
Será a Rússia relevante para África?
Decorreu em Sóchi, na Rússia, nos dias 23 e 24 de Outubro de 2019 a Cimeira Rússia-Africa com o lema “Paz, Segurança e Desenvolvimento” em áreas de cooperação definidas em apoio político e diplomático, cooperação nas áreas de defesa e segurança, assistência económica, educação e formação vocacional, controle de doenças e assistência humanitária. A cimeira contou com a participação de cerca de 30 líderes africanos, dentre eles os presidentes de Moçambique, Filipe Nyusi, e da Angola, João Lourenço, o que revela altos níveis de expectativa em relação às possibilidades de cooperação e captação de benefícios para o continente por parte das suas lideranças.
Durante o seu discurso, o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu a corrida que as grandes potências vêm fazendo para África como demonstração do papel estratégico que o continente vai assumir nas dinâmicas da economia mundial nas próximas décadas, sobretudo pelo seu enorme potencial em matérias-primas e o expansivo mercado decorrente do seu crescimento populacional. Com efeito, a Rússia tenta vender de tudo para os africanos, desde tecnologia militar e equipamento industrial de ponta à créditos bancários e produtos agrícolas. Mas que benefícios os africanos extraem destas relações?
Durante os poucos anos de independência dos Estados africanos, os seus laços de cooperação têm sido altamente dependentes da boa vontade dos países ocidentais. Com poucas alternativas de cooperação relevantes, esta boa vontade com frequência tem degenerado em humilhação através de imposições políticas e económicas que não só impedem a definição de uma agenda de desenvolvimento autónoma dos países do continente negro, como também tem constrangido a sua capacidade de discutir questões de natureza global em fóruns como das Nações Unidas. As sucessivas crises financeiras com que o mundo se tem estado a debater, fruto de um modelo neoliberal ocidental, e que tem baixado inclusive a qualidade de vida dos países africanos, revelam as consequências nefastas que esta dependência total tem tido para o continente. Portanto, a existência de alternativas de cooperação significativas ou relevantes já é per se um ganho imenso para reduzir a dependência que os africanos têm em relação ao mundo Ocidental. Tanto sob ponto de vista de mercados para a comercialização dos seus produtos, como também de acesso ao crédito e fontes de investimento.
Entretanto, nestas relações nota-se que a Rússia tem muitos mais benefícios a tirar do que a dar aos países africanos. Isto porque tem uma enorme diversidade de produtos a oferecer para um mercado quase virgem, em expansão, e que carece de quase tudo, o que não só é uma fonte de riqueza, como também de hegemonia para o ressurgimento desta no principal mapa de poderes internacional. Por outro lado, a Rússia não tem um mercado tão apetecível como a China, os Estados Unidos e a Índia para os produtos africanos. Mas, mais importante e grave ainda, é que o tom desta cimeira não abandonou o paternalismo que marcou as relações União Soviética-África durante o período da Guerra-fria, quase assistencialistas nas diversas áreas em que se davam. Neste caso, se África quer tirar vantagem destas relações, é preciso olhar muito além do perdão da dívida, das linhas de crédito, do material bélico e assistência militar que a Rússia tem para oferecer, senão que é preciso também olhar para estas relações na perspectiva de transferência de tecnologia e de capacidades para que no futuro África não seja só um mercado para onde se despejam os produtos acabados, mas também donde saem diversos bens e serviços, dentre eles tecnologia de ponta. Portanto, a Rússia é sim relevante para África, mas actualmente não tanto quanto a África é relevante para a Rússia.

















