
Exportações De Algodão Duplicam E Governo Procura Recuperar Produtores Que Abandonaram O Sector
Receitas com a exportação de fibra de algodão ultrapassaram os 4,2 milhões de dólares no primeiro trimestre. Executivo aumenta preço mínimo pago ao produtor em 22,7% e lança ofensiva para travar o abandono da cultura.
- Exportações de algodão duplicaram no primeiro trimestre de 2026 face ao período homólogo;
- Receitas cresceram para cerca de 4,2 milhões de dólares;
- Bangladesh, Dubai e Suíça figuram entre os principais destinos das exportações moçambicanas;
- Governo aumentou em 22,7% o preço mínimo pago aos produtores para a campanha 2025/2026;
- Executivo pretende recuperar milhares de produtores que abandonaram o sector devido à redução dos preços.
A fileira do algodão está a dar sinais de recuperação em Moçambique, depois de um período marcado por dificuldades de rentabilidade e abandono da actividade por parte de milhares de produtores familiares.
Dados do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, constantes de um relatório de execução governamental e divulgados pela agência Lusa, indicam que as exportações de fibra de algodão registaram um crescimento expressivo no primeiro trimestre de 2026, tanto em volume como em valor.
Entre Janeiro e Março, Moçambique exportou 3.133 toneladas de fio de algodão, gerando receitas próximas de 4,228 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 3,6 milhões de euros. Os principais destinos foram Bangladesh, Dubai e Suíça.
O desempenho representa uma evolução significativa quando comparado com igual período de 2025, ano em que as exportações totalizaram 1.636 toneladas e receitas de aproximadamente 2,514 milhões de dólares.
Recuperação Surge Após Anos De Pressão Sobre O Sector
O crescimento das exportações surge numa fase em que o Governo procura revitalizar uma das culturas de rendimento mais tradicionais do país.
Apesar da importância histórica do algodão para milhares de famílias rurais, a actividade tem enfrentado desafios relacionados com a volatilidade dos preços internacionais, baixos níveis de produtividade e dificuldades de financiamento.
Segundo o Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, os preços praticados na campanha anterior contribuíram para uma saída significativa de produtores do sector.
Citado pela Lusa, o governante reconheceu que uma simples redução do preço pago ao produtor foi suficiente para provocar o abandono da actividade por parte de entre 30% e 40% dos produtores.
“Os produtores são muito sensíveis aos preços, então bastou uma redução como no ano passado e logo perdemos 30, 40% dos produtores no sector”, afirmou o ministro.
Governo Aumenta Preço Mínimo Em 22,7%
Na tentativa de inverter esta tendência, o Executivo decidiu aumentar o preço mínimo de compra do algodão para a campanha agrária 2025/2026.
Segundo informações avançadas pela Lusa, o novo preço foi fixado em 27 meticais por quilograma para o algodão de primeira qualidade, representando uma subida de 22,7% face aos 22 meticais praticados na campanha anterior.
O ministro explicou que o valor resulta de um esforço conjunto entre o Estado e o sector privado, que deverão assumir mecanismos de compensação financeira para assegurar a viabilidade da medida sem recorrer ao fundo de estabilização.
A expectativa é que o aumento funcione como um incentivo para o regresso dos produtores que abandonaram a cultura e estimule simultaneamente o aumento da produtividade.
Mais De 800 Mil Famílias Dependem Das Culturas De Rendimento
O algodão continua a desempenhar um papel relevante na economia rural moçambicana.
Segundo dados apresentados pelo Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas e citados pela Lusa, os sectores do algodão e das oleaginosas envolvem actualmente mais de 800 mil produtores familiares em todo o país. Destes, cerca de 100 mil dedicam-se ao algodão e aproximadamente 700 mil às diversas culturas oleaginosas.
A dimensão social da actividade ajuda a explicar a importância atribuída pelo Governo às negociações anuais dos preços mínimos, consideradas um instrumento de política agrícola destinado a proteger rendimentos e incentivar a produção.
Produtividade Continua A Ser O Principal Desafio
Apesar da recuperação das exportações, os desafios estruturais permanecem significativos.
O Governo defende que o crescimento sustentável do sector dependerá não apenas da melhoria dos preços, mas também da adopção de sementes melhoradas, tecnologias adequadas e práticas agrícolas mais eficientes.
Segundo Roberto Albino, citado pela Lusa, os preços acordados devem funcionar como um mecanismo de mobilização dos produtores, contribuindo para o aumento da produtividade, melhoria dos rendimentos familiares e reforço da competitividade agrícola nacional.
Na campanha anterior, Moçambique produziu cerca de 25 mil toneladas de algodão caroço com o apoio de três empresas de fomento agrícola.
Espaço Para Crescer Num Mercado Global Competitivo
Embora o desempenho recente seja encorajador, Moçambique continua a representar uma parcela reduzida do mercado mundial de algodão.
Segundo os dados citados pela Lusa, a produção nacional corresponde a menos de 0,5% da produção global, num sector dominado por grandes produtores como Estados Unidos, China e Índia.
Ainda assim, a área cultivada registou uma ligeira expansão, passando de 95.097 hectares em 2023 para 96.523 hectares em 2024, sinalizando algum optimismo por parte dos produtores relativamente às perspectivas futuras da cultura.
A conjugação entre melhores preços, recuperação das exportações e políticas de apoio à produção poderá determinar se o sector conseguirá transformar os sinais positivos observados no primeiro trimestre numa trajectória sustentável de crescimento nos próximos anos.
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