
Moçambique Precisa De Uma Nova Arquitectura Económica Baseada Na Industrialização E Transformação Interna Dos Recursos Naturais – Antóni Niquice
- Autor da obra “Economia do Caju em Moçambique” sustenta que o País precisa abandonar o modelo centrado na exportação de matérias-primas e avançar para uma estratégia de industrialização, conteúdo local e soberania económica.
- António Niquice defende industrialização como eixo central da transformação económica;
- Livro sobre economia do caju propõe reflexão estrutural sobre modelo económico moçambicano;
- Autor critica dependência histórica da exportação de matérias-primas;
- Reformas inspiradas pelas instituições de Bretton Woods são associadas à desindustrialização;
- Conteúdo local, Banco de Desenvolvimento e PME’s são vistos como instrumentos estratégicos;
- Gás natural, ouro, pesca e agro-indústria devem impulsionar nova base produtiva nacional;
- Formação técnico-profissional e produção de conhecimento são apontadas como prioridades;
- Autor defende maior papel estratégico do Estado na arquitectura económica nacional.
Para o economista, o País precisa, de imediato, romper com o paradigma extractivo e reconstruir a sua Base industrial, ou seja, a economia moçambicana precisa abandonar o paradigma centrado na exportação primária de recursos naturais e avançar para um novo ciclo de industrialização, agregação de valor e soberania económica. A posição foi defendida pelo académico António de Rosário Niquice durante entrevista ao programa Semanário Económico, a propósito do lançamento da sua obra Economia do Caju em Moçambique: Contexto das Políticas de Bretton Woods e os Pressupostos da Engenharia da Reindustrialização.
Ao longo da entrevista, o autor utilizou o caso do caju como metáfora mais ampla dos dilemas estruturais da economia nacional, argumentando que Moçambique continua preso a um modelo económico excessivamente dependente da exportação de matérias-primas, com reduzida capacidade interna de transformação produtiva.
“Continuamos com um país meramente exportador de matéria-prima. É preciso inverter este paradigma de desenvolvimento”, afirmou Niquice.
Caju Surge Como Metáfora Da Economia Moçambicana
Embora centrada na economia do caju, a obra procura, segundo o autor, transcender a dimensão agrícola e reflectir sobre os fundamentos estruturais da transformação económica nacional.
Niquice argumenta que o grande desafio moçambicano não reside apenas na produção de commodities, mas sobretudo na incapacidade histórica de converter recursos naturais em valor acrescentado, industrialização, emprego e prosperidade interna.
“Produzimos e exportamos matéria-prima, mas os ganhos ficam na periferia da cadeia de valor”, defendeu, acrescentando que o verdadeiro potencial económico está no processamento, logística, empacotamento e industrialização associados aos recursos nacionais.
Segundo o académico, Moçambique precisa reconstruir uma base industrial capaz de transformar internamente os seus principais activos económicos, incluindo caju, algodão, ouro, gás natural, pesca e outros recursos estratégicos.
Bretton Woods E A Desindustrialização Do País
Um dos pontos centrais da análise de Niquice prende-se com os impactos das reformas económicas implementadas após a adesão de Moçambique às instituições de Bretton Woods.
O autor sustenta que a liberalização económica e a transição para economia de mercado acabaram por contribuir para processos de desindustrialização, particularmente no sector do caju, outrora considerado um dos mais importantes do País.
“Fomos os maiores produtores de caju do mundo na década de 70, com cerca de 200 mil toneladas e fábricas altamente produtivas. Depois tivemos um descalabro associado às reformas e à exportação de caju em bruto”, afirmou.
Na sua perspectiva, o erro estratégico consistiu em confundir liberalização económica com abandono das capacidades produtivas nacionais e do papel estratégico do Estado na economia.
Conteúdo Local E Banco De Desenvolvimento Surgem Como Oportunidade
Apesar das críticas ao modelo anterior, Niquice considera existirem actualmente sinais positivos de mudança.
O académico destacou iniciativas como a aprovação da Lei do Conteúdo Local, revisão das leis de minas e petróleos, criação do Banco de Desenvolvimento, Programa Emprega e FDEL como instrumentos potencialmente importantes para impulsionar produção nacional e participação das PME’s na economia.
Segundo o autor, o acesso ao financiamento continua a ser um dos maiores bloqueios à industrialização do País, devido ao elevado custo do dinheiro no sistema bancário comercial.
“O nosso dinheiro é muito caro. Não conseguimos ter empreendedores genuinamente moçambicanos com capacidade de aceder ao financiamento para desenvolver negócios”, alertou.
Gás Natural Deve Impulsionar Revolução Industrial
Ao longo da entrevista, Niquice estabeleceu paralelos entre a economia do caju e o actual ciclo energético associado ao gás natural.
O autor defendeu que Moçambique precisa evitar que os projectos de LNG reproduzam padrões extractivos semelhantes aos observados noutras commodities, sem integração efectiva na economia nacional.
“Estamos a falar de cerca de 180 triliões de pés cúbicos de gás. Isto pode assegurar a revolução industrial que o País precisa”, afirmou.
Na sua visão, o gás natural deve servir não apenas para exportação energética, mas também como base para desenvolvimento de fertilizantes, indústria química, agro-indústria e outras cadeias produtivas.
O mesmo raciocínio aplica-se, segundo o académico, ao ouro, algodão, pesca e outros recursos nacionais, que continuam a sair do País com reduzido processamento interno.
Formação Técnica E Produção De Conhecimento São Prioridades
Niquice defendeu igualmente uma aposta forte na formação técnico-profissional, produção de conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico nacional.
Segundo o autor, Moçambique precisa criar uma juventude preparada para compreender e participar activamente nas novas indústrias ligadas à energia, mineração, agro-indústria e economia azul.
“Temos que investir na produção de conhecimento local. Precisamos de jovens que saibam fazer”, afirmou.
Para o académico, a transformação estrutural da economia moçambicana dependerá menos da abundância de recursos e mais da capacidade do País de construir instituições, indústria, conhecimento e financiamento capazes de converter esses recursos em desenvolvimento sustentável.
Estado Deve Actuar Como Arquitecto Da Transformação
No encerramento da entrevista, António Niquice defendeu que o Estado moçambicano deve reassumir um papel estratégico na arquitectura económica nacional — não necessariamente como operador directo da economia, mas como facilitador da industrialização, financiamento, inovação e integração produtiva.
Segundo o autor, Moçambique reúne condições geoestratégicas, energéticas, agrícolas e turísticas suficientes para impulsionar uma transformação económica profunda.
O desafio, concluiu, consiste agora em transformar diagnósticos e consensos políticos em implementação efectiva e acção concreta.
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