22 anos da BVM: O que temem as empresas?

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A resposta à questão configura a formulação de uma problemática sobre a estrutura e estágio do nosso tecido empresarial cuja transformação requere uma articulação multidimensional e sectorial.

Volvido o tempo de existência da BVM, as iniciativas desencadeadas para oferecer alternativas de financiamento às empresas, a fraca aderência destas não pode ser explicada, nesta altura, pelo temor ao desconhecido. As causas são muito mais profundas, estruturantes e complexas.

As empresas nacionais continuam relutantes na opção pelo financiamento alternativo, via mercado de capitais. Volvidos pouco mais de 22 anos após o início de actividades da Bolsa de Valores de Moçambique, apenas 12 empresas foram admitidas à cotação, sendo oito no Mercado de Cotações Oficiais, uma no Segundo Mercado e três no Terceiro Mercado.

Não obstante os esforços e o reconhecido mérito da BVM na redução das limitações que inibem a aderência das empresas, através de segmentos de mercado mais “ajustados” às condições das empresas, o progresso registado não foi suficiente para alcançar uma dinâmica e liquidez relativamente considerável quando comparada com outras praças financeiras.

Apesar de apresentar requisitos facilitados se comparados com o Mercado de Cotações Oficiais, o Segundo Mercado, segmento destinado a admissão à cotação de valores mobiliários emitidos por pequenas e médias empresas, após mais de uma década de existência, só conseguiu atrair uma empresa.

Paralelamente, o Terceiro Mercado, uma alternativa criada em 2019 com objectivo de preparar as empresas para ingressarem nos primeiros dois segmentos de mercado da bolsa, eliminando os principais obstáculos na admissão à cotação, conseguiu atrair apenas três empresas nos últimos três anos.

No geral, a adesão das empresas ao mercado bolsista nacional ainda ocorre de forma tímida. A contabilidade organizada, apresentação de contas auditadas, a dispersão accionista e a falta de cultura de mercado de capitais, são apontados como os principais factores que impedem uma maior listagem das empresas na BVM.

Outrossim, “a legislação sobre a intermediação das operações do mercado de capitais e o mecanismo de investimento” também têm contribuído para a baixa capitalização bolsista no País, destacou João das Neves, Presidente do Conselho de Administração da ZERO INVESTIMENTOS, SA., acrescentando, igualmente, que as empresas também precisam de uma “sinalização vinda de um exemplo de caso de sucesso para aderir à bolsa”.

Falando em exclusivo ao “O. ECONÓMICO”, o PCA daquela que é a primeira  Pequena e Média Empresa a aderir à BVM, sendo, até o momento, a única cotada no Segundo Mercado, explicou que as PME precisam “ver para crer”, isto é, estão a espera da ZERO INVESTIMENTOS ser um caso de sucesso para aderirem ao mercado de Capitais. “Como até este momento ainda não conseguem ver um sinal muito positivo e claro da Zero Investimentos, consideram que tudo é um fracasso”, ajustou.

João das Neves, PCA da ZERO INVESTIMENTOS

“Não há uma fórmula directa, são vários aspectos que concorrem para isto”, frisou Das Neves quando instado a comentar sobre o factores por detrás do fracasso da capitalização bolsista, apontando para a legislação como um destes factores, na medida em que impõe que os bancos  comerciais sejam os intermediários das operações do mercado de capitais.

No seu ponto de vista, a intermediação das operações do mercado de capitais pelos bancos comercias tem sido nociva à capitalização bolsista, uma vez que os primeiros são, em grande medida, concorrentes da disponibilização de capitais na bolsa, não apresentando, portanto, qualquer interesse em promover as operações do mercado de capitais.

Ainda sobre a natureza do processo de intermediação das operações do mercado de capitais em Moçambique, nota que o mecanismo de financiamento a ele associado não está facilitado. Explicou que, se à semelhança do que acontece no sistema bancário, os moçambicanos, e eventualmente estrangeiros, tivessem a oportunidade de fazer investimentos através dos telemóveis, registar-se-ia um aumento considerável do número de intervenientes no mercado.

Comentando sobre a experiência concreta da ZERO INVESTIMENTOS, João das Neves revelou que apesar do seu papel como pioneira, a empresa não se sente privilegiada por ser a única PME cotada no segundo mercado mas continua confiante no mecanismo de financiamento via bolsa de valores.

“A cotação da empresa em bolsa permitiu ganhos em termos de disciplina organizacional, visibilidade e valorização para os accionistas, acima do previsto”, frisou.

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