José Furtado Assume Comissão Executiva Do BCI Num Novo Ciclo De Governação

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Banco de Moçambique aprovou os novos órgãos sociais da instituição, mantendo Carlos Agostinho do Rosário na presidência não-executiva do Conselho de Administração. A renovação da liderança executiva ocorre após um exercício de 2025 marcado pelo crescimento da actividade bancária, mas também por uma redução expressiva dos resultados líquidos, penalizados pelo reforço de imparidades e por custos extraordinários.

Questões-Chave

  • José Furtado assume a presidência da Comissão Executiva do BCI, regressando a uma instituição onde integrou a equipa de gestão entre 2013 e 2020.
  • Carlos Agostinho do Rosário mantém-se como Presidente não-executivo do Conselho de Administração, enquanto Francisco Costa transita para Vice-Presidente não-executivo.
  • O BCI encerrou 2025 com um resultado líquido de 3,6 mil milhões de meticais, menos 40,3% face ao exercício anterior.
  • Apesar da redução dos lucros, o produto bancário cresceu 4,2%, os depósitos aumentaram 4,5% e o banco preservou a liderança em activos, crédito e depósitos no sistema financeiro nacional.
  • A nova Comissão Executiva assume num contexto em que a qualidade da carteira de crédito, a gestão de riscos e a rentabilidade serão determinantes para a consolidação do próximo ciclo estratégico.

O Banco Comercial e de Investimentos inicia um novo ciclo de governação, após a aprovação, pelo Banco de Moçambique, da composição dos seus novos órgãos sociais. A mudança confirma a continuidade de Carlos Agostinho do Rosário como Presidente não-executivo do Conselho de Administração e estabelece uma nova liderança para a gestão executiva do banco, que passa a ser presidida por José Furtado.

A transição ocorre num momento particularmente relevante para uma instituição que mantém um peso determinante no sistema financeiro moçambicano, tanto pela dimensão da sua base de clientes e rede comercial como pelas quotas de mercado que detém em activos, depósitos e crédito. Ao mesmo tempo, a nova liderança assume após um exercício de 2025 que evidenciou resiliência operacional, mas também maior pressão sobre os resultados líquidos e sobre os indicadores de risco.

Continuidade No Conselho E Renovação Na Gestão

O novo modelo de governação preserva elementos de continuidade no topo da estrutura institucional do banco. Carlos Agostinho do Rosário continuará a exercer as funções de Presidente não-executivo do Conselho de Administração, mantendo a responsabilidade pela orientação estratégica e pela supervisão da actividade da instituição.

Francisco Costa, até aqui Presidente da Comissão Executiva, passa a integrar o Conselho de Administração como Vice-Presidente não-executivo. A alteração permite preservar conhecimento institucional e assegurar uma transição mais estável entre o ciclo de liderança cessante e a nova equipa executiva.

A Comissão Executiva será liderada por José Furtado e integra Raúl António Correia Saraiva de Almeida, George Lenon Ibraimo Mandawa, Farhana Tayob Suleman Razak, Fátima Augusto da Conceição, Nuno Miguel Braga Pargana e Pedro Miguel Nunes Ventaneira.

A composição combina continuidade de quadros ligados à instituição com uma liderança executiva que regressa ao banco num momento em que a gestão de risco, a eficiência e a capacidade de financiar a economia voltam a estar no centro das prioridades do sector bancário.

José Furtado Regressa Com Conhecimento Da Instituição

José Furtado regressa ao BCI depois de ter integrado a equipa de gestão do banco entre 2013 e 2020. A experiência anterior confere-lhe conhecimento directo sobre a cultura organizacional, a estrutura operacional, os segmentos de clientes e os principais desafios associados à actividade bancária em Moçambique.

Com mais de três décadas de experiência em posições de liderança no sector financeiro, em grupos empresariais, instituições públicas, escolas de gestão e organizações internacionais, o novo Presidente da Comissão Executiva traz igualmente uma trajectória profissional construída entre Moçambique, Portugal, Estados Unidos e Inglaterra.

No anúncio da sua nomeação, José Furtado sublinhou a confiança que o BCI construiu ao longo da sua história, sustentada na solidez financeira, na qualidade dos seus recursos humanos e na proximidade junto das comunidades. A nova liderança deverá, por isso, procurar equilibrar a preservação desse património institucional com a necessidade de reforçar a modernização, eficiência e competitividade do banco.

Actividade Cresce, Mas Lucros Recuam Em 2025

O exercício económico-financeiro de 2025 apresentou uma leitura mista. Por um lado, o BCI registou crescimento em várias linhas estruturantes da sua actividade. Por outro, o resultado líquido foi pressionado pelo reforço de imparidades, sobretudo associadas à exposição à dívida pública, e por custos extraordinários relacionados com processos de devolução de comissões.

O produto bancário cresceu 4,2%, para cerca de 22,4 mil milhões de meticais, impulsionado sobretudo pelo aumento de 7,1% da margem financeira, que atingiu aproximadamente 17,6 mil milhões de meticais. A evolução reflecte uma gestão mais eficiente do custo dos recursos, num período em que a taxa MIMO foi sendo reduzida e as reservas obrigatórias sofreram ajustamentos.

O banco conseguiu igualmente melhorar a eficiência operacional. Os custos operacionais permaneceram praticamente estáveis, em torno de 9,9 mil milhões de meticais, enquanto o rácio cost-to-income baixou de 46,2% em 2024 para 44,3% em 2025. Este movimento revela ganhos de racionalização de custos e de eficiência na utilização dos recursos disponíveis.

Apesar desta evolução favorável na actividade principal, o resultado líquido caiu 40,3%, para 3,6 mil milhões de meticais, contra cerca de 6 mil milhões de meticais registados em 2024. O impacto esteve ligado ao aumento de 121,3% das imparidades e provisões do exercício, que ultrapassaram 9,4 mil milhões de meticais.

O próprio banco reconhece que a redução do resultado foi influenciada pelo reforço das imparidades relacionadas com exposições à dívida pública, num contexto de agravamento do risco soberano, bem como por custos extraordinários associados a processos de devolução de comissões. Ainda assim, a instituição mantém que a actividade bancária principal apresentou uma evolução positiva ao longo do ano.

Depósitos Sobem, Crédito Recua E Risco Merece Atenção

Em termos de balanço, o activo total do BCI aumentou 4%, para cerca de 240,5 mil milhões de meticais. Os recursos de clientes cresceram 4,5%, atingindo aproximadamente 191,7 mil milhões de meticais, confirmando a capacidade do banco em preservar a confiança dos depositantes e reforçar a sua base de financiamento.

Já o crédito bruto a clientes registou uma redução de 7,6%, descendo para 72,3 mil milhões de meticais. A contracção da carteira de crédito ocorre num ambiente económico em que empresas e famílias continuam a enfrentar custos elevados de financiamento, maior selectividade bancária e riscos acrescidos em determinados sectores de actividade.

A evolução da qualidade do crédito será uma das áreas mais sensíveis para a nova Comissão Executiva. O rácio de crédito em incumprimento, calculado segundo a metodologia do Banco de Moçambique, subiu para 14,2%, acima dos 11% registados no exercício anterior. O indicador reflecte a necessidade de uma gestão mais rigorosa da carteira, de reforço da recuperação de crédito e de maior selectividade na originação de novos financiamentos.

Ainda assim, os indicadores de solvabilidade mantiveram-se robustos. Os fundos próprios aumentaram para cerca de 31,5 mil milhões de meticais e o rácio de solvabilidade situou-se em 31,4%, acima do nível observado em 2024. Esta base de capital oferece ao banco capacidade para absorver riscos e sustentar a actividade, num contexto em que a prudência continuará a ser essencial.

Liderança Mantida No Sistema Financeiro

O BCI fechou 2025 mantendo a liderança no sistema bancário nacional. As suas quotas de mercado situaram-se em 24,3% nos depósitos, 24,6% no crédito e 22% nos activos, consolidando a posição da instituição entre os principais pilares da intermediação financeira em Moçambique.

O banco servia cerca de 2,5 milhões de clientes em todo o país, através de uma rede de 211 unidades de negócio, 505 caixas automáticas e mais de 9.600 terminais de pagamento. A dimensão da presença física e digital reforça o papel do BCI na inclusão financeira, no acesso aos serviços bancários e no apoio às empresas e famílias.

A instituição tem igualmente vindo a investir na transformação digital, com expansão dos canais electrónicos, evolução da aplicação e-Daki, simplificação de processos de atendimento e reforço das soluções de auto-serviço. Esta aposta será decisiva para melhorar a experiência do cliente, reduzir custos operacionais e ampliar o alcance da actividade bancária para além das agências tradicionais.

Agenda Exigente Para A Nova Comissão Executiva

A entrada em funções da nova Comissão Executiva abre espaço para uma fase de aprofundamento da estratégia do BCI, numa conjuntura marcada por desafios macroeconómicos, maior prudência no crédito e exigências reforçadas de eficiência, inovação e controlo de riscos.

A prioridade imediata será consolidar a rentabilidade sem comprometer a qualidade do balanço. Isso exigirá uma gestão rigorosa das exposições de risco, reforço da recuperação de crédito, diversificação da carteira de financiamento e uma avaliação mais selectiva das novas operações.

Ao mesmo tempo, a nova liderança terá de assegurar que o crescimento dos depósitos e a expansão dos canais digitais se traduzam em maior capacidade de intermediação financeira, apoio às pequenas e médias empresas, financiamento de cadeias de valor e participação em sectores estratégicos da economia.

A combinação entre continuidade no Conselho de Administração e renovação da Comissão Executiva cria, assim, condições para que o BCI enfrente o próximo ciclo com estabilidade institucional. O desafio será converter essa estabilidade em maior criação de valor, preservando a confiança dos clientes, a solidez financeira e o papel do banco no desenvolvimento económico de Moçambique.