Reabertura De Ormuz Pode Estabilizar Mercado Global De Gás No Terceiro Trimestre

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  • O Fórum dos Países Exportadores de Gás antecipa uma normalização gradual dos fluxos e dos preços após o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão. A expectativa é de aproximação aos níveis anteriores ao conflito no quarto trimestre, embora a Ásia possa continuar sob maior pressão no curto prazo.
Questões-Chave:
  • O GECF acredita que a reabertura sustentada do Estreito de Ormuz poderá estabilizar o mercado mundial de gás já no terceiro trimestre;
  • A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão interrompeu exportações energéticas e levou os preços globais de gás aos níveis mais elevados dos últimos anos;
  • O Fórum prevê que os fluxos e os preços se aproximem dos níveis anteriores ao conflito durante o quarto trimestre;
  • A procura asiática, em particular da China, deverá continuar a crescer, sustentada pela transição do carvão para o gás;
  • Países africanos com potencial de produção de GNL poderão ganhar relevância num mercado em busca de maior diversificação de fornecedores;
  • O GECF defende uma abordagem globalmente coordenada para as novas exigências europeias sobre emissões de metano.

Os mercados globais de gás natural poderão começar a recuperar estabilidade ao longo do terceiro trimestre, caso a reabertura do Estreito de Ormuz se mantenha efectiva e o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão se consolide. A leitura é do Secretário-Geral do Fórum dos Países Exportadores de Gás, Philip Mshelbila, que considera que a normalização gradual dos fluxos energéticos poderá reduzir a pressão que se acumulou desde o início da guerra no Médio Oriente.

Falando na Reuters Global Energy Forum, Mshelbila afirmou que a manutenção da circulação no estreito — uma das principais rotas estratégicas para a exportação mundial de petróleo e gás natural liquefeito — será decisiva para devolver previsibilidade ao mercado.

“A nossa visão é que, ao longo deste próximo trimestre, começaremos a assistir a alguma reestabilização do mercado”, afirmou o responsável do GECF, citado pela Reuters.

A expectativa surge depois de meses de forte perturbação nas cadeias de abastecimento energético. O conflito no Irão afectou exportações de grandes fornecedores do Médio Oriente, intensificou a procura por carregamentos alternativos e levou os preços do gás na Europa e na Ásia aos níveis mais elevados desde a crise energética de 2022 e 2023.

Um Estreito Que Continua A Determinar O Ritmo Do Mercado

A importância do Estreito de Ormuz para o sistema energético mundial explica a rapidez com que o conflito se transmitiu aos mercados. A rota marítima é essencial para o escoamento de petróleo, gás natural liquefeito e outros produtos energéticos oriundos do Golfo, ligando produtores-chave aos grandes centros de consumo na Ásia, Europa e outras regiões.

A interrupção ou o risco de limitação da navegação naquela passagem cria, quase de imediato, um prémio de risco nos preços. Mesmo sem uma paralisação prolongada, a simples incerteza sobre a segurança dos fluxos afecta contratos, seguros, fretes marítimos, decisões de compra e estratégias de aprovisionamento das grandes companhias energéticas.

Durante a guerra, vários governos recorreram a reservas estratégicas e intensificaram apelos à poupança de energia, procurando proteger consumidores e empresas dos efeitos de preços mais elevados. A reabertura de Ormuz poderá aliviar parte dessa pressão, mas a recuperação dependerá da confiança de que o acordo de cessar-fogo não será novamente interrompido.

Para o GECF, se a estabilidade na rota marítima se confirmar, os fluxos de gás e os preços poderão aproximar-se dos níveis anteriores ao conflito no quarto trimestre do ano.

Ásia Deverá Manter Pressão Sobre A Procura

A estabilização esperada não significa, contudo, um regresso imediato a preços baixos. O GECF admite que os mercados asiáticos poderão permanecer sob pressão no curto prazo, reflectindo a procura persistente de economias que continuam a utilizar o gás como instrumento de transição energética e de segurança de abastecimento.

A China é um dos principais factores dessa tendência. Apesar do avanço acelerado das energias renováveis, do reforço da produção doméstica e do aumento das importações de gás por gasoduto, o País deverá continuar a expandir a procura por gás natural liquefeito.

A substituição gradual do carvão por gás em determinadas aplicações industriais e de geração eléctrica continua a ser uma das forças estruturais que sustentam a procura asiática. Para os exportadores, esta realidade torna o continente um mercado decisivo, não apenas pelo volume, mas também pela competição que gera entre compradores por contratos de longo prazo e carregamentos disponíveis no mercado à vista.

A procura asiática poderá, assim, limitar a velocidade de descida dos preços, mesmo num cenário de maior normalização dos fluxos a partir do Médio Oriente.

África Pode Ganhar Espaço Num Mercado Mais Diversificado

Num mercado em que compradores procuram reduzir vulnerabilidades e diversificar origens de fornecimento, os futuros produtores africanos de gás natural liquefeito poderão ganhar maior relevância.

Philip Mshelbila observou que vários países africanos poderão emergir nos próximos anos como fornecedores de GNL, contribuindo para ampliar a oferta mundial e, potencialmente, aliviar a pressão sobre os preços. A tendência reforça uma reconfiguração gradual do mapa energético global, hoje dominado por grandes exportadores como os Estados Unidos, Qatar e Austrália.

Para Moçambique, esta evolução tem significado estratégico. O País procura consolidar a sua posição como produtor de GNL, num momento em que a procura internacional continua a valorizar fontes de fornecimento diversificadas, contratos de longo prazo e projectos capazes de garantir fiabilidade de entrega.

Mas a oportunidade não será automática. A competição por mercados, financiamento e contratos de compra deverá aumentar à medida que novos projectos africanos e internacionais procuram entrar em operação. A vantagem competitiva dependerá, por isso, da capacidade de assegurar execução, estabilidade operacional, infraestrutura adequada, conteúdo local e credibilidade contratual.

Metano Reabre Debate Entre Europa E Países Exportadores

A questão ambiental permanece igualmente no centro das preocupações do sector. O GECF defendeu o adiamento dos prazos previstos nas regras da União Europeia que poderão penalizar importações de gás natural liquefeito com base nas emissões de metano associadas à sua produção e transporte.

Mshelbila reconheceu a importância de reduzir emissões e de colocar o ambiente no centro da agenda energética. Mas argumentou que normas definidas unilateralmente pela Europa podem apenas deslocar as cargas para outros mercados, sem resolver o problema climático global.

A posição do Fórum é que as regras devem resultar de uma coordenação internacional mais ampla, com padrões realistas e aplicáveis aos diferentes produtores e consumidores. A preocupação é que exigências demasiado rápidas ou desarticuladas criem barreiras comerciais, encareçam investimentos e fragmentem ainda mais o mercado mundial de gás.

O debate é relevante para países exportadores emergentes, incluindo os africanos. À medida que os compradores europeus elevam os requisitos ambientais e de rastreabilidade, projectos de gás terão de demonstrar capacidade para medir, reduzir e reportar emissões ao longo de toda a cadeia de valor.

Estabilização Não Elimina A Incerteza

O cenário traçado pelo GECF é de normalização, não de ausência de risco. A reabertura de Ormuz poderá devolver alguma confiança ao mercado, mas a estabilidade continuará dependente da evolução política e militar no Médio Oriente, da procura asiática, da capacidade de resposta dos produtores e do comportamento das economias consumidoras.

A guerra mostrou, mais uma vez, que o mercado de gás natural continua fortemente exposto a choques geopolíticos. Num contexto de transição energética, digitalização das economias e procura crescente por electricidade segura, o gás mantém-se como um recurso central para vários países.

Para Moçambique e outros produtores emergentes, este ambiente reforça tanto a oportunidade como a exigência: há espaço para novos fornecedores, mas haverá também maior escrutínio sobre fiabilidade, competitividade, sustentabilidade ambiental e capacidade de converter recursos naturais em desenvolvimento económico duradouro.