Actividade Empresarial Recuou Em Abril E Sinaliza Riscos De Contracção Económica No Segundo Trimestre

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  • PMI do Standard Bank desce para 49,8 pontos, reflectindo quebra da procura, escassez de combustível e perturbações nas cadeias de abastecimento
Questões-Chave:
  • PMI caiu para 49,8 pontos em Abril, indicando deterioração da actividade empresarial;
  • Produção contraiu pela primeira vez desde Junho de 2025;
  • Procura enfraqueceu, com queda nas novas encomendas;
  • Escassez de combustível agravou atrasos nas entregas;
  • Standard Bank antevê risco de contracção do PIB no segundo trimestre de 2026.

A actividade económica do sector privado moçambicano registou uma inversão em Abril, com sinais claros de abrandamento que apontam para riscos de contracção no curto prazo. O Purchasing Managers’ Index (PMI) do Standard Bank Moçambique desceu para 49,8 pontos, abaixo do limiar dos 50 que separa expansão de contracção, sinalizando uma deterioração das condições empresariais após sete meses consecutivos de crescimento .

O recuo do indicador reflecte uma combinação de factores adversos, com destaque para a diminuição da procura, a escassez de combustível e constrangimentos nas cadeias de abastecimento, que levaram as empresas a reduzir os níveis de actividade.

Procura enfraquece e produção entra em terreno negativo

Um dos sinais mais preocupantes do relatório reside na queda das novas encomendas, que registaram a primeira descida desde Setembro de 2025. Embora moderada, esta redução foi a mais acentuada dos últimos dez meses, evidenciando um enfraquecimento do consumo e da dinâmica empresarial .

Este abrandamento teve impacto directo na produção, que contraiu pela primeira vez desde Junho do ano passado. Os dados indicam que cerca de 7% das empresas reportaram uma diminuição da actividade, superando ligeiramente as que registaram crescimento, o que se traduziu num índice abaixo dos 50 pontos.

Os sectores da construção, serviços e agricultura foram particularmente afectados, num contexto marcado pela redução da procura e limitações operacionais.

Choque de oferta agrava perturbações no sistema económico

Para além da procura, o lado da oferta também contribuiu para o abrandamento. A escassez de combustível — associada às tensões no Médio Oriente — provocou atrasos nos prazos de entrega dos fornecedores, deteriorando as cadeias de abastecimento pela primeira vez em mais de um ano .

Este factor teve um efeito multiplicador, afectando a disponibilidade de insumos, a capacidade produtiva e a eficiência operacional das empresas. Em resposta, muitas reduziram as suas aquisições de meios de produção e ajustaram os níveis de stock, numa tentativa de mitigar riscos.

A combinação de menor procura e constrangimentos logísticos configura um cenário típico de choque misto — simultaneamente de procura e de oferta — que tende a amplificar os impactos sobre a actividade económica.

Emprego resiste, mas custos mantêm pressão

Apesar do abrandamento, o mercado de trabalho apresentou sinais de resiliência. O emprego no sector privado aumentou pelo décimo primeiro mês consecutivo, ainda que a um ritmo moderado, sugerindo que as empresas mantêm alguma expectativa de recuperação futura.

Contudo, os custos salariais continuaram a subir, reflectindo tanto a contratação como ajustes remuneratórios. Em paralelo, os preços de venda aumentaram pelo nono mês consecutivo, impulsionados por custos de aquisição mais elevados e perturbações no abastecimento.

Este quadro evidencia um ambiente de pressões inflacionistas persistentes, mesmo num contexto de abrandamento da actividade — uma combinação particularmente desafiante para a política económica.

Standard Bank antevê risco de contracção do PIB

Na análise do economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, o desempenho do PMI reforça a perspectiva de contracção económica no segundo trimestre de 2026. Um dos factores críticos é a paralisação da Mozal, cuja contribuição para a economia é significativa — representando cerca de 15% das exportações, 2% da oferta de divisas e mais de 3% do PIB.

Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank Moçambique,

Segundo Mussá, o actual choque negativo da oferta, associado à conjuntura internacional, aumenta o risco de o crescimento económico ficar abaixo da previsão de 1,1% para 2026, ao mesmo tempo que a inflação poderá ultrapassar os 6,4% estimados para o final do ano.

Expectativas melhoram, mas incerteza mantém-se elevada

Apesar do quadro adverso, o relatório indica uma melhoria nas expectativas empresariais para os próximos 12 meses, sustentada por perspectivas de investimento, criação de emprego e oportunidades associadas ao avanço dos projectos de gás natural liquefeito (GNL).

Este optimismo moderado sugere que, embora o curto prazo esteja marcado por dificuldades, as empresas continuam a antecipar uma recuperação gradual da actividade.

Entre abrandamento conjuntural e desafios estruturais

O desempenho do PMI em Abril oferece uma leitura clara da actual conjuntura económica: um abrandamento provocado por factores externos e internos, com impactos visíveis na procura, produção e cadeias de abastecimento.

Para a economia moçambicana, o momento coloca desafios imediatos de gestão macroeconómica, mas também reforça a necessidade de enfrentar vulnerabilidades estruturais, nomeadamente a dependência de choques externos e a fragilidade das cadeias logísticas.

Num contexto global volátil, a capacidade de absorver choques e sustentar a actividade económica será determinante para a trajectória de crescimento nos próximos meses.

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