
Madagascar Mostra Como Minerais Críticos Podem Impulsionar Industrialização E Criação De Emprego
- Novo relatório da UNCTAD conclui que a agregação de valor, a diversificação produtiva e o fortalecimento das ligações entre mineração e indústria poderão criar cerca de 20 mil empregos e transformar a estrutura económica do país. As conclusões oferecem importantes lições para economias africanas ricas em recursos naturais, incluindo Moçambique.
- UNCTAD identifica potencial para criação de cerca de 20 mil empregos directos e indirectos em Madagascar;
- Relatório aponta 124 produtos prioritários distribuídos por oito sectores económicos;
- Mais de metade dos empregos previstos poderão ser ocupados por mulheres;
- Diversificação produtiva vai muito além da cadeia dos minerais críticos;
- Mercados da SADC surgem como plataforma estratégica para industrialização e expansão das exportações.
Num momento em que a procura global por minerais críticos continua a acelerar impulsionada pela transição energética, mobilidade eléctrica e digitalização da economia mundial, a questão central para muitos países africanos deixou de ser apenas como extrair recursos, passando a ser como transformar esses recursos em emprego, indústria e desenvolvimento económico sustentável.
É precisamente esta a principal conclusão de um novo relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que analisa o potencial de Madagascar para utilizar os seus vastos recursos minerais como catalisadores de uma transformação produtiva mais ampla. O estudo conclui que o país poderá criar aproximadamente 20 mil empregos directos e indirectos através da agregação de valor aos minerais críticos e da diversificação da sua base industrial.
Embora centrado em Madagascar, o relatório aborda uma questão que assume crescente relevância para todo o continente africano: a necessidade de evitar que a procura global por minerais estratégicos se traduza apenas em maiores exportações de matérias-primas, sem impactos significativos na industrialização doméstica.
A Riqueza Mineral Não Garante Desenvolvimento
Madagascar é actualmente um importante produtor de minerais estratégicos utilizados na transição energética global, incluindo níquel, cobalto, grafite e ilmenite.
Contudo, segundo a UNCTAD, grande parte do valor económico gerado por estes recursos continua a ser capturado fora do país, uma vez que as exportações permanecem concentradas nas fases iniciais da cadeia extractiva, com reduzido processamento local e fracas ligações ao restante tecido económico.
O diagnóstico não é exclusivo de Madagascar. Trata-se de uma realidade partilhada por numerosos países africanos ricos em recursos naturais, onde a exportação de matérias-primas continua a representar a principal forma de inserção nos mercados internacionais.
Para Pedro Manuel Moreno, Secretário-Geral Interino da UNCTAD, os minerais críticos devem ser encarados apenas como ponto de partida.
Segundo afirmou durante o lançamento do relatório, a verdadeira oportunidade reside na criação de actividades de processamento local, serviços industriais, redes de fornecedores e novas actividades produtivas capazes de multiplicar os benefícios económicos dos recursos naturais.
Diversificação Vai Muito Além Da Mineração
Uma das conclusões mais relevantes do estudo é que as melhores oportunidades de desenvolvimento económico não se encontram necessariamente dentro da própria cadeia dos minerais críticos.
A análise identificou 124 produtos prioritários distribuídos por oito sectores económicos, com potencial para impulsionar o investimento, a industrialização e a criação de emprego.
Curiosamente, a maior parte destas oportunidades localiza-se fora da cadeia extractiva tradicional.
Dos 259 produtos analisados pela UNCTAD, apenas 39 estão directamente relacionados com a cadeia de valor dos minerais críticos, enquanto 220 se encontram em sectores mais amplos da economia, incluindo químicos, plásticos, maquinaria, equipamentos eléctricos, papel, têxteis e processamento alimentar.
Esta conclusão reforça uma ideia cada vez mais presente nos debates sobre desenvolvimento económico: os recursos naturais geram maiores benefícios quando funcionam como alavancas para actividades industriais diversificadas e não como um fim em si mesmos.
Quase 20 Mil Empregos E Forte Participação Feminina
O impacto potencial sobre o mercado de trabalho é significativo.
Segundo a UNCTAD, a implementação das oportunidades identificadas poderá gerar aproximadamente 19.696 empregos directos e indirectos em Madagascar.
O sector dos têxteis e vestuário surge como a principal fonte potencial de emprego, com mais de 8.500 postos de trabalho, seguido pelo processamento alimentar, considerado igualmente estratégico para o fortalecimento das economias rurais e para a agregação de valor local.
Um dos aspectos mais relevantes do estudo prende-se com a dimensão inclusiva do processo de transformação económica. As mulheres representam actualmente cerca de 52% do emprego directo nos sectores prioritários identificados, sobretudo nas indústrias têxtil e alimentar.
Para a UNCTAD, a industrialização baseada na diversificação produtiva poderá, assim, contribuir simultaneamente para o crescimento económico e para uma maior inclusão social.
SADC Surge Como Plataforma De Expansão
O relatório atribui igualmente grande importância aos mercados regionais.
Segundo a análise, os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) oferecem oportunidades relevantes para a expansão das exportações malgaxes e para o fortalecimento das capacidades produtivas nacionais.
A África do Sul aparece como o principal mercado regional potencial, representando cerca de 24,3% das oportunidades identificadas, seguida pelo Malawi (18,2%), República Democrática do Congo (15,7%), Zâmbia (10,9%) e Tanzânia (7%). Moçambique surge igualmente entre os mercados relevantes, representando cerca de 6,5% das oportunidades comerciais identificadas pela UNCTAD.
A instituição defende que a integração regional pode funcionar como uma plataforma intermédia para o desenvolvimento industrial, permitindo que as empresas ganhem escala, experiência e competitividade antes de expandirem a sua presença nos mercados globais.
Lições Para Moçambique E Para África
As conclusões do relatório assumem particular relevância para países como Moçambique, que possuem importantes reservas de gás natural, grafite, areias pesadas e outros minerais estratégicos associados à transição energética.
O debate sobre conteúdo local, industrialização, desenvolvimento de fornecedores nacionais e agregação de valor ganha uma nova dimensão à luz dos resultados apresentados pela UNCTAD.
A principal mensagem é clara: a riqueza mineral gera os maiores benefícios económicos quando é utilizada para desenvolver capacidades produtivas, promover ligações entre sectores, criar empregos qualificados e estimular actividades industriais complementares.
Num contexto de crescente procura global por minerais críticos, a experiência de Madagascar sugere que o verdadeiro valor dos recursos naturais não reside apenas na sua extracção, mas sobretudo na capacidade de transformá-los em plataformas de industrialização, diversificação económica e desenvolvimento sustentável.
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