
Ouro Recua Para US$ 4.129, Mas Fundamentos Mantêm Perspectiva de Suporte
Dólar mais forte e yields dos Treasuries em máximos de 24 anos pressionam o metal precioso, enquanto sinais de abrandamento do emprego nos Estados Unidos reduzem as expectativas de uma subida dos juros da Fed em Outubro. Inflação e risco geopolítico continuam no centro das perspectivas para o ouro.
Questões-Chave:
- Ouro à vista recuou 0,3%, para US$ 4.128,83 por onça;
- Dólar mais forte e subida das yields dos Treasuries pressionaram a cotação;
- Yields norte-americanas a 10 e 30 anos atingiram máximos de 24 anos;
- Dados mais fracos do emprego reduziram as expectativas de uma subida dos juros da Fed em Outubro;
- Mercado continua a atribuir 87% de probabilidade a uma subida dos juros em Dezembro;
- Inflação persistente e riscos geopolíticos no Médio Oriente permanecem entre os principais factores de suporte do ouro.
O ouro recuou ligeiramente esta terça-feira, 6 de Outubro, pressionado pela valorização do dólar e pela subida das yields da dívida pública norte-americana, num mercado que continua a avaliar o rumo da política monetária dos Estados Unidos e a evolução dos riscos geopolíticos no Médio Oriente.
O ouro à vista caiu 0,3%, para US$ 4.128,83 por onça, enquanto os futuros norte-americanos se mantiveram praticamente inalterados, em US$ 4.155,90.
A descida ocorre depois de uma forte valorização do metal e num ambiente em que vários dos factores tradicionalmente determinantes para a sua cotação estão a actuar em direcções diferentes.
O fortalecimento do dólar torna o ouro, denominado na moeda norte-americana, mais caro para investidores que utilizam outras divisas. Ao mesmo tempo, a subida das taxas de rendibilidade das obrigações do Tesouro aumenta o custo de oportunidade de deter um activo que não paga juros.
As yields dos Treasuries norte-americanos a 10 e 30 anos atingiram máximos de 24 anos, reforçando a pressão sobre o metal precioso.
Juros Americanos Voltam A Determinar Direcção Do Ouro
As perspectivas para a política monetária da Reserva Federal voltaram a assumir um papel central na formação dos preços.
Dados divulgados na sexta-feira mostraram que a criação de emprego nos Estados Unidos abrandou mais do que o esperado em Setembro, enquanto os números dos dois meses anteriores foram revistos em baixa.
A leitura reduziu as expectativas de que a Reserva Federal avance com uma nova subida das taxas de juro já em Outubro.
Para o ouro, a alteração das expectativas monetárias funciona como um elemento de suporte. Taxas de juro mais elevadas aumentam a atractividade relativa de activos remunerados, como as obrigações, enquanto juros mais baixos ou expectativas de redução futura desse diferencial tendem a favorecer os metais preciosos.
A perspectiva para Dezembro permanece, contudo, diferente. Os operadores atribuem ainda 87% de probabilidade a uma subida das taxas nesse mês, de acordo com o FedWatch do CME.
O mercado do ouro encontra-se, assim, particularmente sensível aos próximos indicadores económicos norte-americanos. Emprego, inflação, actividade económica e declarações dos responsáveis da Fed poderão alterar rapidamente as expectativas sobre a trajectória dos juros.
Yields Em Máximos De 24 Anos Criam Pressão
A evolução do mercado obrigacionista acrescenta complexidade ao cenário.
A subida das yields dos Treasuries a 10 e 30 anos para níveis não observados em 24 anos aumenta a concorrência entre o ouro e os activos de rendimento fixo.
Quando os investidores conseguem obter retornos mais elevados em títulos considerados de baixo risco, manter posições num activo sem rendimento periódico torna-se relativamente menos atractivo.
Este mecanismo ajuda a explicar a pressão observada sobre o ouro, mesmo num contexto em que as expectativas de uma subida imediata dos juros da Fed diminuíram.
A combinação de dólar forte e yields elevadas constitui, no curto prazo, um dos principais obstáculos a novas valorizações do metal.
Inflação Mantém Equação Monetária Em Aberto
Os dados económicos norte-americanos também apresentam sinais contraditórios.
A actividade do sector de serviços abrandou em Setembro, mas a procura interna permaneceu forte e continuou a exercer pressão sobre as cadeias de abastecimento.
Um indicador dos preços pagos pelas empresas pelos factores de produção atingiu o nível mais elevado em mais de quatro anos, sinalizando que as pressões inflacionárias poderão prolongar-se até 2027.
Esta combinação entre desaceleração de algumas componentes da actividade e persistência da inflação coloca a Reserva Federal perante uma equação mais exigente.
Uma deterioração mais acentuada do mercado de trabalho reduziria a necessidade de manter uma política monetária restritiva. Uma inflação persistentemente elevada poderá, em sentido contrário, limitar a margem da Fed para aliviar as condições monetárias.
Para o ouro, essa tensão deverá continuar a produzir volatilidade. A trajectória do metal dependerá em grande medida da forma como os investidores recalibrarem as expectativas sobre juros reais, inflação e crescimento.
Médio Oriente Continua A Sustentar Procura De Refúgio
A geopolítica constitui o outro grande eixo do mercado.
O conflito no Médio Oriente continua a alimentar a procura por activos de refúgio, embora desenvolvimentos recentes tenham introduzido alguma moderação na percepção de risco.
Forças governamentais do Iémen apoiadas pela Arábia Saudita recuperaram parte significativa da costa em torno do Estreito de Bab el-Mandeb, afastando os Houthis apoiados pelo Irão de grande parte das áreas ocupadas no mês anterior.
A importância económica de Bab el-Mandeb decorre do seu papel nas rotas marítimas que ligam o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico. Qualquer alteração significativa das condições de segurança nesta área influencia as expectativas sobre comércio marítimo, energia e cadeias internacionais de abastecimento.
Kyle Rodda, analista sénior de mercados financeiros da Capital.com, considera que os fundamentos de longo prazo continuam favoráveis ao ouro e identifica os riscos geopolíticos no Médio Oriente e uma alteração significativa das expectativas de taxas de juro nos Estados Unidos como potenciais catalisadores para um novo movimento do mercado.
Ouro Mantém-se Acima Dos US$ 4.100
A cotação acima dos US$ 4.100 por onça mostra que a pressão diária provocada pelo dólar e pelas yields não eliminou os factores que sustentam o metal.
O comportamento actual pode ser lido através de quatro variáveis fundamentais: política monetária norte-americana, yields dos Treasuries, inflação e risco geopolítico.
No curto prazo, a força do dólar e os rendimentos elevados da dívida pública norte-americana podem continuar a limitar novos ganhos.
Uma alteração das expectativas sobre a Reserva Federal, sinais adicionais de enfraquecimento da economia norte-americana ou um agravamento das tensões geopolíticas poderão reforçar novamente a procura pelo metal precioso.
O desempenho dos restantes metais acompanhou a correcção: a prata caiu 0,6%, para US$ 60,69 por onça, a platina perdeu 0,5%, para US$ 1.712,20, e o paládio recuou 0,5%, para US$ 1.166,86.
O ouro entra, portanto, numa fase em que os níveis de preço permanecem elevados, mas a direcção dos próximos movimentos estará fortemente ligada aos dados económicos dos Estados Unidos e à evolução do Médio Oriente. Com a política monetária ainda em aberto e os riscos geopolíticos presentes, a volatilidade deverá continuar a marcar o mercado dos metais preciosos.














