China Está A Conter A Escalada Do Petróleo, Mas Analistas Alertam Que O Alívio Pode Ser Temporário

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  • Redução acentuada das importações chinesas de crude ajudou a evitar uma disparada dos preços para níveis históricos durante a crise no Médio Oriente. Contudo, bancos e consultoras internacionais alertam que a reposição dos stocks globais poderá exigir preços significativamente mais elevados nos próximos meses.
Questões-Chave:
  • China reduziu as importações de crude de 11,7 para menos de 9 milhões de barris por dia entre Fevereiro e Maio;
  • Analistas estimam que Pequim foi responsável por cerca de 74% do ajustamento global da procura durante a crise;
  • Apesar da perda de 14% da oferta mundial de petróleo, o Brent permanece abaixo dos 100 dólares por barril;
  • Societe Generale e Capital Economics alertam para o risco de preços entre 130 e 150 dólares por barril em cenários adversos;
  • Reposição dos stocks estratégicos poderá criar novas pressões sobre os mercados energéticos.

A surpreendente resiliência dos mercados petrolíferos perante a mais grave perturbação da oferta energética das últimas décadas tem uma explicação cada vez mais clara: a China.

Segundo análises divulgadas por instituições financeiras internacionais e citadas pela CNBC, a forte redução das importações chinesas de petróleo desde o início do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão desempenhou um papel determinante para evitar uma escalada ainda mais pronunciada dos preços internacionais do crude.

A constatação surge num momento em que a guerra no Médio Oriente ultrapassa os cem dias, afectando profundamente os fluxos energéticos globais e provocando uma redução estimada de 14% na oferta mundial de petróleo.

Ainda assim, contrariando muitas previsões iniciais, o Brent continua a negociar abaixo da barreira psicológica dos 100 dólares por barril.

Pequim Tornou-Se O Principal Amortecedor Do Mercado

Segundo estimativas do J.P. Morgan citadas pela CNBC, as importações chinesas de crude caíram de aproximadamente 11,7 milhões de barris por dia em Fevereiro para menos de 9 milhões de barris por dia no final de Maio.

Esta redução representa quase três milhões de barris diários e corresponde, segundo os analistas do banco norte-americano, a cerca de 74% do ajustamento observado nas importações globais de petróleo durante o período.

Na prática, a menor procura chinesa funcionou como uma válvula de alívio para os mercados internacionais, compensando parte significativa da redução da oferta provocada pelas perturbações no Estreito de Ormuz.

A importância deste fenómeno é tal que analistas do banco francês Societe Generale consideram que a redução das compras chinesas teve um impacto superior ao das libertações coordenadas de reservas estratégicas realizadas pelos Estados Unidos, Europa e Japão.

Porque É Que A China Está A Consumir Menos Petróleo?

A resposta não se limita a factores conjunturais.

Segundo Rory Green, responsável pela área de mercados emergentes da GlobalData TS Lombard, citado pela CNBC, a China tem acelerado nos últimos anos a electrificação dos transportes, da indústria e da produção energética, reduzindo gradualmente a dependência do petróleo.

O crescimento dos veículos eléctricos, dos sistemas ferroviários electrificados e da capacidade de geração renovável está a alterar estruturalmente o perfil energético da segunda maior economia do mundo.

Paralelamente, Pequim dispõe de volumosas reservas estratégicas de crude acumuladas ao longo dos últimos anos, permitindo absorver parte dos choques externos sem necessidade de recorrer imediatamente aos mercados internacionais.

Esta combinação entre menor consumo estrutural e utilização de stocks acumulados contribuiu decisivamente para conter as pressões sobre os preços globais.

O Alívio Actual Pode Ser Enganador

Apesar da relativa estabilidade observada até agora, várias instituições financeiras alertam que os fundamentos do mercado continuam a apontar para um cenário de preços mais elevados.

Analistas do Societe Generale argumentam que o actual equilíbrio é artificial e dificilmente sustentável no médio prazo. Segundo o banco francês, à medida que os inventários globais diminuem e os países começam a reconstruir as suas reservas estratégicas, será inevitável uma maior pressão sobre os preços do petróleo.

Os especialistas recordam que uma perda de 14% da oferta mundial normalmente produziria um choque muito mais severo.

Para efeito de comparação, durante o embargo petrolífero da OPEP em 1973, a redução da oferta foi de cerca de 7%, mas os preços dispararam mais de 130%.

Actualmente, apesar de uma quebra proporcionalmente maior na oferta, os preços registaram uma valorização próxima de 30%, reflectindo a influência de factores mitigadores como a resposta chinesa, o aumento da produção em alguns países e a utilização de reservas estratégicas.

Cenários De 150 Dólares Voltam A Entrar No Radar

Os riscos tornam-se ainda mais evidentes quando se analisam os cenários extremos elaborados por instituições de referência.

Num estudo divulgado pela Reuters, a Capital Economics admite que o Brent poderá atingir ou mesmo ultrapassar os 150 dólares por barril caso o conflito se intensifique e o bloqueio do Estreito de Ormuz persista por um período prolongado.

A consultora estima que, num cenário particularmente adverso, os preços possam permanecer próximos desse nível até ao final de 2027.

A instituição alerta igualmente que, caso os inventários dos países da OCDE continuem a diminuir ao ritmo observado nos últimos meses, os stocks poderão atingir níveis criticamente baixos ainda este ano, aumentando significativamente a vulnerabilidade dos mercados.

O Que Está Em Jogo Para A Economia Mundial

As implicações vão muito além do sector energético.

Segundo a Capital Economics, um petróleo sustentadamente acima dos 150 dólares poderia acrescentar cerca de 2,5 pontos percentuais à inflação das economias avançadas, comprometendo os esforços dos bancos centrais para controlar os preços e normalizar as políticas monetárias.

Além disso, custos energéticos mais elevados afectariam transportes, indústria, agricultura e cadeias globais de abastecimento, aumentando o risco de desaceleração económica em várias regiões do mundo.

Para economias importadoras líquidas de combustíveis, como Moçambique, um novo ciclo de valorização do petróleo poderia traduzir-se em maiores pressões sobre a factura de importação, os preços internos dos combustíveis, os custos de produção e a inflação.

A China Está A Ganhar Tempo Ao Mundo

O comportamento da China demonstra como as transformações estruturais na matriz energética podem influenciar os mercados globais de commodities.

Ao reduzir a sua dependência do petróleo e ao recorrer às reservas acumuladas, Pequim ajudou a evitar que a actual crise energética assumisse proporções semelhantes às observadas em anteriores choques petrolíferos.

Contudo, os analistas convergem numa conclusão: a actual estabilidade poderá não durar indefinidamente.

À medida que os stocks globais forem diminuindo e que a procura voltar a crescer, os mercados poderão ser obrigados a ajustar-se através de preços mais elevados. E, nesse cenário, a questão deixará de ser se o petróleo voltará a subir, passando a ser até onde poderá chegar.