
Serviços Marítimos Ultrapassam Bens E Passam A Liderar Comércio Oceânico Global Avaliado Em 2,5 Biliões De Dólares
- Dados da UNCTAD revelam uma transformação estrutural da economia dos oceanos. Turismo costeiro, transporte marítimo e serviços portuários representam agora 58% do comércio oceânico mundial, abrindo novas oportunidades para países costeiros em desenvolvimento, incluindo Moçambique.
- Comércio ligado aos oceanos atingiu 2,5 biliões de dólares em 2025;
- Serviços representam 58% do comércio oceânico mundial;
- Turismo marinho e costeiro lidera exportações de serviços oceânicos;
- Transporte marítimo de carga movimentou 487 mil milhões de dólares;
- Comércio de bens oceânicos ultrapassou 1 bilião de dólares;
- UNCTAD defende estratégias de Economia Azul para países costeiros e insulares.
A economia dos oceanos está a atravessar uma transformação silenciosa, mas profunda. Durante décadas, o valor económico do mar foi associado sobretudo à pesca, recursos minerais, construção naval e transporte de mercadorias. Hoje, porém, a principal fonte de riqueza associada aos oceanos está cada vez mais ligada aos serviços.
Segundo novos dados divulgados pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os serviços ligados aos oceanos passaram a representar 58% do comércio oceânico mundial em 2025, ultrapassando pela primeira vez os bens como principal componente desta actividade económica global avaliada em cerca de 2,5 biliões de dólares.
A mudança constitui um sinal importante para países costeiros em desenvolvimento, incluindo Moçambique, que procuram diversificar as suas economias e explorar novas oportunidades associadas à chamada Economia Azul.
O Mar Já Vale Mais Pelos Serviços Do Que Pelos Produtos
Os números da UNCTAD mostram que o comércio mundial relacionado com os oceanos atingiu 2,5 biliões de dólares em 2025. Deste total, cerca de 1,44 biliões correspondem a serviços, enquanto pouco mais de 1 bilião resulta da comercialização de bens ligados ao mar.
Em 2020, os serviços representavam apenas 47% do comércio oceânico. Em apenas cinco anos, essa participação aumentou para 58%, demonstrando uma alteração estrutural na forma como o valor económico dos oceanos é gerado.
Segundo a UNCTAD, esta evolução está a ocorrer mais rapidamente do que a observada no comércio internacional em geral, onde os serviços continuam a representar uma parcela significativamente menor das transacções globais.
Turismo Costeiro Torna-Se O Principal Negócio Da Economia Oceânica
O maior beneficiário desta transformação é o turismo.
Segundo os dados da UNCTAD, o turismo marinho e costeiro gerou exportações avaliadas em 785 mil milhões de dólares em 2025, representando mais de metade de todo o comércio mundial de serviços ligados aos oceanos.
O crescimento é particularmente impressionante quando comparado com os anos da pandemia.
A organização recorda que, em 2020, o turismo costeiro internacional sofreu uma queda de cerca de 70% devido às restrições de mobilidade impostas pela Covid-19. Cinco anos depois, o sector não apenas recuperou, como se tornou o principal motor da economia oceânica global.
Para países com extensas linhas costeiras e elevado potencial turístico, esta tendência cria oportunidades significativas de geração de receitas, emprego e investimento.
Transporte Marítimo Continua A Ser Pilar Fundamental
O segundo maior segmento dos serviços oceânicos continua a ser o transporte marítimo.
Segundo a UNCTAD, os serviços de transporte marítimo de carga movimentaram 487 mil milhões de dólares em 2025, confirmando a importância dos oceanos para o comércio internacional.
A actividade portuária, os serviços logísticos e as infra-estruturas associadas também mantêm uma participação crescente na geração de valor económico.
Esta realidade assume particular relevância para Moçambique, cuja posição geográfica estratégica e sistema portuário permitem servir não apenas o mercado nacional, mas também vários países do interior da África Austral.
Os portos de Maputo, Beira e Nacala encontram-se precisamente entre os activos que poderão beneficiar da crescente importância dos serviços marítimos na economia global.
A Economia Azul Vai Muito Além Da Pesca
Apesar do crescimento dos serviços, os bens ligados aos oceanos continuam a representar uma parcela importante da actividade económica.
Segundo a UNCTAD, o comércio de bens oceânicos ultrapassou 1 bilião de dólares em 2025, liderado pela construção naval, equipamentos portuários e componentes associados, que movimentaram 414 mil milhões de dólares.
As manufacturas tecnológicas ligadas ao sector marítimo contribuíram com 402 mil milhões de dólares, enquanto a pesca, aquacultura e actividades relacionadas geraram cerca de 209 mil milhões de dólares.
Contudo, segundo a organização, a maior parte do valor acrescentado já não é capturada na extracção de recursos primários, mas sim nos serviços, processamento, inovação e actividades associadas às cadeias de valor marítimas.
Oportunidade Estratégica Para Moçambique
As conclusões da UNCTAD têm implicações directas para Moçambique.
Com cerca de 2.700 quilómetros de costa, importantes portos regionais, potencial turístico significativo e recursos marinhos abundantes, o país reúne vários dos factores identificados pela organização como essenciais para beneficiar da nova dinâmica da Economia Azul.
Segundo a UNCTAD, os países costeiros em desenvolvimento podem aumentar significativamente o valor capturado através da integração entre turismo, serviços marítimos, indústria, investigação científica e fornecedores locais.
Isto significa que o potencial económico do mar não depende apenas da exploração de recursos, mas também da capacidade de criar ecossistemas produtivos associados ao transporte, logística, turismo, investigação, inovação e serviços especializados.
Inovação Marinha Ganha Importância
Outro dado relevante do relatório refere-se ao crescimento da investigação científica marinha.
Segundo a UNCTAD, os serviços relacionados com investigação, desenvolvimento e licenciamento tecnológico ligados aos oceanos foram o segmento de crescimento mais rápido em 2025, registando uma expansão de 9%.
A organização considera que esta tendência reflecte o crescente interesse por tecnologias ligadas à monitoria dos ecossistemas marinhos, conservação da biodiversidade, recolha de dados oceânicos e utilização sustentável dos recursos marinhos.
Num contexto de transição climática e crescente preocupação com a sustentabilidade, a inovação poderá tornar-se um dos principais motores de crescimento da Economia Azul durante a próxima década.
Sem Conservação Não Haverá Economia Azul
A expansão económica associada aos oceanos depende, contudo, da preservação dos ecossistemas marinhos.
Segundo a UNCTAD, cerca de 10% das áreas marinhas globais e 17% das águas territoriais encontram-se actualmente protegidas, valores ainda bastante inferiores à meta internacional de proteger 30% dos oceanos até 2030.
A organização defende que a conservação dos ecossistemas não constitui um obstáculo ao crescimento económico, mas sim uma condição essencial para a sustentabilidade de actividades como turismo, pesca, transporte marítimo e serviços ambientais.
O Futuro Da Economia Azul Será Cada Vez Mais Baseado Em Serviços
A principal mensagem do relatório da UNCTAD é clara: o valor económico dos oceanos está a deslocar-se progressivamente dos produtos para os serviços.
Para países costeiros como Moçambique, esta transformação abre uma janela de oportunidade que vai muito além da exploração de recursos naturais.
Turismo sustentável, logística marítima, serviços portuários, investigação científica, inovação tecnológica e conservação marinha surgem cada vez mais como os pilares de uma nova geração de crescimento económico baseada no mar.
Num mundo onde os oceanos movimentam já 2,5 biliões de dólares por ano, a questão deixou de ser apenas o que se pode extrair do mar. A questão passa agora a ser quanto valor se consegue criar a partir dele.
Mais notícias
-
Número de Afectados Pode Subir em Maputo com Intensificação das Chuvas
16 de Janeiro, 2026
Conecte-se a Nós
Economia Global
Mais Vistos
Sobre Nós
O Económico assegura a sua eficácia mediante a consolidação de uma marca única e distinta, cujo valor é a sua capacidade de gerar e disseminar conteúdos informativos e formativos de especialidade económica em termos tais que estes se traduzem em mais-valias para quem recebe, acompanha e absorve as informações veiculadas nos diferentes meios do projecto. Portanto, o Económico apresenta valências importantes para os objectivos institucionais e de negócios das empresas.
últimas notícias
Mais Acessados
-
Governo admite nova operadora para a Mozal após suspensão das operações
14 de Março, 2026
















