
Crédito Fraco, Escassez de Divisas e Economia a Duas Velocidades Definem um Ano de Ajustamento Empresarial
Em entrevista ao Tema de Fundo do Semanário Económico, conduzida por João Carlos, o Economista-Chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, descreve um ambiente empresarial pressionado por restrições financeiras persistentes, desequilíbrios cambiais e um crescimento que continua concentrado fora da economia doméstica.
- Crédito bancário cresce abaixo das necessidades da economia real;
- Escassez de divisas assume uma dimensão estrutural;
- Crescimento económico mantém-se concentrado em grandes projectos;
- PMEs enfrentam fragilidades financeiras e operacionais profundas;
- Choques industriais podem gerar riscos macroeconómicos sistémicos;
- Oportunidades existem, mas são selectivas e exigem disciplina financeira.
Crédito Fraco Reflecte Risco Elevado, Não Falta de Liquidez
Ao longo da conversa, Fáusio Mussá foi claro ao afastar a ideia de que o fraco crescimento do crédito decorra de uma ausência de liquidez no sistema bancário. O problema, explicou, está na avaliação de risco das empresas num ambiente macroeconómico ainda frágil.
“O crédito não está fraco porque os bancos não querem emprestar. Está fraco porque a economia real ainda não oferece condições suficientes para absorver financiamento de forma sustentável”, afirmou.
Apesar do afrouxamento gradual da política monetária, o custo efectivo do crédito continua elevado quando ajustado ao risco percebido. Margens comprimidas, volatilidade cambial e fraca previsibilidade da procura limitam a capacidade das empresas de gerar fluxos de caixa estáveis — um requisito central para a expansão do financiamento bancário.
Neste contexto, o crédito existe, mas flui essencialmente para empresas com perfis financeiros robustos, deixando uma parte significativa do tecido empresarial numa posição defensiva.

Escassez de Divisas Tornou-se Restrição Estrutural
A escassez de moeda externa surge, no diagnóstico do economista, como o principal travão transversal à actividade económica. Mais do que um choque conjuntural, trata-se de um desequilíbrio estrutural entre a geração de divisas e as necessidades de importação da economia.
“Hoje, a escassez de divisas é provavelmente o maior constrangimento para as empresas. Afecta produção, custos e capacidade de planeamento”, sublinhou.
A dificuldade de acesso a moeda externa compromete a importação de matérias-primas, equipamentos e bens intermédios, introduzindo atrasos produtivos e pressionando preços. Neste ambiente, a política monetária perde eficácia, uma vez que juros mais baixos não resolvem um problema cuja raiz é cambial.
Para muitas empresas, a gestão do risco cambial deixou de ser uma função financeira secundária e passou a ser um elemento central da estratégia de sobrevivência.
Crescimento a Duas Velocidades Limita Efeitos Multiplicadores
Outro ponto estrutural abordado por Fáusio Mussá foi a persistência de uma economia a duas velocidades. O crescimento continua fortemente concentrado nos grandes projectos, que beneficiam de financiamento externo, contratos de longo prazo e acesso privilegiado a divisas.
“O crescimento existe, mas não está a espalhar-se pela economia doméstica na proporção desejável”, observou.
A fraca integração das empresas nacionais nas cadeias de valor destes projectos reduz os efeitos multiplicadores do investimento, explicando por que razão indicadores macroeconómicos positivos não se traduzem numa melhoria generalizada do ambiente empresarial.

PMEs Enfrentam Fragilidades Que Vão Além do Crédito
No caso das pequenas e médias empresas, o economista-chefe do Standard Bank foi igualmente directo: o problema não é apenas financeiro.
“Mesmo quando há crédito disponível, muitas PMEs não estão em condições de o absorver sem aumentar excessivamente o risco”, afirmou.
Baixa capitalização, informalidade, fragilidades na gestão financeira e modelos de negócio pouco resilientes continuam a limitar a sustentabilidade destas empresas. A falta de crédito é, assim, simultaneamente causa e consequência dessas debilidades estruturais.
Sem progressos claros na formalização, governação e capacitação empresarial, o papel das PMEs como motor do crescimento continuará condicionado.
Fragilidades Industriais e Risco Sistémico
A conversa abordou ainda os riscos associados à concentração produtiva. Fragilidades em grandes unidades industriais podem ter efeitos em cadeia relevantes sobre exportações, emprego, receitas fiscais e balança de pagamentos.
“Quando temos poucos sectores a gerar divisas, qualquer choque nessas áreas rapidamente se transforma num problema macroeconómico”, alertou.
Esta dependência excessiva expõe a economia a riscos sistémicos difíceis de mitigar no curto prazo e reforça a necessidade de diversificação produtiva.
Oportunidades Selectivas Num Ano Exigente
Apesar do enquadramento restritivo, Fáusio Mussá identificou oportunidades selectivas em sectores ligados à logística, energia, transportes e serviços associados aos grandes projectos. Contudo, deixou um aviso claro:
“2026 não é um ano para expansões agressivas. É um ano para escolhas estratégicas muito bem calibradas.”
Trata-se de um ambiente em que a disciplina financeira, a gestão de risco e o posicionamento estratégico serão determinantes para atravessar o ciclo com resiliência.

Um Ano de Ajustamento, Não de Expansão Generalizada
O retrato final é o de um sector empresarial em modo de ajustamento, focado na preservação de liquidez, controlo de custos e mitigação de riscos cambiais e financeiros.
Sem avanços estruturais na geração de divisas, na integração da economia doméstica e na redução dos desequilíbrios macroeconómicos, a recuperação das empresas continuará gradual e desigual. Ainda assim, para empresas bem capitalizadas e estrategicamente posicionadas, o contexto poderá oferecer janelas selectivas de oportunidade.
Mais notícias
-
DOM CARLOS PODE SER RECUPERADO
10 de Outubro, 2022 -
Moçambique co-preside finanças e tesouraria da região
2 de Dezembro, 2023
Conecte-se a Nós
Economia Global
Mais Vistos
Sobre Nós
O Económico assegura a sua eficácia mediante a consolidação de uma marca única e distinta, cujo valor é a sua capacidade de gerar e disseminar conteúdos informativos e formativos de especialidade económica em termos tais que estes se traduzem em mais-valias para quem recebe, acompanha e absorve as informações veiculadas nos diferentes meios do projecto. Portanto, o Económico apresenta valências importantes para os objectivos institucionais e de negócios das empresas.
últimas notícias
Mais Acessados
-
Economia Informal: um problema ou uma solução?
16 de Agosto, 2019 -
LAM REDUZ PREÇO DE PASSAGENS EM 30%
25 de Maio, 2023
















