
Quatro Indicadores Apontam Para Recuperação das Empresas, Mas Fragilidades Estruturais Persistem
INE, FUNDEC, CTA e Standard Bank registam melhorias em confiança, actividade, competitividade, robustez financeira, emprego e produtividade. A convergência dos indicadores reforça os sinais de recuperação do sector privado, embora financiamento, procura, custos operacionais, restrições cambiais e ambiente de negócios continuem a limitar a intensidade do movimento.
- Confiança empresarial recuperou pela primeira vez em quase dois anos, com o ICE do INE a subir de 87,4 para 87,8 pontos no terceiro trimestre;
- PMI do Standard Bank atingiu 51,9 pontos em Agosto, máximo desde Junho de 2022 e segundo mês consecutivo de expansão;
- Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique da FUNDEC avançou 37,34%, de 26,43 para 36,3 pontos no primeiro semestre;
- Rating Empresarial e Financeiro da FUNDEC aumentou 11,8%, enquanto o Índice de Emprego e Produtividade cresceu 8,43%;
- Índice de Robustez Empresarial da CTA subiu de 26% para 27% entre o primeiro e o segundo trimestres;
- Empresas que reportam constrangimentos diminuíram de 49,8% para 44,7%, segundo o INE;
- Os quatro estudos utilizam metodologias e escalas diferentes, pelo que os respectivos níveis não são directamente comparáveis;
- Financiamento, insuficiência da procura, custos operacionais, disponibilidade de divisas e ambiente de negócios continuam a condicionar uma recuperação empresarial mais forte.
A confiança das empresas moçambicanas recuperou no terceiro trimestre de 2026 pela primeira vez em quase dois anos, interrompendo uma sequência de sete trimestres consecutivos de deterioração. O Indicador de Clima Económico (ICE), calculado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), passou de 87,4 pontos no segundo trimestre para 87,8 pontos entre Julho e Setembro.
A melhoria coincide com sinais positivos registados pelo PMI do Standard Bank, pelo FUNDEC Economic Outlook e pelo Índice de Robustez Empresarial da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).
Os quatro instrumentos acompanham componentes distintas da realidade empresarial. Em conjunto, mostram uma melhoria das expectativas, expansão da actividade, progressos nos indicadores de competitividade e robustez financeira e uma evolução favorável das perspectivas de emprego.
Os níveis actuais continuam, entretanto, a reflectir as fragilidades acumuladas pelo sector privado. A confiança permanece abaixo da média histórica, a robustez empresarial continua reduzida e uma parcela elevada das empresas reporta dificuldades no exercício da actividade.
Confiança Interrompe Sete Trimestres de Queda
O ICE do INE subiu para 87,8 pontos no terceiro trimestre, contra 87,4 no trimestre anterior, interrompendo a deterioração iniciada depois do segundo trimestre de 2024.
O indicador havia alcançado 89,8 pontos no terceiro trimestre de 2025, antes de cair para 88,7 no quarto trimestre, 87,8 no primeiro trimestre de 2026 e 87,4 no segundo.
Apesar da recuperação, o ICE permanece 11 pontos abaixo da média histórica de 98,8 pontos, mantendo a confiança empresarial distante dos níveis médios registados ao longo da série.
Os serviços apresentam a posição mais favorável. O indicador de confiança do sector aumentou de 100,6 para 101,7 pontos, consolidando a recuperação iniciada no trimestre anterior e mantendo-se acima da respectiva média histórica.
Na indústria, a confiança passou de 89,8 para 90 pontos, depois de dois trimestres consecutivos de queda.
O comércio registou uma subida de 71 para 72,3 pontos, mas continua a apresentar o nível de confiança mais baixo entre os principais sectores e permanece significativamente abaixo da sua média histórica.
As expectativas relativas à procura também melhoraram. O respectivo indicador passou de 91,6 para 92,4 pontos, impulsionado pela avaliação positiva das empresas dos serviços e pela recuperação observada na indústria e no comércio.
As perspectivas de emprego avançaram de 81,1 para 82,9 pontos, prolongando a recuperação iniciada no princípio do ano, embora permaneçam abaixo da média histórica de 98,6 pontos.
PMI Confirma Expansão da Actividade Empresarial
O PMI do Standard Bank atingiu 51,9 pontos em Agosto, contra 51,4 em Julho, alcançando o nível mais elevado desde Junho de 2022. Foi o segundo mês consecutivo acima dos 50 pontos, limiar que separa expansão de contracção.
O inquérito registou crescimento da produção, das novas encomendas e do emprego. A produção apresentou o ritmo de expansão mais elevado dos últimos três anos e as novas encomendas cresceram ao ritmo mais forte desde Julho de 2023.
Os resultados do PMI complementam a recuperação das expectativas identificada pelo INE com sinais de aumento efectivo da actividade das empresas abrangidas pelo inquérito.
A melhoria mensal ocorre, contudo, numa economia cujo crescimento anual permanece reduzido. O Standard Bank projecta uma expansão do PIB de 0,7% em 2026, evidenciando a distância entre a recuperação recente da actividade empresarial e o desempenho agregado da economia ao longo do ano.
O PMI acima de 50 indica crescimento relativamente ao mês anterior. Não significa, por si só, que a actividade tenha recuperado integralmente das perdas acumuladas nos períodos anteriores.
Competitividade Empresarial Avança 37,34%
O Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique (ICEM), elaborado pela FUNDEC, passou de 26,43 para 36,3 pontos no primeiro semestre de 2026, correspondendo a um crescimento de 37,34%.
O aumento ocorre a partir de uma base reduzida e mantém o indicador num nível que evidencia limitações importantes à competitividade das empresas.
O Rating Empresarial e Financeiro (REF) aumentou 11,8%, de 38,6 para 43,2 pontos, sinalizando melhoria nas condições acompanhadas pelo indicador relativamente à robustez e ao risco empresarial e financeiro.
O Índice de Emprego e Produtividade (IEP) avançou 8,43%, de 28,01 para 30,37 pontos.
Os três indicadores da FUNDEC registam, desta forma, progressos simultâneos em competitividade, condições empresariais e financeiras e emprego e produtividade, mas permanecem em níveis que evidenciam uma ampla margem de recuperação.
Robustez Empresarial da CTA Sobe Para 27%
A CTA registou igualmente uma melhoria no desempenho empresarial durante o segundo trimestre.
O Índice de Robustez Empresarial passou de 26% para 27% entre o primeiro e o segundo trimestres de 2026.
A CTA associa esta evolução, entre outros factores, ao dinamismo da campanha de comercialização agrícola e à relativa estabilidade da moeda nacional.
Os prejuízos médios por unidade produzida diminuíram de 522 para 483 meticais, num período em que as receitas apresentaram um crescimento superior ao dos custos.
O Índice de Ambiente Macroeconómico passou, por sua vez, de 55% para 58%.
A subida de apenas um ponto percentual no Índice de Robustez Empresarial mantém o desempenho das empresas num patamar reduzido. A CTA continua a identificar restrições relacionadas com disponibilidade de divisas, dívidas do Estado ao sector privado, custos dos combustíveis, infra-estruturas e burocracia.
Indicadores Captam Diferentes Dimensões da Actividade
Os quatro estudos não devem ser comparados através dos respectivos valores absolutos.
O ICE do INE acompanha o clima económico e as expectativas das empresas. O PMI do Standard Bank mede mensalmente alterações nas condições de actividade. A FUNDEC acompanha competitividade, condições empresariais e financeiras, emprego e produtividade. O Índice de Robustez Empresarial da CTA avalia o desempenho das empresas perante as condições económicas.
As metodologias, amostras, escalas e períodos de referência são diferentes.
A comparação das trajectórias mostra, entretanto, que os quatro instrumentos registaram melhorias recentes nas variáveis que acompanham.
O INE identifica recuperação da confiança e das expectativas. O PMI regista expansão da actividade, produção, encomendas e emprego. A FUNDEC aponta progressos na competitividade, robustez financeira, emprego e produtividade. A CTA assinala uma melhoria da robustez empresarial e do ambiente macroeconómico.
A simultaneidade destes movimentos reforça a evidência de uma recuperação gradual do sector empresarial durante 2026.
Procura, Produção e Emprego Apresentam Sinais Positivos
A procura surge em vários dos indicadores como uma das variáveis associadas à recuperação.
No INE, o indicador das expectativas relativas à procura passou de 91,6 para 92,4 pontos. No PMI, as novas encomendas registaram o crescimento mais forte desde Julho de 2023. O mesmo inquérito apontou para aumento da produção e do emprego.
A FUNDEC registou uma subida de 8,43% no Índice de Emprego e Produtividade, enquanto o indicador de perspectivas de emprego do INE aumentou de 81,1 para 82,9 pontos.
O reforço das encomendas e das expectativas de procura pode aumentar a utilização da capacidade instalada e criar condições para novas decisões de contratação e investimento.
A continuidade deste movimento nos próximos trimestres será necessária para transformar a actual melhoria conjuntural em expansão sustentada da capacidade produtiva.
Quase 45% das Empresas Continuam a Enfrentar Constrangimentos
A percentagem de empresas que reporta dificuldades no exercício da actividade diminuiu de 49,8% no segundo trimestre para 44,7% entre Julho e Setembro, segundo o INE.
A redução de 5,1 pontos percentuais representa uma melhoria, mas quase metade das empresas continua a enfrentar algum tipo de constrangimento.
A situação é mais pronunciada na indústria, onde cerca de 55% das empresas reportam dificuldades.
Entre os principais obstáculos identificados encontram-se dificuldades de mercado, insuficiência da procura, problemas de acesso ao financiamento, custos operacionais e limitações relacionadas com o ambiente de negócios.
Os levantamentos da CTA identificam igualmente restrições cambiais, dívidas do Estado ao sector privado, custos e obstáculos administrativos.
A persistência destes factores ajuda a explicar por que razão a melhoria dos indicadores empresariais ainda não se traduz numa recuperação de maior intensidade.
Financiamento Condiciona Expansão do Investimento
O acesso ao financiamento continua entre os factores que condicionam a capacidade das empresas para transformar novas encomendas e melhores expectativas em expansão da produção.
O aumento da actividade exige capital circulante, aquisição de equipamentos, tecnologia e recursos para financiar novos investimentos.
O Banco de Moçambique tem registado uma recuperação ainda limitada do crédito à economia, num contexto de percepção de risco elevada, crescimento económico moderado e fragilidades financeiras acumuladas por empresas e pelo próprio Estado.
As necessidades de financiamento público acrescentam pressão sobre o mercado financeiro doméstico. O aumento do endividamento interno do Estado e a persistência de atrasados perante fornecedores afectam a liquidez das empresas e podem restringir os recursos disponíveis para financiamento do sector privado.
Neste contexto, a melhoria dos indicadores de confiança e actividade terá maior impacto económico se for acompanhada por melhores condições de financiamento e maior capacidade de investimento empresarial.
Recuperação Precisa de Ganhar Escala no Investimento
Os indicadores disponíveis descrevem diferentes fases do processo empresarial.
O INE regista a primeira recuperação da confiança em sete trimestres. O PMI mostra dois meses consecutivos de expansão da actividade. A FUNDEC identifica melhorias na competitividade, condições financeiras, emprego e produtividade. A CTA regista uma recuperação moderada da robustez empresarial.
A continuidade deste movimento poderá aumentar a utilização da capacidade produtiva e criar condições para novas decisões de investimento.
Os níveis actuais mostram, contudo, que essa transmissão permanece incompleta. A confiança está abaixo da média histórica, o índice da CTA permanece em 27%, os indicadores da FUNDEC continuam distantes dos níveis superiores das respectivas escalas e 44,7% das empresas ainda reportam constrangimentos.
Sinais de Recuperação Convergem, Fragilidades Permanecem
O conjunto dos indicadores disponíveis aponta para uma melhoria das condições empresariais durante 2026.
A confiança interrompeu uma sequência prolongada de queda. A actividade empresarial entrou em território de expansão no PMI. As encomendas e a produção aumentaram. Os indicadores da FUNDEC avançaram e a CTA registou uma melhoria da robustez das empresas.
Os mesmos estudos mostram uma recuperação ainda condicionada por financiamento, procura, disponibilidade de divisas, custos operacionais, dívidas do Estado ao sector privado, infra-estruturas e ambiente de negócios.
A evolução destes factores será determinante para a capacidade das empresas aumentarem produção, investimento, produtividade e emprego.
Nos próximos trimestres, será importante observar e aferir em que medida a melhoria simultânea da confiança, actividade e competitividade se traduzirá em maior investimento privado e numa aceleração mais consistente do crescimento económico.














