
Zimbabué Acelera Transição Monetária: Governo Quer Abandonar Dólar e Consolidar o ZiG Até 2030
Zimbabué aposta na acumulação de reservas para restaurar uma moeda única e recuperar autonomia monetária após décadas de instabilidade
- Zimbabué quer acumular reservas suficientes para garantir entre três e seis meses de cobertura de importações;
- Autoridades projectam que, até 2030, o país terá condições para operar com uma moeda única;
- O ZiG — Zimbabwe Gold — já representa cerca de 40% das transacções diárias;
- A valorização internacional do ouro desempenha papel decisivo no reforço da confiança na moeda;
- O desmantelamento da dolarização dependerá da estabilidade macroeconómica e da credibilidade institucional.
O Governo do Zimbabué reafirmou a intenção de abandonar progressivamente o dólar norte-americano e instituir o ZiG como moeda única até 2030. A estratégia assenta no reforço das reservas internacionais, que actualmente cobrem entre três e seis meses de necessidades de importação, segundo o vice-governador do banco central, Innocent Matshe. Trata-se de mais uma tentativa de recuperar autonomia monetária depois de mais de uma década marcada por hiperinflação, dolarização e sucessivas falhas na gestão cambial.
A Ambição de Uma Moeda Única
A estratégia anunciada pelas autoridades monetárias visa “acumular reservas suficientes que permitam a transição para um sistema de mono-moeda”, afirmou Innocent Matshe durante um encontro com executivos do sector mineiro, em Harare. O objectivo é claro: “Até 2030, se todas as condições se mantiverem favoráveis, teremos reservas suficientes para sustentar a transição para uma única moeda nacional.”
A abordagem pretende resolver o legado de instabilidade monetária que levou ao colapso da moeda nacional e forçou o país a adoptar o dólar norte-americano como meio de pagamento dominante desde 2009.
ZiG Ganha Peso no Sistema de Pagamentos
Lançado em Abril de 2024, o ZiG — Zimbabwe Gold — vem sendo apresentado como o instrumento central para restaurar a soberania monetária. Segundo dados citados pelas autoridades, o ZiG já representa 40% das transacções diárias, apoiado pela forte valorização internacional do ouro.
O país beneficiou de um aumento de 48% no preço do ouro durante o ano, o que impulsionou tanto a confiança na nova moeda como a actividade na Victoria Falls Stock Exchange, dominada por instrumentos denominados em dólares e por empresas ligadas ao sector aurífero.
A ligação directa do ZiG ao ouro e a outros activos estratégicos pretende criar uma âncora de valor mais estável do que as anteriores moedas locais, marcadas por episódios de hiperinflação que corroeram poupanças e confiança.
Reservas e Import-Cover: O Pilar do Novo Caminho Cambial
O vice-governador do banco central revelou que as reservas internacionais situam-se actualmente em cerca de mil milhões de dólares, valor que garante entre três e seis meses de cobertura de importações — um patamar considerado mínimo para países de economias vulneráveis.
A meta para os próximos três anos é elevar esse nível até um patamar que possibilite “ancorar a transição para uma moeda única”, reforçando a capacidade defensiva do banco central contra choques externos.
A Desdolarização Não Será Total Nem Imediata
Embora a narrativa oficial sublinhe a ambição de restaurar plenamente uma moeda nacional, as autoridades reconhecem que o processo será gradual e coexistirá, durante um período prolongado, com o uso de dólares. Instrumentos financeiros dolarizados — como Treasury bills, obrigações e acções — não serão convertidos compulsivamente em ZiG, preservando garantias de segurança jurídica para investidores e empresas.
Esta abordagem híbrida procura evitar rupturas e transmitir previsibilidade num mercado que continua altamente dolarizado, com empresas e famílias habituadas à estabilidade do dólar face à volatilidade histórica da moeda local.
Confiança, Ouro e Credibilidade Institucional: Os Três Testes Decisivos
O plano de desdolarização depende de três factores estruturais que actuam de forma interligada. O primeiro é a manutenção dos preços elevados do ouro, elemento decisivo para sustentar a confiança na ancoragem do ZiG e na sua capacidade de preservar valor num país com um histórico difícil de estabilidade monetária. O segundo factor é o reforço contínuo das reservas internacionais, considerado essencial para garantir convertibilidade, defender a moeda de choques externos e assegurar que o Banco Central dispõe de instrumentos adequados para gerir pressões cambiais. O terceiro factor é a estabilidade macroeconómica e a coerência institucional, sem as quais a população e as empresas tenderão a manter preferência pelo dólar como meio de poupança e unidade de referência.
Perspectiva de Médio Prazo
O Zimbabué está a tentar, pela primeira vez em muitos anos, ancorar a reconstrução da sua política monetária em fundamentos reais — ouro, reservas e estabilidade. Contudo, a história recente do país demonstra que a confiança é um activo difícil de recuperar e fácil de perder. A ambição de chegar a 2030 com um regime de moeda única dependerá menos das declarações oficiais e mais da capacidade de manter disciplina cambial, credibilidade técnica e estabilidade macroeconómica.
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