
Crescer Já Não Basta: ONU Quer Medir O Que O PIB Deixa de Fora
• Novo quadro “Beyond GDP” propõe 31 indicadores para acompanhar bem-estar, equidade, inclusão, sustentabilidade e resiliência, enquanto a escassez de dados ameaça deixar países em desenvolvimento precisamente onde a necessidade de medir a qualidade do crescimento é maior.
- A ONU propõe um quadro de 31 indicadores para complementar o Produto Interno Bruto na medição do progresso económico e social;
- O modelo organiza a avaliação em três dimensões centrais: bem-estar actual, equidade e inclusão, e sustentabilidade e resiliência;
- A evidência mostra que o crescimento do PIB pode coexistir com deterioração da segurança, aumento da desigualdade, menor confiança social ou agravamento das pressões ambientais;
- Os países em desenvolvimento apresentam lacunas significativas de informação para medir várias das novas dimensões propostas;
- A UNCTAD está a testar os indicadores e a apoiar os países no reforço das capacidades estatísticas e analíticas;
- Para África, a discussão ganha relevância perante economias onde o crescimento associado aos recursos naturais nem sempre se traduz proporcionalmente em emprego, rendimento e transformação produtiva.
Durante décadas, uma das perguntas mais utilizadas para avaliar o desempenho de uma economia foi relativamente simples: quanto cresceu o Produto Interno Bruto?
A resposta continua a ser indispensável. O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos numa economia e permite acompanhar expansão, estagnação ou contracção da actividade. Mas diz muito menos sobre a distribuição dos ganhos dessa produção, a qualidade de vida das populações, a desigualdade, a segurança, a preservação dos recursos naturais ou a capacidade de sustentar o desenvolvimento ao longo do tempo.
É precisamente esta limitação que uma nova iniciativa das Nações Unidas pretende enfrentar.
No relatório “Counting What Counts”, apresentado em Maio de 2026, o Grupo de Peritos de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Beyond GDP propõe um quadro composto por 31 indicadores, destinado não a substituir o PIB, mas a complementá-lo com outras dimensões do progresso económico e social. Texto colado
A mudança é conceptualmente importante. Em vez de concentrar a avaliação predominantemente naquilo que uma economia produz, a nova arquitectura procura incorporar também aquilo que essa produção sustenta, como os seus benefícios são distribuídos e que condições deixa para o futuro. Texto colado
PIB Mede Produção — Não Mede Todo O Progresso
A discussão não significa abandonar o PIB.
O indicador continua a desempenhar uma função central na análise económica. Permite calcular o tamanho de uma economia, acompanhar ciclos económicos, estabelecer comparações, avaliar receitas e despesas públicas relativamente à produção nacional e analisar variáveis como dívida, investimento e produtividade.
O problema surge quando se procura utilizar a mesma medida para responder a questões para as quais não foi concebida.
Um aumento do PIB não revela, por si só, quem recebeu os rendimentos adicionais. Também não indica automaticamente se a população vive mais e com melhor saúde, se as oportunidades económicas estão distribuídas de forma mais equilibrada ou se o crescimento está a consumir activos naturais de forma insustentável.
Os exemplos reunidos pela UNCTAD ajudam a demonstrar esta diferença.
A Costa Rica apresenta um PIB per capita inferior a um quarto do registado nos Estados Unidos, mas possui uma esperança de vida saudável superior. No Sul da Europa, a esperança de vida saudável continuou a melhorar mesmo durante períodos de desaceleração económica. Texto colado
A relação entre rendimento e bem-estar existe, portanto, mas não é automática nem suficiente para explicar todas as dimensões do desenvolvimento.
Crescimento Pode Conviver Com Deterioração Social
A segurança fornece outro exemplo.
Na América Latina, o PIB aumentou 17% entre 2015 e 2023, enquanto os homicídios cresceram quase 50%. Segundo a análise apresentada, a taxa mediana de homicídios atingiu em 2023 o nível mais elevado da série considerada. Texto colado
O contraste mostra por que duas economias com taxas semelhantes de crescimento podem produzir resultados sociais muito diferentes.
O mesmo ocorre com a coesão social.
No Norte de África, o PIB per capita mediano aumentou 10,5% entre 2014 e 2022, mas a proporção de pessoas que afirmavam que “a maioria das pessoas é de confiança” caiu mais de 17%. Na Ásia Ocidental, pelo contrário, tanto o PIB per capita como o indicador de confiança aumentaram mais de 20% no mesmo período. Texto colado
A comparação introduz uma variável normalmente ausente das estatísticas macroeconómicas tradicionais: confiança social.
Embora difícil de quantificar, a confiança influencia relações económicas, custos de transacção, funcionamento das instituições e capacidade de cooperação. Uma economia pode, assim, produzir mais bens e serviços e simultaneamente registar deterioração de determinados elementos que condicionam o seu funcionamento social e económico.
Crescer Também Não Significa Distribuir
A distribuição dos ganhos constitui outra das limitações da leitura isolada do PIB.
A UNCTAD compara a evolução do PIB per capita com a distribuição da riqueza na Europa Oriental e no Sul da Europa. Apesar de o PIB per capita ter crescido mais rapidamente na Europa Oriental, a parcela da riqueza detida pelos 99% inferiores da distribuição diminuiu de forma mais acentuada nessa região. Texto colado
O crescimento agregado pode, portanto, coexistir com aumento da concentração da riqueza.
Uma dinâmica semelhante aparece quando se introduz a dimensão de género. Nas economias desenvolvidas analisadas, o PIB per capita médio aumentou 12% ao longo de dez anos, enquanto a remuneração horária média das mulheres relativamente à dos homens melhorou apenas 1%. Texto colado
O indicador agregado mostra expansão económica. A análise distributiva revela que os benefícios dessa expansão podem avançar a ritmos muito diferentes entre grupos da população.
É precisamente essa informação que o quadro Beyond GDP procura incorporar de forma sistemática.
Três Dimensões Para Complementar O PIB
A proposta das Nações Unidas estrutura os novos indicadores em torno de três dimensões fundamentais: bem-estar actual; equidade e inclusão; sustentabilidade e resiliência. Texto colado
A primeira procura captar as condições efectivamente experimentadas pelas pessoas no presente.
A segunda introduz a distribuição dessas condições, procurando perceber quem participa e quem permanece excluído dos ganhos económicos.
A terceira acrescenta uma dimensão intertemporal: até que ponto os níveis actuais de produção e bem-estar podem ser sustentados sem comprometer recursos, ambiente e capacidade económica futura.
Esta última questão ganha particular relevância num período em que crescimento, alterações climáticas, transição energética e exploração de recursos naturais estão cada vez mais interligados.
O Paradoxo Das Emissões
Os dados ambientais apresentados pela UNCTAD mostram outro limite importante das métricas tradicionais.
As emissões de gases com efeito de estufa por pessoa estabilizaram em vários países, mas as emissões totais continuaram a aumentar devido ao crescimento económico e populacional. Texto colado
A diferença entre intensidade e volume é economicamente relevante.
Uma economia pode tornar cada unidade produzida relativamente mais eficiente em termos ambientais e, ainda assim, aumentar a sua pressão total sobre os recursos se a produção crescer suficientemente depressa.
Por isso, medir sustentabilidade exige indicadores diferentes daqueles utilizados para medir exclusivamente produção.
O quadro proposto procura introduzir esta dimensão na avaliação do progresso, permitindo observar simultaneamente o desempenho económico presente e as condições necessárias para a sua continuidade.
África Tem Uma Razão Adicional Para Olhar Para Além do PIB
A discussão ganha particular importância para as economias africanas.
Em países com forte presença de petróleo, gás, minerais ou outros recursos naturais, grandes investimentos podem alterar significativamente o PIB, exportações e receitas externas sem produzirem, na mesma proporção, emprego ou ligações com o restante tecido empresarial.
A diferença decorre, entre outros factores, da intensidade de capital desses sectores e da dimensão das cadeias de valor que permanecem dentro ou fora da economia nacional.
Neste tipo de estrutura produtiva, observar apenas a taxa agregada de crescimento pode ocultar questões decisivas: quanto valor é processado localmente, quantos empregos são criados, quanto rendimento chega às famílias, que empresas nacionais participam nas cadeias de fornecimento e como são distribuídos os ganhos resultantes da exploração dos recursos.
É precisamente neste terreno que indicadores de inclusão, bem-estar e sustentabilidade podem acrescentar informação àquela que já é fornecida pelo PIB.
Não substituem a medição da produção. Permitem observar o que acontece à volta e depois dessa produção.
Para Moçambique, A Discussão É Particularmente Relevante
A mesma questão aplica-se à leitura da economia moçambicana.
A existência de grandes projectos extractivos pode elevar investimento, exportações e PIB. Mas avaliar o impacto económico mais amplo exige acompanhar simultaneamente emprego, produtividade, rendimento, participação empresarial nacional, capital humano, transformação local, desigualdade e sustentabilidade.
Esta perspectiva aproxima-se, aliás, de uma discussão cada vez mais presente no debate económico nacional: a diferença entre crescimento quantitativo e transformação económica.
Uma taxa positiva do PIB constitui informação fundamental, mas não permite, isoladamente, determinar a intensidade com que esse crescimento está a alterar a capacidade produtiva do país ou as condições económicas das famílias.
A abordagem Beyond GDP acrescenta precisamente métricas destinadas a preencher parte dessa informação.
O Problema É Que Muitos Países Ainda Não Conseguem Medir
A proposta das Nações Unidas enfrenta, contudo, uma limitação particularmente importante nos países em desenvolvimento: a disponibilidade de dados.
Em Abril de 2026, menos de metade dos países em desenvolvimento dispunha de informação suficiente para reportar algumas das dimensões centrais do novo quadro, particularmente bem-estar actual e sustentabilidade e resiliência. Texto colado
As diferenças relativamente às economias desenvolvidas são significativas.
Na dimensão de bem-estar actual, existiam dados disponíveis para 66% dos indicadores nos países desenvolvidos, contra 46% nos países em desenvolvimento. Na dimensão de sustentabilidade e resiliência, a cobertura era de 57% e 33%, respectivamente. Texto colado
A lacuna estatística introduz um problema económico e institucional: quanto menor a disponibilidade de informação, mais difícil se torna identificar onde o crescimento está a produzir resultados, onde existem desequilíbrios e quais políticas precisam de ser corrigidas.
A própria UNCTAD considera que estas limitações reduzem a capacidade dos decisores para desenvolver estratégias baseadas em evidência e comparar o progresso entre países. Texto colado
UNCTAD Começa A Testar Os Novos Indicadores
A construção do novo sistema já entrou numa fase operacional.
A UNCTAD está a testar os indicadores propostos pelo Grupo de Peritos de Alto Nível e a trabalhar com países e parceiros para reforçar capacidades estatísticas e analíticas necessárias à implementação do quadro. Participa igualmente no desenvolvimento metodológico através da Comissão de Estatística das Nações Unidas e da rede de Chefes de Estatística da organização. Texto colado
A instituição apoia também a Global Alliance on Beyond GDP, lançada em Sevilha e liderada por Espanha, destinada a promover aprendizagem e intercâmbio de experiências entre países. Texto colado
O processo coloca a estatística numa posição mais central dentro da política económica. Se desenvolvimento passar a ser acompanhado através de um conjunto mais amplo de variáveis, governos precisarão de produzir informação com maior frequência, cobertura e comparabilidade.
Medir Melhor Para Perceber A Qualidade do Crescimento
A proposta Beyond GDP não reduz a importância do Produto Interno Bruto. Define com maior precisão aquilo que o indicador consegue — e aquilo que não consegue — explicar.
Produção continuará a ser medida pelo PIB. Mas distribuição, saúde, segurança, inclusão, confiança social, desigualdade e sustentabilidade exigem indicadores próprios.
Para as economias em desenvolvimento, existe ainda uma dificuldade adicional. A adopção de métricas mais abrangentes exige sistemas estatísticos capazes de produzir os dados necessários, precisamente num conjunto de países onde a UNCTAD identifica as maiores lacunas de informação.
Os números disponíveis tornam essa limitação concreta: apenas 46% de cobertura dos indicadores de bem-estar actual e 33% dos de sustentabilidade e resiliência nos países em desenvolvimento, contra 66% e 57%, respectivamente, nas economias desenvolvidas. Texto colado
A discussão sobre crescimento passa, assim, a envolver duas capacidades distintas: produzir mais valor económico e medir com maior rigor como esse valor se distribui, que condições sociais produz e que activos preserva. Sem essa informação, o PIB continuará a mostrar quanto a economia cresceu, mas permanecerá incompleta a leitura sobre a qualidade e a sustentabilidade desse crescimento.
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