Executivo aposta em conectividade, facilitação de vistos, zonas especiais, digitalização e integração das MPME para aumentar o valor económico do sector, depois de o fluxo turístico ter atingido cerca de 1,27 milhões de visitantes em 2025

Questões-Chave:
  • Contribuição do turismo para o PIB ficou em 0,92% em 2025, contra uma meta anual de 4,42%, segundo o balanço oficial do Governo;
  • Programa Quinquenal do Governo mantém a meta de elevar o peso do turismo para 6% do PIB até 2029;
  • Moçambique recebeu cerca de 1,27 milhões de turistas em 2025, quase 15% acima do ano anterior;
  • Reformas incluem facilitação de vistos, novas ligações aéreas, promoção de voos privados, zonas especiais de investimento e reforço da Marca Moçambique;
  • Vilankulo foi posicionada como Capital Nacional do Turismo e Inhambane recebeu uma Zona Especial para o Turismo de Golfe;
  • Governo pretende ampliar a participação das MPME nas cadeias de hotelaria, restauração, agricultura, transportes, cultura, comércio e serviços;
  • Agenda digital e inteligência artificial ganham espaço na estratégia turística, em linha com o tema mundial do sector em 2026.

Moçambique encerrou 2025 com uma contradição importante no turismo: o número de visitantes aumentou, mas o peso económico do sector ficou muito abaixo da trajectória definida pelo Governo.

O fluxo turístico atingiu cerca de 1,27 milhões de visitantes em 2025, um crescimento próximo de 15% face a 2024, segundo dados divulgados pelo Governo. 

Entretanto, o Balanço do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado de 2025 indica que a contribuição do turismo para o Produto Interno Bruto ficou em 0,92%, correspondente a apenas 21% da meta anual de 4,42%. O documento oficial mantém como referência uma contribuição de 6% do PIB em 2029. 

A distância entre o crescimento do fluxo turístico e o desempenho do valor acrescentado coloca no centro da política sectorial uma questão económica concreta: aumentar a receita gerada por cada visitante e alargar a parcela desse rendimento que permanece na economia nacional.

É nesse quadro que o Governo está a intensificar reformas em conectividade aérea, facilitação de vistos, investimento turístico, digitalização, desenvolvimento de destinos e integração das micro, pequenas e médias empresas nas cadeias de valor.

O Director Nacional do Turismo, Claire Zimba, defende que o sector seja utilizado para gerar rendimento, emprego e actividade empresarial, aproveitando a capacidade do turismo de criar ligações com diferentes segmentos da economia.

Meta De 6% Exige Uma Recuperação Muito Acima Do Desempenho De 2025

O ponto de partida tornou-se exigente.

Segundo o balanço oficial, a contribuição de 0,92% registada em 2025 ficou 3,5 pontos percentuais abaixo da meta programada para o ano e muito distante dos 6% fixados para 2029. O próprio documento governamental considera necessária uma aceleração significativa da contribuição do sector nos próximos anos. 

O mesmo relatório mostra que as actividades de alojamento, restauração e similares registaram uma retracção de 0,06% em 2025, quando o plano previa crescimento de 8,24%. A meta para 2029 é de 11,2%. 

Os dados colocam pressão sobre a execução da política turística.

A entrada de visitantes constitui apenas uma das variáveis. O peso do sector no PIB também reflecte despesa turística, permanência média, ocupação hoteleira, oferta de serviços, compras locais, formalização empresarial e capacidade de transformar procura turística em produção interna.

O crescimento das chegadas observado em 2025 ainda não se traduziu, na mesma proporção, num aumento da contribuição do turismo para a economia.

1,27 Milhões De Turistas Reforçam A Base Para Recuperação

O aumento do fluxo turístico constitui, entretanto, uma base relevante para a expansão económica do sector.

Moçambique recebeu aproximadamente 1,27 milhões de turistas em 2025, contra cerca de 1,09 milhões no ano anterior. O Governo indicou igualmente receitas directas superiores a 13 mil milhões de meticais. 

Claire Zimba considera que a expansão do turismo deve produzir maior participação das empresas nacionais, formalização das cadeias e criação de emprego.

Esta orientação aproxima a política turística da agenda de diversificação económica.

Hotelaria e restauração geram procura por alimentos, bebidas, mobiliário, construção, transporte, limpeza, segurança, entretenimento, telecomunicações, serviços financeiros e produtos culturais.

Quanto maior for a participação de fornecedores nacionais nessas cadeias, maior será o efeito multiplicador da despesa turística sobre a economia.

Vilankulo E Inhambane Ganham Nova Centralidade Na Estratégia

A província de Inhambane está a assumir posição central na reorganização territorial do turismo.

Vilankulo foi apresentada pelo Governo como Capital Nacional do Turismo, associada ao esforço de posicionamento internacional do destino e à realização do Mozambique Tourism Summit. 

Em Setembro, o Governo formalizou através do Decreto n.º 56/2026 a criação da Zona Especial para o Turismo de Golfe da Província de Inhambane. 

A estratégia referida pela Direcção Nacional do Turismo inclui igualmente áreas de investimento turístico em Vilankulo, Pomene e Inhassoro, destinadas a estimular projectos de alojamento, mobilidade, lazer e infra-estruturas.

O objectivo económico é criar concentração suficiente de activos, serviços e investimento para elevar a escala dos destinos e ampliar a oferta turística disponível.

Conectividade Continua A Condicionar A Competitividade Dos Destinos

A expansão turística está directamente ligada à facilidade de chegar ao País e circular entre os principais destinos.

O Governo aponta entre as medidas em curso a abertura de novas ligações aéreas, facilitação do transporte aéreo privado para fins turísticos e reformas no regime de vistos.

A conectividade influencia preço, tempo de viagem e capacidade dos operadores internacionais integrarem Moçambique nos seus circuitos.

Destinos concorrentes na África Austral disputam o mesmo turista internacional e, em muitos casos, oferecem ligações aéreas mais frequentes, maior diversidade de operadores e processos de entrada mais simples.

A competitividade de Moçambique passa, portanto, por combinar recursos naturais com acessibilidade, qualidade do serviço, segurança, infra-estruturas e previsibilidade operacional.

Nova Agência Reorganiza A Promoção Do Investimento Turístico

A arquitectura institucional do sector também está a mudar.

Em Maio de 2026, o Governo criou a Agência Nacional para o Desenvolvimento e Investimento Turístico (ANDITUR), através do Decreto n.º 19/2026, substituindo estruturas anteriormente existentes na área de promoção turística e investimento. 

A reorganização ocorre num período em que o Executivo procura transformar a promoção de destinos numa carteira mais estruturada de oportunidades de investimento.

Claire Zimba destaca igualmente a importância da Marca Moçambique Turismo e da aproximação entre investidores, operadores, empresas e comunidades. O sector pode articular hotelaria e restauração com agricultura, transportes, cultura, artesanato, comércio e serviços.

Esta ligação define uma parte importante do impacto económico do turismo.

Um visitante que consome maior proporção de produtos e serviços nacionais transfere uma parcela superior da sua despesa para empresas e trabalhadores moçambicanos.

MPME Entram No Centro Da Cadeia De Valor

A participação das micro, pequenas e médias empresas constitui outra componente da estratégia.

O turismo oferece espaço para empresas de alimentação, transporte local, experiências culturais, guias, artesanato, serviços digitais, eventos, restauração, manutenção, agricultura e fornecimento aos hotéis.

Claire Zimba defende o aumento do número de pequenas e médias empresas ligadas aos investimentos turísticos e uma maior formalização das cadeias que sustentam o sector.

A dimensão do contrato, as condições de financiamento, os padrões de qualidade exigidos pelos grandes operadores e a regularidade do fornecimento continuarão, contudo, a influenciar o acesso das empresas nacionais às principais oportunidades.

O crescimento do turismo produz maior efeito interno quando os hotéis, resorts e operadores encontram fornecedores locais capazes de responder em qualidade, quantidade e preço.

Inteligência Artificial Entra Na Agenda Do Turismo

A digitalização ganha nova relevância em 2026.

O tema definido pela ONU Turismo para o Dia Mundial do Turismo é “Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo”, colocando tecnologia, dados e IA no centro da discussão internacional sobre competitividade do sector. 

Claire Zimba identifica aplicações digitais em promoção dos destinos, reservas, pagamentos, gestão empresarial e relacionamento com os turistas.

A inteligência artificial acrescenta novas possibilidades em pesquisa de viagens, personalização de ofertas, atendimento, previsão da procura e gestão das operações.

Para destinos emergentes, a transformação digital reduz algumas barreiras tradicionais de promoção internacional. Pequenos operadores podem alcançar clientes directamente através de plataformas globais, sistemas de reserva e canais digitais.

A contrapartida é uma concorrência ainda mais intensa pela atenção do viajante.

Número De Visitantes E Valor Gerado Passam A Ser Medidos Em Conjunto

A política turística entra numa fase em que o crescimento das chegadas terá de ser acompanhado por indicadores económicos mais amplos.

O sector recebeu cerca de 1,27 milhões de visitantes em 2025, mas o balanço governamental registou uma contribuição de apenas 0,92% para o PIB. 

Esta diferença coloca em evidência indicadores como receita por turista, permanência média, taxa de ocupação, emprego, investimento privado, compras locais, formalização das empresas e contribuição fiscal.

O próprio Governo pretende converter o fluxo turístico em investimento, emprego, rendimento e desenvolvimento empresarial.

6% Do PIB Coloca A Execução No Centro Da Estratégia

A meta de 6% até 2029 estabelece um referencial claro para medir o desempenho das reformas.

Moçambique dispõe de costa extensa, áreas de conservação, praias, património cultural e destinos reconhecidos regionalmente. A política actual acrescenta instrumentos ligados a zonas especiais, conectividade, vistos, promoção do investimento e transformação digital.

Os números de 2025 mostram, entretanto, que o aumento do fluxo de visitantes ainda precisa de produzir maior valor acrescentado dentro da economia nacional.

A trajectória até 2029 passa por aumentar receitas por visitante, melhorar a ocupação e a oferta de serviços, captar investimento, integrar fornecedores nacionais e criar condições para que as MPME participem de forma consistente nas cadeias turísticas.

A diferença entre 0,92% em 2025 e 6% em 2029 transforma a meta do Governo num indicador concreto de execução da política turística nos próximos três anos.