
Itália Relança Plano Mattei Em Adis Abeba E Reposiciona-se Como Actor Estruturante Na Nova Arquitectura Euro-Africana
- Itália procura transformar o Plano Mattei de iniciativa nacional em plataforma multilateral euro-africana;
• Roma prevê mobilizar 1,3 mil milhões de euros em 2025 para África, incluindo instrumentos climáticos;
• Corredor do Lobito emerge como infra-estrutura estratégica para integração regional e segurança energética;
• Capital humano e formação técnica assumem centralidade na estratégia italiana;
• Plano Mattei consolida-se como instrumento geoeconómico de longo prazo no continente.
De Iniciativa Nacional A Estratégia Multilateral
A deslocação da Presidente do Conselho de Ministros de Itália, Giorgia Meloni, a Adis Abeba marcou o relançamento político do Plano Mattei e confirmou a ambição de Roma em reposicionar-se como actor relevante na arquitectura estratégica euro-africana .
A participação na Cimeira Itália-África e, posteriormente, na 39.ª sessão da União Africana, não teve apenas valor diplomático. Representou um movimento deliberado de internacionalização da iniciativa, com o objectivo de a converter numa plataforma multilateral envolvendo parceiros europeus, o G7, instituições financeiras internacionais e agências das Nações Unidas .
Ao definir o Plano Mattei como “um pacto entre nações livres”, Meloni procurou marcar distanciamento face a modelos históricos de cooperação assimétrica, defendendo uma abordagem horizontal e de benefício mútuo.
Energia, Infra-Estruturas E Segurança Estratégica
Energia, infra-estruturas, água, agricultura, saúde e educação mantêm-se como pilares estruturantes da iniciativa . No entanto, a leitura geoeconómica revela que o eixo energético ocupa posição central.
Num contexto de reconfiguração das cadeias globais de fornecimento e de procura europeia por diversificação energética, África surge como parceiro estratégico incontornável. O Plano Mattei, neste sentido, combina desenvolvimento sustentável com interesses nacionais italianos e europeus.
Entre os projectos mencionados, o Corredor do Lobito assume especial relevância. A infra-estrutura logística é considerada fundamental para a integração económica da África Austral, para a gestão de fluxos migratórios e para o reforço da segurança energética .
A presença angolana no diálogo reforça a dimensão atlântica e mineral desta estratégia, sobretudo num momento em que os minerais críticos e as cadeias logísticas assumem crescente importância geopolítica.
1,3 Mil Milhões De Euros E O Eixo Do Capital Humano
Para 2025, Itália prevê mobilizar 1,3 mil milhões de euros destinados a fundos para África e instrumentos financeiros climáticos . O número de intervenções previstas aumenta de nove para catorze, sinalizando expansão operacional.
Contudo, mais do que os montantes, destaca-se a ênfase no capital humano. A educação e a formação profissional são apresentadas como instrumentos estratégicos para consolidar lideranças africanas e promover desenvolvimento sustentável .
A parceria com a Nigéria, incluindo encontro previsto com o Presidente Bola Tinubu, coloca a formação técnica no centro da cooperação bilateral. Esta dimensão responde simultaneamente a duas agendas: competitividade económica africana e gestão estruturada do fenómeno migratório.
Água, Governação Global E Agenda 2063
Durante a sessão da União Africana, o foco deslocou-se para a segurança hídrica. A proclamação de 2026 como Ano Internacional do Acesso Sustentável à Água e ao Saneamento, no quadro da Agenda 2063, insere o Plano Mattei numa lógica de alinhamento com prioridades continentais .
As intervenções do Presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, e do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, reforçaram a centralidade da água como recurso estratégico e elemento de estabilidade regional .
A articulação entre água, energia e infra-estruturas revela uma visão sistémica: desenvolvimento, segurança e estabilidade são tratados como dimensões interdependentes.
Itália Procura Protagonismo Num Novo Ciclo Euro-Africano
A mensagem política de Meloni foi inequívoca ao afirmar que “o nosso futuro depende do vosso” . Trata-se de uma declaração que reconhece a interdependência estratégica entre Europa e África num contexto de transição energética, pressões migratórias e reorganização geopolítica global.
O relançamento do Plano Mattei confirma-o como pedra angular da política externa italiana. Roma procura afirmar presença estável, estruturada e de longo prazo no continente, combinando desenvolvimento sustentável, segurança energética e afirmação de interesses estratégicos.
Num cenário internacional marcado por competição crescente entre potências — da China aos Estados Unidos, passando pela União Europeia — o Plano Mattei surge como instrumento de posicionamento europeu renovado em África.
Para os países africanos, incluindo Moçambique, a questão central não é apenas a magnitude do financiamento, mas a qualidade da parceria, a transferência efectiva de capacidades e o alinhamento com estratégias nacionais de industrialização e transformação económica.
O eixo Itália-África entra, assim, numa nova fase, menos retórica e mais estruturada, onde diplomacia, capital e infra-estrutura convergem numa lógica declaradamente estratégica.
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