
Petróleo Cai Para Mínimos De Três Meses E Meio Após Acordo EUA-Irão Impulsionar Bolsas Asiáticas
- Brent recua para 77 dólares e WTI aproxima-se dos 74 dólares, enquanto investidores reduzem prémio de risco geopolítico e antecipam normalização gradual do Estreito de Ormuz
Questões-Chave
- Brent caiu 2,69%, para 77,41 dólares por barril, atingindo o nível mais baixo desde 2 de Março.
- WTI recuou 3,07%, para 74,43 dólares, o valor mais baixo desde 4 de Março.
- Acordo interino entre Estados Unidos e Irão prolonga o cessar-fogo por 60 dias.
- Memorando prevê retoma plena do tráfego no Estreito de Ormuz no prazo de 30 dias.
- Bolsas asiáticas atingiram máximos históricos, apoiadas pelo alívio geopolítico e por ganhos em tecnologia e semicondutores.
- Agência Internacional de Energia alerta que o mercado poderá enfrentar excedente de 5,05 milhões de barris por dia em 2027.
Os preços do petróleo caíram para mínimos de três meses e meio esta quinta-feira, 18 de Junho, depois de Estados Unidos e Irão terem assinado um acordo interino destinado a prolongar o cessar-fogo, reabrir o Estreito de Ormuz e suspender sanções norte-americanas sobre o petróleo iraniano. O entendimento reduziu o prémio de risco geopolítico que vinha sustentando os preços da energia e reforçou as expectativas de maior oferta no mercado internacional.
Segundo a Reuters, os futuros do Brent recuaram 2,14 dólares, ou 2,69%, para 77,41 dólares por barril, enquanto o West Texas Intermediate caiu 2,36 dólares, ou 3,07%, para 74,43 dólares. O Brent tocou o nível mais baixo desde 2 de Março, primeiro dia de negociação após o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, enquanto o WTI atingiu o valor mais baixo desde 4 de Março.
A queda anulou o movimento de recuperação observado na sessão anterior, quando os preços tinham subido após declarações do Presidente norte-americano, Donald Trump, que admitiu retomar os ataques caso os líderes iranianos não cumprissem os compromissos assumidos. A assinatura e divulgação do texto do acordo mudaram novamente a leitura dos investidores, que passaram a incorporar uma normalização mais rápida dos fluxos de petróleo do Médio Oriente.
Mercado Retira Prémio De Risco Ao Petróleo
A descida do Brent e do WTI reflecte uma reavaliação imediata do risco associado ao fornecimento global de crude. O acordo de 14 pontos abre um período de negociação de 60 dias, durante o qual o Irão permitirá a passagem sem cobrança pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte mundial de petróleo e gás.
O memorando prevê que o tráfego no estreito seja restabelecido à plena capacidade no prazo de 30 dias. Este ponto é decisivo para os mercados, uma vez que as restrições em Ormuz tinham alimentado receios de escassez de oferta, subida dos custos energéticos e agravamento das pressões inflacionistas.
A expectativa de regresso mais rápido dos barris iranianos ao mercado acelerou a pressão vendedora. Analistas citados pela Reuters consideram que os mercados de energia estão a incorporar de forma agressiva a possibilidade de uma normalização antecipada da oferta iraniana, após o memorando de entendimento entre Washington e Teerão.
Alívio É Forte, Mas Incertezas Permanecem
Apesar da queda expressiva dos preços, os analistas mantêm cautela quanto à velocidade da normalização do mercado físico. A reabertura formal do Estreito de Ormuz não garante, por si só, o regresso imediato de todos os fluxos de crude à região.
Parte das cargas terá sido movimentada através de mecanismos alternativos durante o período de tensão, enquanto alguns armadores poderão continuar relutantes em enviar petroleiros para a zona, receando que o acordo seja frágil ou possa colapsar antes do fim do período de negociação.
O acordo também adia temas mais sensíveis, incluindo o programa nuclear iraniano. Além disso, prevê que os Estados Unidos e os seus parceiros apresentem um plano de 300 mil milhões de dólares para financiar a recuperação do Irão, uma componente que acrescenta complexidade política e financeira ao processo.
A incerteza foi reforçada pelas próprias declarações de Donald Trump, que ameaçou retomar ataques e atingir responsáveis iranianos caso Teerão não honre os compromissos assumidos. Por isso, embora os preços tenham recuado fortemente, o mercado ainda não eliminou totalmente o risco geopolítico.
Bolsas Asiáticas Reagem Com Recordes
O acordo EUA-Irão não afectou apenas o mercado petrolífero. As bolsas asiáticas foram impulsionadas pelo alívio geopolítico e pela expectativa de redução dos riscos sobre energia, inflação e crescimento global.
No Japão, o índice Nikkei atingiu um máximo intradiário pelo quarto dia consecutivo, ultrapassando os 71.000 pontos. Na Coreia do Sul, o KOSPI alcançou o recorde de 9.000,68 pontos, enquanto o mercado accionista de Taiwan também tocou máximos, chegando aos 46.565,70 pontos.
Os ganhos foram apoiados sobretudo por acções ligadas a semicondutores e inteligência artificial, sectores que continuam a concentrar forte procura por parte dos investidores. O índice MSCI mais amplo para acções da Ásia-Pacífico, excluindo o Japão, avançou 0,2%.
O movimento mostra que os investidores leram o acordo como um factor de redução de risco sistémico. Menores preços do petróleo aliviam receios de desaceleração económica, especialmente em economias importadoras de energia, ao mesmo tempo que reduzem parte da pressão sobre bancos centrais confrontados com inflação elevada.
Europa E Estados Unidos Com Leituras Diferentes
Nos Estados Unidos, os futuros accionistas subiram durante o horário asiático. Os contratos sobre o S&P 500 avançaram 0,7%, os futuros do Nasdaq 100 ganharam 1% e os do Dow Jones subiram 0,5%, reflectindo maior apetite por risco após o acordo.
Na Europa, porém, os primeiros sinais foram mais cautelosos. Os futuros do Euro Stoxx 50 recuaram 0,7%, os do DAX alemão perderam 0,4% e os do FTSE caíram 0,6%. A divergência sugere que, apesar do alívio no petróleo, os investidores europeus continuam atentos aos efeitos da política monetária, à trajectória da inflação e à robustez da actividade económica.
No mercado obrigacionista, a yield das obrigações norte-americanas a 10 anos caiu para 4,445%, enquanto a yield a dois anos, mais sensível às expectativas sobre a política da Reserva Federal, recuou ligeiramente para 4,162%. No Japão, a yield das obrigações públicas a 10 anos subiu para 2,605%.
Dólar Mantém Força, Yen Continua Sob Pressão
No mercado cambial, o dólar manteve-se próximo de máximos de mais de dois meses, apesar da melhoria do sentimento de risco. O índice do dólar permaneceu em torno de 100,23 pontos, enquanto o euro avançou para 1,1524 dólares.
Face ao yen, o dólar recuou ligeiramente para 160,59, depois de ter tocado 160,79 durante a noite, o nível mais elevado desde Julho de 2024. A fraqueza da moeda japonesa continua a reflectir o diferencial de taxas de juro entre os Estados Unidos e o Japão, mantendo viva a possibilidade de novas advertências das autoridades japonesas.
A atenção dos investidores também se voltou para o Banco de Inglaterra, que deverá manter as taxas de juro inalteradas, à semelhança da Reserva Federal. O foco estará menos na decisão em si e mais no tom da comunicação dos decisores, sobretudo perante a descida recente do petróleo e o seu possível impacto sobre a inflação.
IEA Vê Risco De Excedente Em 2027
A Agência Internacional de Energia advertiu que, caso o acordo seja implementado com sucesso e o Estreito de Ormuz volte a operar plenamente, a crise de oferta deste ano poderá dar lugar a um excedente significativo em 2027.
A agência prevê que a oferta global possa superar a procura em 5,05 milhões de barris por dia no próximo ano, à medida que o petróleo do Médio Oriente regressar ao mercado. Esta projecção aponta para uma mudança profunda no equilíbrio do mercado, depois de meses marcados por interrupções, prémios de risco e receios sobre segurança energética.
Para os países importadores de energia, a descida do petróleo representa uma oportunidade de alívio sobre os custos de combustíveis, transportes e inflação importada. Para os produtores, porém, um cenário de maior oferta e preços mais baixos poderá pressionar receitas, investimentos e estratégias de produção.
Energia Entra Numa Nova Fase De Ajustamento
A queda do petróleo para mínimos de três meses e meio mostra que os mercados estão a reposicionar-se rapidamente perante a possibilidade de normalização no Médio Oriente. Ainda assim, o processo permanece frágil.
O acordo EUA-Irão reduz o risco imediato de interrupção no fornecimento, mas a sua implementação dependerá da confiança entre as partes, da segurança marítima, da resposta dos armadores, das negociações sobre temas sensíveis e da capacidade de transformar compromissos políticos em estabilidade operacional.
Para os mercados globais, a energia volta a ser o ponto de ligação entre geopolítica, inflação, política monetária e crescimento. O alívio nos preços do crude pode apoiar bolsas e economias importadoras, mas qualquer sinal de ruptura no acordo poderá devolver rapidamente volatilidade ao petróleo e aos activos de risco.
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