• OPEP+ aumenta produção em 411 mil barris/dia para Junho, repetindo decisão de Abril.
  • Preços do Brent caíram quase 20% desde início de Abril, situando-se nos 61 USD/barril.
  • Arábia Saudita muda de estratégia após três anos de cortes, visando recuperação de quota de mercado.
  • Tensões internas aumentam, com países como o Cazaquistão e o Iraque a violarem sistematicamente quotas.
  • Analistas preveem persistência de preços baixos e contestam viabilidade prática do aumento anunciado.

Grupo decide elevar em 411 mil barris por dia a produção de Junho, 

Num movimento que apanhou os mercados de surpresa, mas sinalizando mudança estratégica em busca de quota de mercado, apesar da pressão descendente sobre o Brent,

a OPEP+, liderada pela Arábia Saudita, decidiu aumentar pela segunda vez consecutiva a produção colectiva de petróleo em 411 mil barris por dia. Efectivamente, isto acontece numa altura em que os preços do crude recuam para mínimos de quatro anos, pressionados por receios de excesso de oferta e abrandamento económico.

A OPEP+, organização liderada pela Arábia Saudita e que inclui países como a Rússia, anunciou um novo aumento de 411 mil barris diários na produção de petróleo para o mês de Junho — repetindo o incremento decidido em Abril e marcando uma inversão radical da estratégia seguida nos últimos três anos, assente em cortes coordenados de oferta.

O anúncio surge num contexto particularmente adverso: o preço do Brent caiu quase 20% desde 2 de Abril, fixando-se em 61 dólares por barril, o valor mais baixo em quase quatro anos. A descida é atribuída ao aumento da oferta da OPEP, à expansão da produção dos EUA e ao impacto negativo das tarifas comerciais impostas por Washington sobre os fluxos globais.

“A OPEP+ acaba de lançar uma bomba sobre o mercado petrolífero,” afirmou Jorge León, da consultora Rystad e ex-funcionário da OPEP. “A decisão anterior foi um alerta. A de hoje é uma mensagem definitiva: o grupo está a mudar de estratégia, privilegiando quota de mercado em detrimento do preço.”

Nos últimos três anos, a OPEP+ havia cortado quase 6 milhões de barris por dia, com o objectivo de sustentar preços acima dos 90 USD, meta que chegou a ser alcançada em 2022. Contudo, a eficácia do cartel tem vindo a diminuir face ao enfraquecimento da procura global, produção excessiva de alguns membros e dificuldades orçamentais internas, especialmente na Arábia Saudita.

Segundo fontes próximas do governo saudita, Riade está agora disposta a aceitar preços mais baixos por mais tempo, em troca de retomar espaço no mercado global. A frustração acumulada pelo facto de ser o principal país a cumprir os cortes enquanto outros — como o Cazaquistão, Iraque e Emirados Árabes Unidos — mantiveram níveis acima das quotas fixadas, terá precipitado a mudança de rumo.

“Estamos a assistir ao abandono de uma estratégia de controlo de preços em nome de uma guerra por quota,” declarou um analista do sector ao Financial Times.

Apesar do anúncio, alguns analistas, como Bjarne Schieldrop do SEB, duvidam que o petróleo extra anunciado chegue efectivamente ao mercado, tendo em conta as sanções sobre a Venezuela e a possibilidade de os principais violadores de quotas recuarem para evitar mais instabilidade.

A decisão da OPEP+ marca um novo capítulo na geopolítica energética global, reactivando disputas por quota de mercado num cenário de procura instável e concorrência feroz. Para países dependentes das receitas do petróleo, como Moçambique, este novo ciclo de preços baixos prolongados pode representar desafios adicionais em termos de planeamento orçamental, investimento no sector e gestão das receitas fiscais futuras.