FMI alerta para forte travagem da economia mundial com crescimento revisto para 2,8% em 2025

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  • Escalada tarifária liderada pelos Estados Unidos leva previsões de crescimento para os níveis mais baixos desde a pandemia, com riscos de instabilidade cambial, pressões sociais e impacto severo nos países em desenvolvimento

Destaques

  • Projecção de crescimento global para 2025 desce de 3,3% para 2,8%;
  • Tarifas dos EUA atingem níveis históricos, elevando incerteza e penalizando o comércio;
  • Crescimento nos EUA revisto para 1,8%, com zona euro a recuar para 0,8%;
  • Países emergentes devem crescer 3,7%, mas com perdas mais acentuadas nas economias visadas pelas tarifas;
  • FMI adverte para riscos fiscais, fuga de capitais, instabilidade financeira e agravamento da dívida externa nos países vulneráveis.

A mais recente edição do World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicada esta segunda-feira, 22 de Abril, projeta uma desaceleração da economia mundial para 2,8% em 2025, revendo em baixa as expectativas de crescimento face aos 3,3% estimados em Janeiro. A deterioração do cenário económico deve-se sobretudo à escalada das medidas tarifárias unilaterais adoptadas pelos Estados Unidos, que atingiram uma abrangência não vista desde a década de 1930.

Segundo o relatório, o novo cenário de referência, com dados fechados a 4 de Abril de 2025, inclui o impacto directo das tarifas impostas a partir de 2 de Abril, que afectam praticamente todas as importações dos EUA. Combinadas com as respostas retaliatórias dos parceiros comerciais, estas medidas elevaram os níveis efectivos de tarifas a patamares históricos, comparáveis aos da era Smoot-Hawley (1930), provocando uma nova vaga de incerteza global.

“A velocidade com que as tensões comerciais se intensificaram, aliada à imprevisibilidade das políticas, está a minar a confiança dos mercados e a restringir o investimento e o consumo em escala global”, destaca o relatório.

As principais economias avançadas não escapam ao abrandamento. O crescimento dos EUA foi revisto em baixa para 1,8%, uma queda de 0,9 pontos percentuais face à estimativa de Janeiro. Na zona euro, a previsão passou para 0,8%, menos 0,2 pontos percentuais.

Nas economias emergentes e em desenvolvimento, espera-se um crescimento de 3,7% em 2025 e 3,9% em 2026, com revisões em forte baixa para países especialmente atingidos pelas tarifas, como a China.

Inflação e instabilidade cambial

O FMI prevê que a inflação global abrande mais lentamente do que o esperado: 4,3% em 2025 e 3,6% em 2026. Nos países avançados, houve uma revisão em alta da inflação prevista para 2025, enquanto que nas economias emergentes, a previsão foi ajustada em ligeira baixa.

O documento alerta ainda para o risco de reprecificação abrupta de activos financeiros, com implicações nos mercados de câmbio, nas taxas de juro e nos fluxos de capitais — especialmente em países com fraca robustez fiscal ou elevada exposição à dívida externa.

“O aumento da incerteza e o recuo nos amortecedores fiscais e monetários enfraquecem a resiliência das economias perante choques adicionais”, lê-se no relatório.

Riscos sociais e dívida nos países mais vulneráveis

As consequências do novo quadro geoeconómico não se limitam aos mercados. O FMI sublinha que a persistência da crise do custo de vida, aliada ao encolhimento do espaço fiscal, poderá reacender movimentos de protesto e instabilidade social, sobretudo em economias com elevado desemprego e baixa cobertura de protecção social.

Além disso, países de baixo rendimento enfrentam pressões acrescidas devido à redução da ajuda internacional ao desenvolvimento, sendo forçados a recorrer a ajustamentos fiscais drásticos que poderão comprometer a prestação de serviços essenciais e travar o crescimento.

“A resiliência demonstrada por muitas economias emergentes será colocada à prova à medida que o serviço da dívida se torna mais oneroso num contexto de condições financeiras globais desfavoráveis.”

Mensagem do FMI: concertação e reformas estruturais

Face a este cenário, o FMI defende uma estratégia de contenção coordenada e reformas estruturais profundas. As prioridades incluem:

  • Reforçar os mecanismos de resolução da dívida e reestruturação fiscal;
  • Ajustar políticas migratórias e laborais para enfrentar as mudanças demográficas;
  • Mitigar a volatilidade cambial com instrumentos macroprudenciais e intervenções direccionadas;
  • Relançar o investimento público e promover maior previsibilidade nos regimes comerciais.

“O caminho a seguir exige clareza e coordenação. Apenas com estabilidade comercial e fiscal será possível restaurar o crescimento e reduzir os desequilíbrios globais”, conclui o relatório.