• Postos sem produto, vendas reservadas a clientes com contratos e longas filas voltaram a marcar Maputo e Matola. O Governo reconhece a possibilidade de uma segunda vaga de escassez, mas ainda não apresentou um diagnóstico sobre as causas, numa altura em que consumidores e empresas receiam o regresso das perturbações registadas entre Abril e Maio.
Questões-Chave:
  • A falta de gasolina começou a ser observada no final de Julho e intensificou-se no último fim-de-semana;
  • Automobilistas relatam ter percorrido vários postos em Maputo, Matola e Boane sem conseguir abastecer;
  • Alguns postos dispunham de produto, mas restringiam as vendas a clientes com contratos;
  • O Governo está a recolher informação para determinar se o país enfrenta uma segunda vaga de escassez;
  • A ARENE mantém a gasolina em 93,69 meticais por litro e o gasóleo em 116,25 meticais desde 7 de Maio;
  • A nova perturbação mostra que existência de reservas, financiamento das importações e distribuição nos postos são dimensões diferentes da segurança do abastecimento.

Filas Regressam Depois De Quase Dois Meses De Acalmia

Maputo e Matola voltaram a registar dificuldades no abastecimento de combustíveis, sobretudo gasolina, depois de quase dois meses de aparente normalização do mercado.

Uma ronda efectuada pelo jornal O País em postos de abastecimento das cidades de Maputo e Matola constatou que os primeiros sinais de escassez começaram no final de Julho e ganharam maior intensidade durante o último fim-de-semana. Em várias bombas, o produto encontrava-se esgotado; noutras, a gasolina disponível estava reservada exclusivamente a clientes com contratos.

Nos poucos postos que vendiam combustível sem restrições, formaram-se longas filas, acompanhadas por congestionamentos nas vias de acesso. Automobilistas relataram ter percorrido sucessivamente postos localizados em Boane, Matola, Tchumene e diferentes zonas da cidade de Maputo sem conseguirem abastecer.

As filas foram observadas, entre outros locais, em postos situados nas avenidas Vladimir Lenine e Karl Marx e nas proximidades da Praça da OMM. Alguns automobilistas ficaram sem combustível durante a procura, tendo sido obrigados a empurrar as viaturas ou a recorrer ao transporte em recipientes autorizados.

O cenário reproduz parte dos sinais que antecederam a crise de Abril e Maio: encerramento temporário de postos, concentração da procura nas bombas ainda operacionais, compras preventivas e deterioração rápida da confiança dos consumidores.

Governo Admite Possibilidade De Uma Segunda Vaga

O Governo confirmou que tem conhecimento da situação, mas ainda não identificou publicamente as causas da nova perturbação.

No final da reunião do Conselho de Ministros de terça-feira, 4 de Agosto, o porta-voz do Executivo, Inocêncio Impissa, declarou que as autoridades estavam a analisar o mercado para compreender o que estava efectivamente a acontecer.

“Ainda está-se a fazer uma análise para perceber o que é que está a passar efectivamente, para que se esteja a vivenciar, aparentemente, ou esteja, pelo menos, a iniciar uma segunda vaga de escassez”, afirmou Impissa, citado pela Lusa.

O porta-voz reconheceu a existência de postos encerrados por falta de combustível e de filas nos estabelecimentos que mantinham vendas, assegurando que o Executivo estava a recolher dados junto dos diferentes intervenientes da cadeia.

A declaração governamental é relevante por reconhecer que o problema voltou ao mercado, mas mantém em aberto a questão central: trata-se de falta física de produto, dificuldade no financiamento das importações, ruptura na distribuição, incumprimento de operadores ou combinação destes factores?

Enquanto não for apresentado um diagnóstico, qualquer conclusão sobre a origem da nova escassez permanece prematura.

Produto Disponível Não Significa Produto Acessível

Os relatos recolhidos nos postos sugerem que a crise não deve ser avaliada apenas pelo volume total de combustível existente no país.

Uma parte dos estabelecimentos visitados pelo O País dispunha de gasolina, mas limitava o abastecimento a clientes com contratos comerciais. Para os consumidores ocasionais, a existência física do produto dentro do posto não se traduzia em disponibilidade efectiva.

Esta diferença é importante. A segurança do abastecimento possui, pelo menos, três níveis: produto existente nos terminais ou depósitos; produto libertado para as distribuidoras; e produto efectivamente disponível na rede pública de postos.

Um país pode apresentar reservas agregadas e, simultaneamente, enfrentar escassez local se ocorrerem dificuldades no transporte, na reposição dos postos, no acesso das distribuidoras ao produto, no financiamento das aquisições ou na gestão das vendas.

O caso relatado em Maputo e Matola mostra igualmente que os dados nacionais de stock precisam de ser complementados por informação sobre a distribuição geográfica, o tipo de combustível disponível e o volume que chega diariamente aos consumidores.

Crise Anterior Expôs Problemas Logísticos E Financeiros

Entre Abril e Maio, Moçambique enfrentou uma escassez prolongada de gasolina e gasóleo, com postos encerrados em diferentes regiões, limitações às quantidades vendidas e redução da disponibilidade de transporte público.

A crise foi inicialmente associada às dificuldades logísticas provocadas pelo conflito no Médio Oriente e às perturbações nas rotas internacionais de fornecimento. Posteriormente, autoridades e estudos nacionais apontaram também constrangimentos no financiamento das importações e dificuldades operacionais de alguns distribuidores.

Um relatório técnico apresentado em Junho pela Fundação para a Competitividade Empresarial de Moçambique — FUNDEC concluiu que a crise anterior não resultou apenas de inexistência física de combustível no mercado internacional. Segundo a instituição, a escassez de divisas, a dependência de cartas de crédito e as limitações financeiras de distribuidores afectaram a capacidade de garantir importações e pagamentos dentro dos prazos necessários. 

Esta avaliação não prova que a perturbação de Agosto tenha a mesma origem. Mostra, porém, que o sistema nacional já apresentava vulnerabilidades financeiras e operacionais antes do reaparecimento das filas.

Intervenção Da Petromoc Estabilizou Mercado Em Maio

Durante a crise anterior, o Governo adoptou medidas excepcionais para aumentar a disponibilidade de combustível na rede pública.

Em 20 de Maio, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia — MIREME informou que o Ministério das Finanças tinha criado uma facilidade destinada a permitir a libertação de parcelas adicionais de combustível através da Petromoc.

A empresa pública passou então a fornecer produto a operadores retalhistas independentemente dos contratos anteriormente existentes, alcançando cerca de 42% da quota de abastecimento do mercado, segundo o MIREME. O Governo declarou igualmente que acompanhava diariamente os níveis de stock, distribuição e venda. 

O regresso da escassez pouco mais de dois meses depois levanta dúvidas sobre a durabilidade das medidas implementadas e sobre a capacidade do sistema para funcionar regularmente sem facilidades financeiras ou intervenções extraordinárias do Estado.

A questão estratégica não consiste apenas em ultrapassar cada episódio. Consiste em criar um mecanismo capaz de evitar que dificuldades previsíveis de financiamento, logística ou distribuição se transformem repetidamente em filas e interrupções da actividade económica.

Aumento Dos Preços Não Garantiu Abastecimento Regular

A crise de Abril e Maio foi acompanhada por uma revisão expressiva dos preços de venda ao público.

Dados actualmente publicados pela Autoridade Reguladora de Energia — ARENE indicam que a gasolina passou de 83,57 para 93,69 meticais por litro, representando um aumento de 12,1%. O gasóleo subiu de 79,88 para 116,25 meticais por litro, uma variação de 45,5%. Os preços vigoram desde 7 de Maio de 2026. 

A revisão foi justificada pela evolução do mercado internacional, pelos custos de importação e pelas dificuldades de fornecimento associadas ao conflito no Médio Oriente. Contudo, o reaparecimento da escassez mostra que a adequação do preço ao custo de importação é apenas uma componente da segurança energética.

Um preço mais elevado pode melhorar a viabilidade comercial da importação, mas não resolve automaticamente problemas de liquidez cambial, garantias bancárias, acesso ao crédito, programação de navios, distribuição terrestre ou gestão dos stocks na rede retalhista.

Para consumidores e empresas, o resultado é particularmente difícil: suportam preços significativamente superiores aos do início do ano, mas continuam sujeitos ao risco de não encontrarem produto.

Procura Interna Cresceu Antes Da Crise

A nova escassez ocorre num mercado que já vinha registando maior procura por combustíveis.

O boletim estatístico da ARENE relativo ao quarto trimestre de 2025 indica que o consumo de combustíveis líquidos aumentou 23,6% em termos homólogos, impulsionado principalmente pela gasolina e pelo gasóleo.

A rede pública representava 85,2% do consumo, enquanto os megaprojectos absorviam 14,6%. A ARENE observava igualmente que os portos da Beira, Maputo e Nacala concentravam quase todas as importações nacionais. 

O crescimento da procura aumenta a necessidade de uma programação mais rigorosa das importações e da reposição dos stocks. Quando a margem de segurança é reduzida, atrasos num carregamento, dificuldades de uma distribuidora ou compras preventivas dos consumidores podem produzir efeitos rápidos na rede.

A corrida aos postos também pode ampliar a escassez inicial. Quando os consumidores antecipam que o produto poderá acabar, passam a abastecer quantidades superiores ao habitual, acelerando a redução dos stocks disponíveis. Este comportamento não cria a falha original, mas pode intensificá-la.

Escassez Afecta Mais Do Que A Mobilidade Individual

A falta de combustível não constitui apenas um problema para automobilistas particulares.

O gasóleo e a gasolina sustentam o transporte de passageiros, a distribuição de alimentos, o funcionamento de pequenas empresas, a agricultura, a construção, a indústria e grande parte da logística urbana e interprovincial.

Na crise anterior, a indisponibilidade de produto condicionou actividades empresariais e reduziu a circulação de transportes. A presença da Unidade de Intervenção Rápida em alguns postos tornou-se necessária para controlar filas e garantir segurança, segundo a informação reunida pela Lusa.

Um novo episódio prolongado poderá aumentar os custos operacionais das empresas, reduzir horas de trabalho, afectar o abastecimento de mercados e provocar novas pressões sobre os preços dos bens essenciais.

Para operadores de transporte, a combinação entre combustível mais caro e produto irregularmente disponível reduz a previsibilidade das operações. Para as famílias, aumenta o risco de encarecimento das deslocações e de menor oferta de transporte público.

Transparência Dos Stocks Torna-Se Parte Da Solução

A resposta imediata deve começar pela divulgação de informação suficientemente detalhada para reduzir a incerteza.

A comunicação pública precisa indicar os níveis de stock por produto, a cobertura estimada em dias, os volumes em trânsito, as regiões afectadas, os constrangimentos identificados e o prazo previsto para normalização.

Informações agregadas sobre a existência de combustível no país podem não ser suficientes quando determinados postos ou províncias permanecem sem produto.

A transparência também permitiria distinguir uma escassez nacional de uma falha localizada de distribuição. Esta diferença é decisiva para orientar a intervenção do Governo, evitar compras de pânico e responsabilizar os operadores que não estejam a cumprir as suas obrigações.

Reservas Estratégicas Exigem Disponibilidade Operacional

A experiência de 2026 sugere que Moçambique precisa de tratar as reservas estratégicas não apenas como capacidade física de armazenagem, mas como produto financiado, acessível e mobilizável em situações de emergência.

O Relatório Estatístico de Energia do MIREME indica que o país dispunha, em 2024, de capacidade de armazenagem próxima de 1,4 milhões de metros cúbicos, concentrada sobretudo no gasóleo e na gasolina. Porém, capacidade instalada não significa necessariamente depósitos cheios ou produto disponível para entrega imediata à rede. 

Uma política de reservas eficaz requer regras claras sobre volumes mínimos, financiamento, rotação do produto, localização geográfica e condições de libertação.

Exige igualmente mecanismos de fiscalização capazes de acompanhar o percurso do combustível desde os terminais até aos postos, reduzindo o risco de retenção, desvio ou comercialização fora dos canais autorizados.

Em Maio, o MIREME revogou a licença de um posto em Tchumene II, na Matola, depois de detectar o abastecimento directo de um camião-cisterna, operação incompatível com uma licença destinada à venda a consumidores finais. O Ministério considerou que a prática comprometia a rastreabilidade e a disciplina do mercado. 

Diversificação É Necessária, Mas Não Resolve A Emergência Actual

O Governo tem defendido o desenvolvimento de biocombustíveis e maior utilização do gás natural como instrumentos para reduzir a dependência das importações de produtos petrolíferos.

Em Junho, o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estêvão Pale, afirmou que Moçambique possui condições agrícolas, naturais e logísticas para criar uma cadeia nacional de biocombustíveis. O governante reconheceu, no entanto, que estas alternativas não substituirão os combustíveis fósseis no curto prazo.

A diversificação da matriz energética deve, por isso, avançar paralelamente à resolução dos problemas actuais de importação, financiamento e distribuição.

Biocombustíveis, gás natural veicular e mobilidade eléctrica podem reduzir a exposição futura aos choques internacionais. Mas as empresas, os transportadores e os consumidores continuam, no presente, dependentes de um sistema regular de abastecimento de gasolina e gasóleo.

Nova Vaga Exige Diagnóstico Antes De Medidas Avulsas

O reaparecimento das filas em Maputo e Matola demonstra que a crise anterior não pode ser considerada definitivamente encerrada.

O Governo precisa agora de esclarecer se a perturbação resulta de atrasos nas importações, limitações de stock, dificuldades financeiras dos distribuidores, problemas de reposição, incumprimento de operadores ou aumento extraordinário da procura.

Sem este diagnóstico, medidas avulsas poderão aliviar temporariamente os postos mais afectados sem resolver a origem do problema.

A segurança do abastecimento deve ser medida pela capacidade de garantir produto regularmente, a preços previsíveis e em todas as etapas da cadeia. A existência de combustível num terminal ou depósito só produz segurança económica quando esse produto chega aos transportadores, às empresas e às famílias.

A nova escassez coloca novamente esta diferença no centro do debate energético nacional.