Petróleo Avança Com Dúvidas Sobre Acordo EUA–Irão e Risco De Oferta Volta Ao Centro Do Mercado

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  • Brent aproxima-se dos US$90 por barril, num mercado novamente condicionado pela incerteza em torno das negociações entre Washington e Teerão, pelas perturbações no Estreito de Ormuz e por novos ataques à navegação. A acumulação inesperada de crude nos Estados Unidos introduz, entretanto, um factor de contenção à escalada das cotações.
Questões-Chave:
  • Brent avançava 0,84%, para US$89,66 por barril, enquanto o WTI subia 0,87%, para US$83,92, na manhã desta quarta-feira.
  • As cotações acumulam vários dias de ganhos, depois de uma subida próxima de 5% na segunda-feira, acompanhando a deterioração das expectativas de uma solução rápida para o conflito.
  • O tráfego no Estreito de Ormuz caiu para apenas oito embarcações na terça-feira, contra cerca de 125 a 140 navios por dia antes da guerra.
  • Dados do American Petroleum Institute indicam um aumento inesperado de 9,1 milhões de barris nas reservas norte-americanas de crude.
  • A EIA estima que os fluxos de petróleo e outros líquidos através de Ormuz tenham caído de 21,6 milhões de barris/dia no quarto trimestre de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre de 2026.
  • A agência norte-americana projecta agora um preço médio do Brent próximo de US$87 por barril em 2026, antes de uma descida para cerca de US$69 em 2027.

Risco Geopolítico Recoloca Brent Próximo Dos US$90

Os preços internacionais do petróleo prolongaram os ganhos nesta quarta-feira, 12 de Agosto, colocando novamente o Brent próximo da barreira dos US$90 por barril, à medida que o mercado reduz as expectativas de uma resolução rápida do conflito entre os Estados Unidos e o Irão e incorpora um prémio adicional associado ao risco de novas perturbações no abastecimento proveniente do Médio Oriente.

Segundo a Reuters, os futuros do Brent avançavam 75 cêntimos, ou 0,84%, para US$89,66 por barril às 05h53 GMT, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) valorizava 72 cêntimos, ou 0,87%, para US$83,92. Ambos chegaram a subir mais de um dólar nas primeiras horas da sessão. 

O movimento sucede aos ganhos superiores a um dólar registados na terça-feira, quando as duas principais referências atingiram os níveis de fecho mais elevados desde 31 de Julho. Na segunda-feira, os preços haviam aumentado cerca de 5%, à medida que diminuía a confiança dos investidores na possibilidade de um entendimento diplomático entre Washington e Teerão. 

O mercado petrolífero regressa, assim, a uma configuração em que a geopolítica assume importância comparável — e em determinados momentos superior — aos fundamentos tradicionais de oferta, procura e inventários.

Ormuz Continua No Centro Da Formação Dos Preços

O principal factor de risco permanece o Estreito de Ormuz, uma das mais importantes artérias do comércio mundial de energia.

Novos incidentes envolvendo a navegação no Estreito de Ormuz e no Bab el-Mandeb acrescentaram incerteza às perspectivas de normalização das rotas marítimas. A Reuters refere que Estados Unidos e Houthis, alinhados com o Irão, reportaram ataques separados contra embarcações nestes dois corredores estratégicos. 

O responsável máximo iraniano para a segurança, Mohsen Rezaei, indicou igualmente que Ormuz permanecerá fechado enquanto os Estados Unidos não aceitarem determinadas condições apresentadas por Teerão para o fim da guerra. A conjugação entre negociação diplomática e ameaça de escalada está a provocar rápidas alterações das expectativas no mercado.

Os dados sobre navegação ajudam a dimensionar o problema. Na terça-feira, apenas oito embarcações transitaram pelo Estreito de Ormuz, o menor número em uma semana. Antes da guerra, entre 125 e 140 navios atravessavam diariamente esta passagem estratégica, segundo os dados citados pela Reuters.

A dimensão económica da ruptura torna-se ainda mais clara nos dados da Energy Information Administration (EIA). A agência calcula que o volume médio de crude e outros produtos petrolíferos transportados através de Ormuz caiu para 4,9 milhões de barris por dia no segundo trimestre de 2026, contra 21,6 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025, antes do início do conflito. 

Trata-se de uma redução de aproximadamente 77% nos fluxos petrolíferos através do estreito, o que ajuda a explicar por que razão pequenas alterações nas expectativas políticas continuam a provocar movimentos expressivos nas cotações.

Bab El-Mandeb Amplia A Geografia Do Risco

O problema deixou, entretanto, de estar circunscrito a Ormuz.

A EIA assinala que ameaças à navegação no Bab el-Mandeb assumem particular relevância porque este corredor se tornou uma das alternativas utilizadas para transportar petróleo saudita enquanto persistem as limitações em Ormuz.

Os fluxos de petróleo e outros líquidos através do Bab el-Mandeb aumentaram de 5,4 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para cerca de 8,1 milhões de barris por dia no segundo trimestre deste ano, à medida que a Arábia Saudita desviou parte da produção através do oleoduto Este-Oeste em direcção ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. 

Isto significa que uma deterioração simultânea das condições de segurança em Ormuz e no Bab el-Mandeb poderia reduzir a eficácia das rotas alternativas e tornar mais dispendioso e complexo o transporte de petróleo do Médio Oriente para os principais mercados consumidores.

A Agência Internacional de Energia já havia estimado que, antes do conflito, cerca de 15 milhões de barris diários de crude e cinco milhões de barris de produtos petrolíferos atravessavam normalmente Ormuz, volume equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de petróleo. 

Inventários Norte-Americanos Introduzem Um Contrapeso

A trajectória ascendente dos preços encontra, porém, um factor potencialmente moderador nos Estados Unidos.

Dados do American Petroleum Institute, citados por fontes do mercado, apontam para um crescimento de aproximadamente 9,1 milhões de barris nas reservas norte-americanas de crude na semana terminada a 7 de Agosto, muito acima das expectativas.

Em sentido contrário, os stocks de gasolina terão recuado cerca de 1,5 milhões de barris e os de destilados aproximadamente 596 mil barris.

O crescimento dos inventários de crude é relevante porque sugere maior disponibilidade imediata de petróleo no maior mercado consumidor mundial e pode limitar parte da valorização provocada pelos acontecimentos no Médio Oriente.

A confirmação deverá vir dos dados oficiais da EIA, cuja divulgação está prevista para mais tarde nesta quarta-feira. Caso os números oficiais confirmem uma acumulação próxima da indicada pelo API, o mercado passará a confrontar dois sinais opostos: de um lado, riscos elevados sobre a oferta internacional; do outro, aumento das disponibilidades de crude nos Estados Unidos. 

EIA Revê Cenário Para Um Mercado Mais Apertado Em 2026

As perspectivas publicadas esta semana pela EIA mostram, contudo, que o actual choque vai muito além das oscilações diárias das cotações.

No seu Short-Term Energy Outlook de Agosto, divulgado a 11 de Agosto, a agência estima que cerca de 5,5 milhões de barris por dia de produção estiveram indisponíveis em Julho devido às perturbações no Médio Oriente. A EIA assume que os fluxos através de Ormuz continuarão severamente limitados durante Agosto, começando a recuperar gradualmente em Setembro. 

A redução da produção e dos fluxos comerciais já produziu uma forte erosão dos inventários globais. A EIA estima que estes tenham diminuído, em média, 4,2 milhões de barris por dia durante o segundo trimestre, projectando uma nova redução média de 3,8 milhões de barris por dia no terceiro trimestre. 

Neste contexto, a agência projecta que o Brent permaneça em torno de US$85 por barril, em média, no terceiro trimestre, antes de descer para cerca de US$78 no quarto trimestre, à medida que o tráfego marítimo e parte da produção sejam gradualmente restabelecidos.

Para o conjunto de 2026, a EIA estima agora um preço médio do Brent de aproximadamente US$87 por barril, contra US$69 registados em 2025. Para 2027, o cenário-base aponta para um regresso a cerca de US$69. 

Mercado Entre Diplomacia, Inventários E Segurança Marítima

A actual formação dos preços do petróleo reflecte, portanto, uma combinação pouco habitual de forças.

Os fundamentos de curto prazo oferecem alguns elementos capazes de moderar as cotações, particularmente o aumento dos inventários norte-americanos. No horizonte mais amplo, porém, a redução acumulada dos stocks mundiais e a persistência das restrições à produção diminuem a margem de segurança do mercado.

Ao mesmo tempo, qualquer avanço diplomático entre Washington e Teerão pode retirar rapidamente parte do prémio geopolítico incorporado nas cotações. O inverso também é válido: novos ataques a infra-estruturas ou à navegação, sobretudo se atingirem simultaneamente Ormuz e Bab el-Mandeb, podem voltar a alterar rapidamente as expectativas.

É esta dualidade que está a transformar o petróleo num mercado particularmente sensível às notícias políticas. A questão já não reside apenas em quanto petróleo o mundo consegue produzir, mas em quanto dessa produção consegue efectivamente chegar aos mercados, por que rotas, a que custo e com que grau de previsibilidade.

Para as economias importadoras de combustíveis, esta configuração prolonga um período em que o preço internacional do crude permanece uma variável relevante para os custos de transporte, logística, produção e, em última instância, para a evolução da inflação. Enquanto a circulação pelos grandes corredores energéticos do Médio Oriente não se aproximar dos níveis anteriores ao conflito, a componente geopolítica continuará a ocupar um lugar central na formação dos preços internacionais da energia.

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