
Nova Corrida Aos Minerais Pode Redefinir Economias Africanas, Mas Banco Mundial Alerta Para Armadilha Da Exportação Simples
Procura mundial por minerais críticos poderá duplicar até 2040, mas instituição defende que os maiores ganhos ficarão com os países capazes de transformar recursos naturais em emprego, indústria, infra-estruturas e cadeias de valor locais.
- Procura global por minerais poderá duplicar até 2040;
- Banco Mundial pretende multiplicar por cinco o apoio ao sector dos metais e minerais nos próximos cinco anos;
- Instituição defende que a criação de valor local deve substituir modelos centrados exclusivamente na exportação de matérias-primas;
- Zâmbia, Mauritânia, Malawi e Bolívia tornam-se os primeiros países a beneficiar dos novos “Minerals Compacts”;
- Moçambique reúne condições para beneficiar da nova geopolítica dos minerais críticos, mas enfrenta o desafio da industrialização.
A crescente procura global por minerais críticos está a desencadear uma transformação silenciosa, mas profunda, na economia mundial. Impulsionada pela expansão das energias renováveis, veículos eléctricos, centros de dados, inteligência artificial, urbanização acelerada e necessidades crescentes de electrificação, a procura mundial por minerais poderá duplicar até 2040, segundo o Banco Mundial. Contudo, a instituição alerta que a verdadeira oportunidade para os países ricos em recursos naturais não reside apenas na extracção mineral, mas na capacidade de transformar essa riqueza em emprego, industrialização e crescimento económico sustentável.
A mensagem representa uma mudança significativa na forma como as instituições multilaterais encaram o papel dos recursos naturais no desenvolvimento económico. Durante décadas, o principal objectivo foi aumentar a produção e as exportações. Hoje, a preocupação desloca-se para uma questão mais ambiciosa: quem ficará com o valor acrescentado da transição energética global?
O Fim Do Modelo Extractivo Tradicional
O Banco Mundial sustenta que a abundância de recursos naturais, por si só, não garante prosperidade. A história económica está repleta de exemplos de países ricos em recursos que permaneceram vulneráveis à volatilidade dos mercados internacionais, à dependência das exportações de matérias-primas e à limitada diversificação económica.
Segundo a instituição, o desafio actual consiste em assegurar que os projectos mineiros gerem benefícios para além da exportação. Isso implica desenvolver competências locais, fortalecer fornecedores nacionais, criar cadeias industriais, aumentar a arrecadação fiscal e promover investimentos que deixem capacidades produtivas permanentes nas economias anfitriãs.
A lógica é simples: a verdadeira riqueza não resulta apenas da extracção do recurso, mas daquilo que se constrói à sua volta.
Da Mina À Fábrica: A Nova Agenda Do Desenvolvimento
O exemplo apresentado pelo Banco Mundial na Argentina ilustra esta mudança de paradigma.
O Projecto de Lítio de Rincón, apoiado pela International Finance Corporation (IFC), deverá empregar cerca de 4.200 trabalhadores durante a fase de construção, sendo que pelo menos 70% deverão ser contratados localmente. A iniciativa procura assegurar que o investimento mineiro gere emprego e rendimento desde as fases iniciais do projecto.
Ainda mais expressivo é o caso da mina de cobre de Oyu Tolgoi, na Mongólia. O empreendimento emprega aproximadamente 20 mil pessoas, das quais 97% são nacionais. Em 2025, adquiriu 87% dos seus bens e serviços a 770 empresas mongóis, fortalecendo fornecedores locais e contribuindo para o desenvolvimento de uma rede empresarial associada à actividade mineira. Desde 2010, o projecto já contribuiu com cerca de 4 mil milhões de dólares em impostos, taxas e outras contribuições para o orçamento do Estado mongol.
Para o Banco Mundial, estes exemplos demonstram que os minerais podem gerar muito mais do que exportações: podem financiar estradas, escolas, infra-estruturas, programas de formação e novas oportunidades económicas.
Zâmbia Quer Mais Do Que Produzir Cobre
A experiência da Zâmbia constitui talvez o exemplo mais relevante para os países africanos.
O Governo zambiano estabeleceu como meta atingir uma produção anual de três milhões de toneladas de cobre até 2031. No entanto, o objectivo estratégico não é apenas aumentar a extracção. O país procura desenvolver uma base industrial associada ao cobre, incluindo a produção de fios, cabos, transformadores e outros equipamentos eléctricos.
Segundo o Banco Mundial, grande parte da criação de emprego e da geração de valor acrescentado ocorrerá precisamente nestas actividades industriais e nos fornecedores locais que delas dependem.
A mensagem é clara: a competição internacional não será apenas por quem possui os recursos, mas por quem consegue transformá-los em produtos, serviços e capacidades industriais.
Mauritânia Mostra O Caminho Da Integração Entre Minerais E Energia
Outro caso particularmente interessante é o da Mauritânia.
Através do projecto DREAM, apoiado pelo Banco Mundial, o país está a utilizar a sua base mineral e o seu vasto potencial de energias renováveis para desenvolver novas indústrias ligadas ao hidrogénio verde e ao armazenamento de energia. O programa inclui reformas regulatórias, investimentos em infra-estruturas energéticas e desenvolvimento de competências técnicas e institucionais.
Segundo o Banco Mundial, a Mauritânia possui potencial para produzir até 12 milhões de toneladas anuais de hidrogénio verde, posicionando-se como um futuro centro regional desta nova indústria.
O caso demonstra que os países ricos em recursos podem construir ecossistemas económicos integrados, ligando mineração, energia, indústria e inovação.
Banco Mundial Multiplica Aposta Nos Minerais
A relevância atribuída a este sector é demonstrada pelos compromissos assumidos pela própria instituição.
O Banco Mundial anunciou a intenção de multiplicar por cinco o apoio aos sectores dos metais e minerais ao longo dos próximos cinco anos. Entre as iniciativas já lançadas destaca-se a criação dos primeiros “Minerals Compacts”, mecanismos que alinham reformas políticas, infra-estruturas e investimento privado em torno das prioridades nacionais dos países beneficiários. Os primeiros acordos foram estabelecidos com a Bolívia, Malawi, Mauritânia e Zâmbia.
Paralelamente, a IFC ajudou a mobilizar 1,2 mil milhões de dólares para o Projecto de Lítio de Rincón, enquanto novas plataformas de co-investimento procuram mobilizar até mil milhões de dólares para projectos mineiros de pequena e média dimensão até 2027.
O Que Significa Esta Tendência Para Moçambique?
Para Moçambique, esta nova abordagem assume particular relevância.
O país possui importantes reservas de grafite, areias pesadas, titânio, tântalo, carvão mineral e gás natural, além de um dos maiores potenciais energéticos da região. Muitos destes recursos são considerados estratégicos para a transição energética global e para as cadeias de valor associadas às baterias, armazenamento de energia e tecnologias limpas.
No entanto, a experiência internacional sugere que a verdadeira oportunidade não está apenas na exportação destes recursos.
A questão central para Moçambique será saber se conseguirá desenvolver infra-estruturas, competências, indústrias transformadoras e políticas públicas capazes de criar valor local. Em outras palavras, se conseguirá utilizar os minerais críticos para impulsionar uma nova fase de industrialização e diversificação económica.
A nova corrida aos minerais críticos poderá representar uma oportunidade histórica para África. Mas, como alerta o Banco Mundial, os maiores vencedores não serão necessariamente os países que possuam mais recursos no subsolo. Serão aqueles que conseguirem transformar esses recursos em fábricas, empregos, inovação, exportações de maior valor acrescentado e prosperidade duradoura para as suas populações.
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