradores de diferentes jurisdições apresentaram propostas confidenciais.

Receita De Montepuez Quase Duplica No Primeiro Semestre

Os US$23,1 milhões deste leilão representam cerca de 30,4% da receita total obtida pela MRM em leilões durante os primeiros seis meses de 2026.

A actualização operacional publicada pela Gemfields mostra que os leilões de rubis de Montepuez geraram US$76,1 milhões no primeiro semestre, contra US$38,9 milhões no mesmo período de 2025. Trata-se de um crescimento de aproximadamente 95,6%, segundo cálculos do O.Económico baseados nos dados não auditados da empresa.

No mesmo período, os leilões de esmeraldas da mina de Kagem, na Zâmbia, renderam US$26,8 milhões. As duas operações produziram, em conjunto, receitas de cerca de US$102,9 milhões, o que significa que os rubis de Moçambique responderam por aproximadamente 74% da facturação dos leilões do grupo no primeiro semestre.

O gráfico apresentado pela Gemfields na página 19 da actualização operacional indica ainda que a MRM acumulou US$1,276 mil milhões em receitas provenientes de 30 leilões realizados desde o início da comercialização estruturada dos rubis de Montepuez.

O desempenho confirma o peso central da operação moçambicana no modelo de negócios da Gemfields. Mostra também que, mesmo num mercado internacional caracterizado pela empresa como desafiante, permanece procura para uma oferta diversificada de pedras provenientes de Montepuez.

Rubis Premium Concentram Mais De 70% Do Valor

A evolução da receita não elimina, porém, a principal fragilidade operacional actualmente enfrentada pela MRM: a redução da concentração de rubis premium no minério processado.

De acordo com a Gemfields, os rubis premium normalmente representam menos de 5% do peso das pedras produzidas e vendidas pela MRM, mas geram mais de 70% da receita da operação. Pequenas alterações no teor recuperado desta categoria podem, por isso, produzir efeitos desproporcionais sobre a facturação e a rentabilidade.

Em 2025, o teor médio de rubis premium na MRM foi de 0,06 quilates por tonelada. Nos primeiros cinco meses de 2026, caiu para 0,03 quilates por tonelada, uma redução de 50%.

A deterioração também é visível em Mugloto, domínio que produziu a maior parte da receita histórica da MRM e representou 78% do minério processado até ao momento. Nesse depósito, o teor premium caiu de 0,03 quilates por tonelada em 2025 para 0,02 quilates nos primeiros cinco meses deste ano — uma redução aproximada de um terço.

O problema económico não reside apenas no número total de quilates extraídos, mas na combinação entre volume e qualidade. Uma produção elevada de pedras de menor valor não compensa automaticamente uma redução dos rubis premium, dada a contribuição excepcional desta categoria para a receita.

Produção Premium Alcança 30,4 Mil Quilates Até Junho

A MRM produziu 30.408 quilates de rubi premium durante o primeiro semestre de 2026, segundo os dados operacionais da Gemfields.

A produção de rubi “tumble”, categoria de menor valor unitário e maior volume, atingiu 168.886 quilates no mesmo período. Os gráficos das páginas 22 e 23 mostram uma recuperação da produção mensal ao longo dos primeiros seis meses do ano, mas ainda sem eliminar as limitações associadas ao teor do minério.

A empresa alterou igualmente a classificação usada nos seus indicadores, retirando as categorias “Secondary Low Sapphire” e “Low Sapphire” da produção de rubis premium e “tumble”. Como os dados dos anos anteriores não foram reexpressos, as comparações históricas devem ser feitas com cautela.

A Gemfields está a realizar amostragens em massa adicionais nas áreas consideradas mais promissoras, procurando identificar material com maior concentração de rubis de valor elevado. A eficácia dessa prospecção será determinante para a composição da oferta nos próximos leilões.

Segunda Planta Ainda Enfrenta Problemas De Estabilização

As dificuldades de produção foram intensificadas pelas chuvas fortes registadas no primeiro trimestre, que limitaram o acesso às zonas mais favoráveis da concessão, e pelos problemas de comissionamento da segunda planta de processamento da MRM, designada PP2.

A unidade funciona desde Setembro de 2025 e já demonstrou capacidade para atingir ou superar o volume de processamento para o qual foi projectada. Contudo, a operação ainda não alcançou a estabilidade e a disponibilidade previstas.

Entre os problemas identificados estão o desgaste superior ao esperado de alguns componentes, deficiências de construção no segundo depurador, obstruções em condutas e alimentadores e disponibilidade insuficiente de peças críticas. Um depurador de substituição deveria chegar à mina em Agosto de 2026, enquanto a conclusão do comissionamento estava prevista para o terceiro trimestre.

Estas limitações não impedem totalmente a actividade, mas tornam o processamento menos regular, elevam o risco de paragens e dificultam a formação de inventários consistentes para os leilões.

A própria Gemfields advertiu que a combinação entre menor teor recuperado, chuvas e dificuldades da PP2 terá um impacto material sobre a quantidade e a qualidade das pedras disponíveis, pelo menos durante o restante período de 2026.

Custos Operacionais Permanecem Em Níveis Elevados

A informação gráfica da Gemfields mostra igualmente que os custos operacionais da MRM permanecem próximos dos níveis mais elevados da série recente.

O gráfico da página 24 indica custos operacionais acumulados, numa base móvel de 12 meses, superiores a US$50 milhões no final de Junho. A movimentação total de rocha manteve-se entre sete e oito milhões de toneladas, com predominância significativa de material estéril sobre o minério efectivamente processado.

A relação entre a quantidade de rocha movimentada e os quilates de valor comercial recuperados é decisiva para a produtividade. Quando o teor diminui, a mina precisa de movimentar e processar mais material para obter o mesmo volume de rubis premium, aumentando o consumo de combustível, mão-de-obra, manutenção e energia por unidade vendável.

O custo unitário por rubi premium, apresentado na página 26, desceu em relação aos máximos registados no final de 2024, mas voltou a mostrar uma trajectória ascendente nos meses mais recentes. A combinação entre menor teor e custos operacionais elevados comprime as margens, mesmo quando os leilões mantêm taxas elevadas de colocação.

Segurança E Mineração Ilegal Afectam Recursos E Operações

A operação de Montepuez continua igualmente exposta aos riscos de segurança no Norte de Cabo Delgado.

A Gemfields relatou ataques contra povoações situadas entre 15 e 35 quilómetros da concessão a partir de 30 de Abril. Como medida de precaução, a MRM suspendeu as actividades durante cerca de 20 horas, retomando-as a 1 de Maio. As condições melhoraram moderadamente desde então, permitindo o regresso da operação a uma situação relativamente normal.

A empresa continua, no entanto, a registar níveis elevados de intrusão para mineração ilegal. Aproximadamente 700 pessoas entram diariamente na concessão, segundo a actualização da Gemfields.

Além dos riscos para trabalhadores, contratados e comunidades, a mineração ilegal retira pedras das áreas mineralizadas sem observância do planeamento da mina, degrada os recursos disponíveis e pode reduzir os teores recuperados pela operação formal.

A situação cria também um problema mais amplo de governação dos recursos naturais. A capacidade de converter os rubis de Montepuez em receitas públicas, emprego formal e desenvolvimento local fica limitada quando parte da produção circula através de redes clandestinas e cadeias comerciais sem rastreabilidade.

US$28,3 Milhões Em IVA Condicionam Fluxo De Caixa

A MRM tinha, a 30 de Junho, US$28,3 milhões em reembolsos de Imposto sobre o Valor Acrescentado por receber do Estado moçambicano.

Segundo a Gemfields, a empresa não recebe reembolsos de IVA desde Outubro de 2024. A acumulação dos montantes, combinada com a maior carga resultante das alterações legislativas introduzidas em Janeiro de 2026, teve um efeito materialmente negativo sobre o fluxo de caixa da operação.

A MRM afirma estar abrangida pelo novo regime especial destinado às empresas extractivas. O primeiro reembolso ao abrigo do mecanismo, correspondente a uma reclamação de US$370 mil relativa a Janeiro, estava previsto para 7 de Agosto.

O pagamento regular do IVA é particularmente relevante numa fase em que a empresa enfrenta simultaneamente despesas de estabilização da segunda planta, custos elevados de segurança e redução do teor recuperado.

Ao nível do grupo, a Gemfields encerrou Junho com US$47,7 milhões em caixa e US$91,9 milhões em dívida, correspondentes a uma posição de dívida líquida de US$44,2 milhões. A empresa tinha ainda US$33,3 milhões em valores por receber de leilões; considerando estes recebíveis, a dívida líquida ajustada seria de US$10,9 milhões.

US$23,1 Milhões Não Equivalem A Receita Do Estado

A receita bruta do leilão não deve ser confundida com o valor directamente arrecadado pelo Estado moçambicano.

A Gemfields detém 75% da MRM, enquanto os restantes 25% pertencem à sociedade moçambicana Mwiriti. A empresa assegura que as receitas do leilão serão integralmente repatriadas para a MRM, em Moçambique, e que os royalties devidos ao Governo serão calculados sobre o valor total das vendas.

Contudo, os documentos divulgados não quantificam o valor dos royalties correspondentes a este leilão, o imposto sobre o rendimento que poderá ser pago, as compras efectuadas a fornecedores nacionais, os salários, os dividendos ou outras componentes do valor retido na economia.

Uma avaliação completa da contribuição da operação para Moçambique exige, por isso, separar facturação comercial, custos de produção, impostos, royalties, investimento, contratação local e resultados distribuídos aos accionistas.

O leilão representa uma entrada relevante de divisas para a operação instalada no País, mas o seu impacto económico nacional só pode ser medido através da parcela do valor que permanece efectivamente em Moçambique e da forma como essa receita é convertida em desenvolvimento produtivo e territorial.

Oferta, E Não Procura, Assume O Centro Da Análise

O resultado do “Trade Select” mostra que continua a existir procura internacional pelos rubis de Montepuez. As taxas de venda superiores a 90% dos lotes e dos quilates oferecidos confirmam que os compradores responderam ao novo formato.

Nos próximos meses, porém, o centro da análise desloca-se da procura para a capacidade de oferta.

A redução dos teores premium, a instabilidade da segunda planta, as intrusões de mineração ilegal, os riscos de segurança e os atrasos nos reembolsos de IVA podem limitar a quantidade e a qualidade do inventário disponível para comercialização.

A Gemfields prepara o próximo leilão de rubis de qualidade mista para Outubro de 2026. A dimensão e a composição dessa oferta permitirão observar até que ponto a recuperação operacional e as amostragens em novas áreas estão a compensar a deterioração registada nos principais depósitos.

O leilão de US$23,1 milhões constitui, assim, um resultado comercial positivo num semestre em que as receitas de Montepuez quase duplicaram. Mas a sustentabilidade desse desempenho será determinada menos pelo sucesso de uma venda isolada e mais pela capacidade de reconstruir os teores, estabilizar a produção e converter a riqueza mineral em valor económico duradouro para a operação e para Moçambique.