
Turismo Mundial Cresce 2%, Mas Guerra Reduz Perspectivas Para 2026
- Cerca de 307 milhões de pessoas viajaram internacionalmente no primeiro trimestre, mais seis milhões do que no período homólogo. África e Europa cresceram 4%, enquanto o Médio Oriente recuou 14%. A subida do petróleo, os cortes de voos e o encarecimento das tarifas deverão transferir parte da procura para destinos mais próximos.
- As chegadas de turistas internacionais cresceram 2% no primeiro trimestre de 2026, para 307 milhões;
- A progressão acumulada de 2,5% em Janeiro e Fevereiro desacelerou para apenas 0,4% em Março, após o agravamento do conflito no Médio Oriente;
- África e Europa registaram crescimento de 4%, acima da média mundial, enquanto o Médio Oriente perdeu 14%;
- A ONU Turismo admite que a crise retire entre um e dois pontos percentuais à previsão inicial de crescimento anual de 3% a 4%;
- A IATA prevê que o tráfego aéreo mundial cresça apenas 2,1% em 2026, perante combustíveis mais caros e menor capacidade em algumas rotas;
- Para Moçambique, a reorientação para viagens regionais cria uma oportunidade potencial, mas exige conectividade, preços competitivos, segurança e produtos turísticos integrados.
Procura Resiste, Mas Março Marca Uma Mudança De Ritmo
O turismo internacional cresceu 2% durante os primeiros três meses de 2026, apesar das perturbações nos transportes e da deterioração da confiança dos viajantes provocadas pelo conflito no Médio Oriente.
Segundo a ONU Turismo, aproximadamente 307 milhões de turistas atravessaram fronteiras internacionais no primeiro trimestre, mais seis milhões do que no mesmo período de 2025. A procura manteve um crescimento acumulado de 2,5% em Janeiro e Fevereiro, mas desacelerou para apenas 0,4% em Março, quando as interrupções nas ligações aéreas começaram a produzir efeitos mais amplos.
O desempenho confirma que as viagens continuam a ocupar um lugar relevante nas decisões de consumo das famílias, mesmo perante inflação, instabilidade geopolítica e tarifas mais elevadas. Contudo, a diferença entre o crescimento dos dois primeiros meses e o resultado de Março indica que a resiliência do sector está a ser progressivamente condicionada pelos custos e pela conectividade.
A evolução posterior do transporte aéreo sugere que o choque não ficou limitado ao primeiro trimestre. Dados da Associação Internacional do Transporte Aéreo, IATA, mostram que a procura mundial de passageiros caiu 3,4% em Abril e 2,2% em Maio, em termos homólogos, devido sobretudo à perturbação das operações no Médio Oriente.
Previsão Anual Pode Perder Até Dois Pontos Percentuais
Antes do agravamento do conflito, a ONU Turismo previa que as chegadas internacionais crescessem entre 3% e 4% em 2026.
A organização considera agora que a guerra poderá retirar entre um e dois pontos percentuais a essa previsão, dependendo da duração do conflito, da sua extensão geográfica e do tempo necessário para restabelecer as ligações aéreas. Por inferência aritmética, o crescimento anual poderá situar-se num intervalo aproximado entre 1% e 3%, caso as restantes condições permaneçam relativamente estáveis.
Esta revisão traduz três canais principais de transmissão. O primeiro é a suspensão, alteração ou redução de voos que utilizam os grandes centros de conexão do Golfo. O segundo é a subida do preço do petróleo e, de forma ainda mais intensa, do combustível de aviação. O terceiro é a mudança das decisões dos viajantes perante a incerteza sobre rotas, horários, segurança e custos.
A IATA reduziu igualmente a previsão de crescimento do tráfego aéreo mundial para 2,1% em 2026. A associação estima que o custo dos combustíveis das companhias aéreas aumente de US$252 mil milhões em 2025 para US$350 mil milhões este ano, enquanto o preço médio do combustível de aviação poderá subir quase 70%, para US$152 por barril.
O aumento das despesas operacionais tende a ser transmitido, pelo menos parcialmente, às tarifas. A IATA prevê uma subida de 7% no rendimento médio obtido pelas transportadoras por passageiro, sinal de que as companhias procuram compensar o choque energético através de bilhetes e serviços mais caros.
Europa E África Crescem Acima Da Média Mundial
A Europa recebeu mais de 130 milhões de turistas internacionais no primeiro trimestre, um aumento de 4% face ao período homólogo. O Sul mediterrânico e o Norte europeu cresceram igualmente 4%, enquanto a Europa Central e Oriental avançou 6%, prosseguindo a recuperação observada em 2025.
Parte deste desempenho resultou da transferência de passageiros e itinerários que anteriormente utilizavam os centros de conexão do Médio Oriente. A localização, a densidade das redes aéreas e a diversidade de destinos permitiram à Europa absorver parte dos fluxos desviados.
África também registou um crescimento de 4%. Tanto o Norte do continente como a África Subsaariana avançaram ao mesmo ritmo, com o Norte africano a beneficiar de uma expansão de 18% apenas em Março.
A progressão africana assume particular relevância porque ocorre num momento em que os viajantes procuram destinos alternativos, rotas mais curtas e melhor relação entre preço e experiência. O desempenho, porém, não deve ser interpretado como uniforme entre países. A documentação da ONU Turismo não apresenta resultados específicos para Moçambique no primeiro trimestre de 2026.
O crescimento continental mostra, ainda assim, que existe procura disponível. A disputa por essa procura será determinada pela capacidade dos destinos para oferecer ligações aéreas regulares, previsibilidade, segurança, alojamento competitivo, serviços digitais e experiências capazes de prolongar a permanência e aumentar a despesa por visitante.
Médio Oriente Perde 14% Das Chegadas
O Médio Oriente registou a maior contracção regional, com uma queda de 14% nas chegadas internacionais durante o primeiro trimestre.
A redução interrompeu uma trajectória de forte recuperação. Em 2025, a região tinha recebido 40% mais turistas do que em 2019, antes da pandemia. O resultado demonstra a velocidade com que um choque geopolítico pode inverter o desempenho de mercados que dependem da conectividade aérea internacional.
Vários destinos do Golfo registaram quedas acentuadas, enquanto o Egipto contrariou a tendência regional, com um crescimento de 16%. A diferença evidencia que os viajantes não abandonam necessariamente toda uma região: podem redireccionar a procura para destinos considerados acessíveis, operacionais e relativamente seguros.
No transporte aéreo, o impacto foi ainda mais pronunciado. Em Março, a procura internacional das companhias do Médio Oriente caiu 60,8%, enquanto a capacidade recuou de forma acentuada. Durante os primeiros dias do conflito, cerca de 85% dos voos com partida ou chegada aos aeroportos do Golfo chegaram a ser cancelados, segundo a IATA.
Os dados de reservas divulgados em Julho indicam uma recuperação gradual das ligações, mas as vendas antecipadas para viagens entre Junho e Setembro permaneciam, em Maio, cerca de 30% abaixo do nível observado um ano antes.
Ásia Cresce, Mas Perde Tráfego Nas Rotas Dependentes Do Golfo
A Ásia e o Pacífico registaram um crescimento de 3% no primeiro trimestre, abaixo do ritmo inicialmente esperado.
O desempenho variou consideravelmente entre sub-regiões. A Oceânia avançou 9% e o Nordeste Asiático 5%, enquanto o Sul da Ásia sofreu uma queda de 27% em Março, reflectindo a dependência das ligações que atravessam os principais centros aéreos do Médio Oriente.
Apesar da recuperação, as chegadas internacionais à Ásia continuavam 11% abaixo dos níveis do primeiro trimestre de 2019. A região tinha recuperado apenas 89% do volume anterior à pandemia.
A alteração das rotas criou oportunidades para outras companhias e centros de conexão. A IATA observou que transportadoras da Ásia-Pacífico e da Europa captaram parte do tráfego anteriormente canalizado pelo Golfo, com passageiros a procurarem alternativas entre a Europa e a Ásia.
Esta reorientação aumenta a distância de algumas viagens e pode elevar os custos, mas também demonstra a capacidade do sistema aéreo para redistribuir passageiros quando uma parte da rede deixa de funcionar plenamente.
Américas Avançam 2% Com Forte Disparidade Regional
As Américas acompanharam a média mundial, com um aumento de 2% nas chegadas internacionais.
A América Central destacou-se com uma expansão de 18%, enquanto a América do Sul registou uma redução de 1%. Entre os destinos com maior crescimento no trimestre figuraram Paraguai, com 46%, e El Salvador, com 43%.
A realização do Campeonato Mundial de Futebol nos Estados Unidos, Canadá e México deverá sustentar parte da procura durante Junho e Julho. O efeito do evento, porém, será parcialmente condicionado pelos preços dos bilhetes, do alojamento e do transporte interno.
Os resultados regionais confirmam que grandes eventos podem criar procura adicional, mas a capacidade de converter essa procura em receitas duradouras depende da articulação entre aviação, hotelaria, mobilidade, comércio, cultura e promoção de outros destinos para além das cidades anfitriãs.
Viajantes Procuram Proximidade E Melhor Relação Custo-Benefício
A subida das tarifas está a alterar não apenas o número de viagens, mas também a escolha dos destinos.
A ONU Turismo considera provável que parte dos viajantes opte por locais mais próximos, reduzindo a exposição a voos longos, escalas e alterações imprevistas. Outros poderão substituir viagens internacionais por deslocações domésticas ou regionais.
Num inquérito realizado junto de especialistas do sector, 64% afirmaram que o conflito no Médio Oriente estava a afectar negativamente a procura pelos respectivos destinos. Para 43%, o impacto era moderado, enquanto 21% o classificaram como elevado.
Cerca de 61% observaram uma redução do turismo receptivo. Em sentido contrário, 17% registaram crescimento devido à transferência de passageiros que evitaram outros destinos, enquanto 14% identificaram um aumento do turismo doméstico em substituição de viagens para o exterior.
O padrão mostra que a crise não elimina toda a procura turística. Redistribui-a entre destinos, regiões, meios de transporte e segmentos de preço.
Para as empresas, isto exige produtos mais flexíveis, políticas de remarcação, comunicação permanente com os clientes e ofertas que demonstrem claramente o valor obtido por cada unidade monetária despendida.
Hotelaria Mantém Ocupação Global, Mas Médio Oriente Recua
A taxa média de ocupação dos estabelecimentos de alojamento mundial atingiu 64% em Março, igualando o nível observado no mesmo mês de 2025.
Europa, Américas e Ásia-Pacífico apresentaram taxas de 65%. África alcançou 56%, enquanto o Médio Oriente caiu para 48%, depois de ter registado 75% em Janeiro.
A estabilidade da ocupação mundial esconde, portanto, uma redistribuição geográfica significativa. As perdas dos destinos mais afectados foram parcialmente compensadas por ganhos noutras regiões.
Para os operadores hoteleiros, a inflação dos serviços cria uma escolha difícil. O aumento dos custos de energia, alimentação, transporte e pessoal justifica preços mais elevados, mas tarifas excessivas podem reduzir a procura ou encurtar a duração das estadias.
A gestão de receitas terá de equilibrar ocupação, preço médio e rentabilidade, num contexto em que o consumidor compara destinos com maior rapidez e procura promoções, pacotes e condições flexíveis.
Confiança Permanece Positiva, Mas Perde Intensidade
O Índice de Confiança da ONU Turismo atribuiu 105 pontos às perspectivas para o período entre Maio e Agosto de 2026, numa escala em que 100 representa um desempenho semelhante ao ano anterior.
O resultado permanece ligeiramente positivo, mas está abaixo dos 117 pontos atribuídos ao período entre Janeiro e Abril.
Entre os 300 profissionais consultados, 39% esperavam um desempenho melhor ou muito melhor, 28% antecipavam resultados semelhantes aos de 2025 e 31% previam uma evolução pior ou muito pior.
Esta distribuição mostra um sector dividido entre a continuidade da procura e a crescente dificuldade de prever custos, voos e comportamento dos consumidores.
A IATA estima que a rentabilidade líquida das companhias aéreas mundiais caia de US$45 mil milhões em 2025 para US$23 mil milhões em 2026. A margem líquida deverá recuar de 4,2% para 2%, apesar de as receitas totais poderem atingir US$1,165 biliões.
O crescimento nominal das receitas será, assim, acompanhado por custos ainda mais elevados, reduzindo a capacidade financeira das empresas para absorver novos choques.
Moçambique Precisa Disputar Os Fluxos Redireccionados
Numa leitura do O.Económico, o crescimento de 4% da África Subsaariana e a preferência crescente por viagens regionais criam uma janela potencial para Moçambique.
Essa oportunidade não se materializa automaticamente. O destino terá de competir com países que oferecem ligações aéreas mais frequentes, plataformas de reserva mais eficientes, maior previsibilidade, melhor sinalização turística e produtos integrados entre praias, conservação, cultura, gastronomia e eventos.
O contexto favorece uma estratégia orientada para mercados regionais, nos quais o custo e a duração da viagem podem ser inferiores aos das deslocações intercontinentais. Pacotes que combinem transporte, alojamento e experiências podem reduzir a incerteza do consumidor e melhorar a percepção de valor.
A crise também mostra que conectividade aérea e turismo não devem ser tratados separadamente. A ausência de ligações regulares limita a procura, encarece os pacotes, reduz a permanência dos visitantes e dificulta o funcionamento dos operadores turísticos.
Moçambique poderá beneficiar da redistribuição dos fluxos apenas se transformar a sua proximidade regional e os seus activos naturais em produtos comercialmente acessíveis, seguros e previsíveis.
Crescimento De 2% Esconde Uma Competição Mais Exigente
Os 307 milhões de turistas registados no primeiro trimestre mostram que o turismo internacional continua a crescer. O resultado, porém, não representa um regresso a um ambiente de expansão estável.
A subida do combustível, a redução de capacidade, os desvios de rotas e a incerteza geopolítica estão a tornar as viagens mais caras e a modificar a geografia da procura.
Os destinos que conseguirem combinar conectividade, segurança, flexibilidade e boa relação custo-benefício poderão capturar parte dos fluxos retirados de outros mercados. Os restantes enfrentarão uma procura mais selectiva e maior dificuldade para sustentar taxas de ocupação e receitas.
O principal movimento de 2026 poderá, por isso, não ser apenas uma desaceleração quantitativa do turismo mundial, mas uma redistribuição da procura em favor de destinos mais próximos, acessíveis e capazes de reduzir o risco percebido pelo viajante.
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