Como é que os países africanos podem aumentar a sua participação nas cadeias de abastecimento globais?

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  • O relatório da ONU destaca o potencial de África para se tornar um actor importante nas cadeias de abastecimento mundiais, com perspectivas de aumentar os salários e criar emprego;
  • O relatório sugere, que os países africanos precisam de criar um ambiente propício às indústrias de tecnologicamente intensivas;
  • Isto poderia também, ajudar a diversificar a economia do continente e torná-la mais resistente a choques.

As economias africanas podem tornar-se participantes importantes nas cadeias de abastecimento globais, aproveitando os seus vastos recursos de materiais necessários aos sectores de alta tecnologia e aos seus próprios mercados de consumo em crescimento, afirmou a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) no seu Relatório sobre o Desenvolvimento Económico em África 2023, lançado a 21 de Agosto de 2023, em Nairobi.

As cadeias de abastecimento englobam os sistemas e os recursos necessários para desenvolver, produzir e transportar bens e serviços dos fornecedores para os clientes.

“Este é o momento de África reforçar a sua posição nas cadeias de abastecimento mundiais, à medida que prosseguem os esforços de diversificação. É também uma oportunidade para o continente reforçar as suas indústrias emergentes, promover o crescimento económico e criar emprego para milhões de pessoas”, afirmou a Secretária-Geral da UNCTAD, Rebeca Grynspan.

A abundância em África de minerais e metais críticos, incluindo alumínio, cobalto, cobre, lítio e manganês, componentes vitais em indústrias tecnologicamente intensivas, posiciona o continente como um destino atrativo para a indústria transformadora, uma vez que as recentes perturbações causadas por turbulências comerciais, acontecimentos geopolíticos e incerteza económica obrigam os fabricantes a diversificar os seus locais de produção.

África também oferece vantagens como um acesso mais curto e mais simples aos factores de produção primários, uma mão de obra mais jovem, consciente da tecnologia e adaptável, e uma e uma classe média em expansão, conhecida pela sua crescente procura de bens e serviços mais sofisticados.

O reforço das cadeias de abastecimento africanas é fundamental para o crescimento da região

O relatório salienta que a criação de um ambiente propício às indústrias tecnologicamente intensivas, ajudaria a aumentar os salários no continente, actualmente fixados em um mínimo de 220 dólares por mês, em comparação com uma média de 668 dólares no continente Americano.

Uma integração mais profunda nas cadeias de abastecimento globais também diversificaria as economias africanas, aumentando a sua resistência a futuros choques.

A expansão das cadeias de abastecimento de energia em África é também uma oportunidade para acelerar a ação climática. O vasto potencial para as energias renovávéis no continente, especialmente no que respeita à energia solar, pode ajudar a reduzir os custos de produção e a diminuir a dependência de fontes de energia baseadas em combustíveis fósseis.

A África precisa de mais investimento em energias renováveis para ajudar a colmatar o significativo défice de investimento e a resolver outros obstáculos ao fabrico de painéis solares no continente. Actualmente, apenas cerca de 2% dos investimentos globais em energias renováveis vão para África. O crescimento do investimento em energias renováveis, tal como demonstrado pela UNCTAD, poderia promover o fabrico de painéis solares no continente.

A título de exemplo, em 2022, a República Democrática do Congo foi o maior produtor de cobre em África, com 1,8 milhões de toneladas métricas – e para além da exploração e extração, o país é um destino potencial para a refinação de produtos metálicos para a indústria dos veículos eléctricos.

Desbloquear as oportunidades de África na cadeia de abastecimento: Investir em infra-estruturas, tecnologia e financiamento

África necessita de um investimento significativo em infra-estruturas para reforçar a sua posição como um destino para a cadeia de abastecimento.

Dezassete países africanos, incluindo Angola, Botsuana, Gana e África do Sul, já implementaram regulamentos de conteúdo local para apoiar o crescimento das cadeias de abastecimento locais, promover a transferência de tecnologia, criar emprego e acrescentar valor dentro das suas fronteiras.

Além disso, os países africanos devem também assegurar melhores contractos de exploração mineira e licenças de exploração para os metais utilizados em produtos de alta tecnologia e cadeias de abastecimento. Tal medida reforçaria as indústrias nacionais, permitindo às empresas locais conceber, adquirir, fabricar e fornecer os componentes necessários.

A adopção de tecnologias digitais inovadoras, é também fundamental para optimizar os processos da cadeia de abastecimento. Países como o Quénia fizeram progressos notáveis neste domínio, com taxas crescentes de adopção de competências digitais em África.

A UNCTAD insta aos governos a criarem políticas sólidas, a promoverem um ambiente regulamentar favorável e a aumentarem os programas para promover a adopção generalizada destas tecnologias.

O organismo das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento reitera também, o seu apelo a melhores soluções de financiamento para oferecer aos países e empresas africanos capital e liquidez acessíveis para investir no reforço das suas cadeias de abastecimento.

Mais financiamento na cadeia de abastecimento para as pequenas empresas

O relatório afirma que as pequenas e médias empresas africanas precisam de mais financiamento na cadeia de abastecimento, o que preenche a lacuna de tempo de pagamento entre compradores e vendedores, melhora o acesso ao capital de giro e reduz a tensão financeira.

De acordo com o relatório, o valor do mercado africano de financiamento da cadeia de abastecimento aumentou 40% entre 2021 e 2022, atingindo US$ 41 mil milhões de dólares. Mas isso não é suficiente.

O continente pode mobilizar mais fundos eliminando as barreiras ao financiamento da cadeia de abastecimento, incluindo desafios regulamentares, perceção de alto risco e informação de crédito insuficiente.

A UNCTAD também sublinha a necessidade de um alívio da dívida para oferecer aos países africanos espaço fiscal para investirem no reforço das suas cadeias de abastecimento, uma vez que, em média, pagam quatro vezes mais por empréstimos do que os Estados Unidos e oito vezes mais do que as economias europeias.

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