BCI Lucra 3,34 Mil Milhões De Meticais, Mas Crédito A Clientes Recua 5,5%

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  • Resultado líquido diminuiu 9,7% no primeiro semestre, afectado pela redução dos rendimentos operacionais, aumento das imparidades e menor eficiência; banco mantém depósitos superiores a 193 mil milhões de meticais e rácio de solvabilidade de cerca de 31,4%, mais do dobro do mínimo regulamentar
Questões-Chave:
  • O Grupo BCI obteve um lucro líquido de 3,34 mil milhões de meticais no primeiro semestre de 2026, menos 9,7% do que no período homólogo;
  • O resultado antes de impostos caiu 20,6%, para 4,24 mil milhões de meticais;
  • Os juros recebidos diminuíram 15,1%, mas a redução de 45,6% nos encargos financeiros limitou a queda da margem financeira estrita a 3,5%;
  • O crédito líquido a clientes recuou 5,5%, para 61,1 mil milhões de meticais, enquanto os depósitos cresceram 0,8%, para 193,18 mil milhões;
  • O rácio entre crédito líquido e depósitos diminuiu de 33,7% para 31,6%, segundo cálculos do O.Económico;
  • Os custos de imparidade sobre crédito e outros activos financeiros aumentaram 33,8%, para 1,32 mil milhões de meticais;
  • O crédito e juros vencidos diminuíram de 13,47 mil milhões para 11,82 mil milhões, embora as operações com mais de três anos de atraso tenham aumentado;
  • Cerca de 63,8% da carteira sectorial bruta estava associada a particulares, enquanto agricultura e pescas representavam apenas 0,3%;
  • Caixa, aplicações interbancárias e activos financeiros representavam aproximadamente 66,9% do activo total;
  • O rácio de solvabilidade manteve-se em cerca de 31,4%, comparativamente ao mínimo regulamentar de 15%.

O Banco Comercial e de Investimentos encerrou o primeiro semestre de 2026 com um lucro líquido consolidado de 3,34 mil milhões de meticais, abaixo dos 3,70 mil milhões alcançados no período homólogo de 2025.

A redução de 9,7% não altera a capacidade do banco para gerar resultados positivos, mas revela uma combinação menos favorável entre receitas, custos, qualidade do crédito e eficiência operacional.

O resultado antes de impostos caiu de 5,34 mil milhões para 4,24 mil milhões de meticais, correspondendo a uma contracção de 20,6%. A diferença entre a evolução do resultado antes e depois de impostos deve-se, em parte, à diminuição da carga fiscal contabilizada no período.

O imposto sobre o rendimento recuou 45,4%, de 1,64 mil milhões para 895,7 milhões de meticais. Assim, a redução do imposto absorveu uma parte da deterioração registada ao nível operacional e permitiu que o lucro líquido apresentasse uma descida menos acentuada.

Menor Custo Dos Depósitos Amortece A Queda Dos Juros Recebidos

Os juros e rendimentos similares diminuíram 15,1%, de 12,23 mil milhões para 10,39 mil milhões de meticais.

A principal fonte de rendimentos continuou a ser o crédito a clientes, que gerou aproximadamente 5,8 mil milhões de meticais em juros. Este valor ficou, contudo, abaixo dos 6,69 mil milhões registados no primeiro semestre de 2025.

Os rendimentos provenientes de aplicações em instituições de crédito também diminuíram, de 1,85 mil milhões para 1,68 mil milhões de meticais.

Em sentido contrário, os juros obtidos através de activos financeiros — incluindo títulos — aumentaram de 2,73 mil milhões para 3,86 mil milhões de meticais, uma expansão de cerca de 41,1%.

A evolução mostra uma alteração importante na origem da receita financeira: o BCI obteve menos juros directamente relacionados com o crédito concedido aos clientes, mas aumentou os rendimentos provenientes de títulos e outros activos financeiros.

A queda das receitas foi parcialmente compensada pela forte redução do custo de financiamento. Os juros e encargos similares diminuíram 45,6%, de 3,36 mil milhões para 1,83 mil milhões de meticais.

Os juros pagos sobre depósitos de clientes caíram de 3,15 mil milhões para 1,69 mil milhões de meticais. Esta redução permitiu que a margem financeira estrita diminuísse apenas 3,5%, para 8,56 mil milhões, apesar da contracção mais expressiva dos rendimentos brutos.

O desempenho demonstra a importância da estrutura de remuneração dos depósitos para a rentabilidade bancária. Quando o custo pago aos depositantes diminui mais rapidamente do que os juros cobrados aos mutuários e obtidos nos títulos, o banco consegue preservar uma parte maior da margem.

Receitas Operacionais Diminuem Apesar Dos Ganhos Cambiais

Os resultados operacionais consolidados diminuíram 7,1%, passando de 11,28 mil milhões para 10,48 mil milhões de meticais.

Os rendimentos brutos de taxas e comissões aumentaram ligeiramente, em 1,5%, para 1,49 mil milhões de meticais. Contudo, os gastos associados subiram 9,5%, para 705,5 milhões.

Como resultado, as comissões líquidas recuaram aproximadamente 4,7%, para cerca de 779,9 milhões de meticais.

A banca electrónica manteve-se como uma das maiores fontes de comissões, gerando 744,4 milhões de meticais. As comissões da banca de investimentos contribuíram com 401,4 milhões, enquanto as garantias prestadas geraram 168,8 milhões.

Os resultados líquidos em operações financeiras aumentaram 4,2%, para 1,31 mil milhões de meticais, suportados principalmente pelas operações cambiais.

Os ganhos cambiais brutos atingiram 82,22 mil milhões de meticais, mas foram quase integralmente compensados por perdas de 81,01 mil milhões. Esta estrutura mostra que os valores brutos movimentados no mercado cambial são elevados, mas a margem líquida efectiva representa apenas uma pequena fracção do volume total.

A maior deterioração ocorreu nos outros resultados de exploração, que passaram de um ganho de 321,6 milhões para uma perda de 176 milhões de meticais.

A variação negativa, próxima de 497,6 milhões de meticais, retirou parte do benefício obtido através das operações financeiras e da redução dos encargos com juros.

Custos Com Pessoal Aumentam E Eficiência Recua

Os gastos com pessoal cresceram 5,9%, de 2,83 mil milhões para aproximadamente três mil milhões de meticais.

A evolução ocorreu num período em que o número médio de trabalhadores aumentou de 2.666 para 2.757. No final de Junho, o banco contava com 2.767 trabalhadores, contra 2.683 no período homólogo.

As remunerações dos empregados diminuíram, mas os custos atribuídos aos órgãos de gestão e fiscalização aumentaram de 112,2 milhões para 138,6 milhões de meticais.

Os outros gastos administrativos apresentaram uma ligeira redução de 1,1%, para 1,77 mil milhões. Houve, porém, aumentos em rubricas como informática, consultoria, comunicações, conservação e reparação, segurança e transferência de fundos.

As depreciações e amortizações cresceram 7,9%, para 428,3 milhões de meticais.

Considerando gastos com pessoal, despesas administrativas e depreciações, os custos operacionais representaram aproximadamente 49,5% dos resultados operacionais, segundo cálculos do O.Económico. No primeiro semestre de 2025, esta relação situava-se em cerca de 44,4%.

O aumento do indicador sugere menor eficiência: o banco precisou de consumir uma proporção maior das suas receitas para suportar a estrutura operacional.

Esta evolução não resulta apenas do crescimento das despesas. Reflecte também a redução de 7,1% dos rendimentos operacionais, o que aumenta o peso relativo dos custos mesmo quando determinadas rubricas permanecem estáveis.

Imparidades Aumentam 33,8%

A imparidade líquida sobre crédito a clientes e outros activos financeiros aumentou de 988,3 milhões para 1,32 mil milhões de meticais.

O crescimento de 33,8% constitui um dos principais factores da redução do resultado antes de impostos.

Durante o semestre, o BCI constituiu ou reforçou 5,22 mil milhões de meticais em imparidades de crédito. Ao mesmo tempo, realizou reversões de 4,75 mil milhões, utilizou 383,9 milhões e registou ajustamentos de 137 milhões.

O stock de imparidade associado ao crédito a clientes aumentou de 7,56 mil milhões, em Dezembro, para 7,78 mil milhões de meticais em Junho.

O banco recuperou ainda 212,3 milhões de meticais relativos a operações de crédito que já tinham sido abatidas ao activo. O valor foi reconhecido como reversão de imparidade.

A recuperação de operações anteriormente consideradas incobráveis constitui um contributo positivo, mas ficou abaixo dos 350 milhões recuperados no período homólogo.

A redução das recuperações, conjugada com o aumento das imparidades líquidas, mostra que o risco de crédito continuou a consumir uma parcela relevante dos resultados gerados pela actividade bancária.

Crédito Vencido Diminui, Mas Incumprimentos Antigos Aumentam

O crédito e juros vencidos diminuíram de 13,47 mil milhões de meticais, em Dezembro de 2025, para 11,82 mil milhões em Junho de 2026, uma redução de aproximadamente 12,2%.

A diminuição constitui um sinal favorável, mas a distribuição por antiguidade apresenta uma leitura mais complexa.

As operações vencidas há menos de três meses diminuíram de 2,95 mil milhões para 767 milhões de meticais. Os créditos com atraso entre três e seis meses também recuaram, de 3,58 mil milhões para 2,42 mil milhões.

Contudo, os créditos vencidos há mais de três anos aumentaram de 4,41 mil milhões para 4,84 mil milhões de meticais.

Isto significa que o BCI reduziu os incumprimentos mais recentes, mas continua a enfrentar uma concentração significativa de operações antigas, cuja recuperação tende a ser mais difícil e demorada.

O valor total do crédito vencido representava aproximadamente 16,6% da carteira sectorial bruta divulgada. Este cálculo não deve ser confundido com o rácio prudencial oficial de crédito malparado, que pode utilizar critérios regulamentares, perímetros e deduções diferentes.

Crédito Líquido Contrai Enquanto Depósitos Crescem

O crédito líquido a clientes diminuiu 5,5%, de 64,65 mil milhões para 61,10 mil milhões de meticais entre Dezembro de 2025 e Junho de 2026.

No mesmo período, os recursos de clientes aumentaram 0,8%, para 193,18 mil milhões.

A evolução reduziu o rácio entre crédito líquido e depósitos de aproximadamente 33,7% para 31,6%.

Em termos simples, por cada 100 meticais captados junto dos clientes, o BCI mantinha cerca de 31,6 meticais aplicados em crédito líquido no final de Junho.

Este nível revela uma ampla disponibilidade de recursos relativamente à carteira de empréstimos, mas também mostra que o crescimento dos depósitos não se converteu em maior financiamento às empresas e famílias.

O Fundo Monetário Internacional considera que a fraca expansão do crédito, combinada com taxas de juro reais elevadas, continua a limitar o crescimento da economia moçambicana. A instituição defende, ao mesmo tempo, prudência monetária diante das restrições cambiais e dos riscos fiscais existentes. 

Para o banco, a concessão de crédito deve permanecer condicionada à capacidade de pagamento dos clientes e à qualidade dos projectos. Para a economia, contudo, uma redução prolongada da intermediação pode limitar investimento, produção e criação de emprego.

Particulares Concentram Quase Dois Terços Da Carteira

A composição sectorial mostra que os particulares representavam 45,40 mil milhões de meticais, equivalentes a aproximadamente 63,8% da carteira bruta antes das imparidades e demais ajustamentos.

Dentro deste segmento, o crédito à habitação atingia 39,7 mil milhões de meticais, concentrando a maior parte da exposição aos particulares.

Os transportes constituíam o maior segmento empresarial, com 6,82 mil milhões de meticais. Seguiam-se comércio e serviços, com 4,63 mil milhões, indústria, com 3,47 mil milhões, e construção, com 2,45 mil milhões.

Agricultura e pescas recebiam apenas 228,7 milhões de meticais, correspondentes a cerca de 0,3% da carteira sectorial bruta.

A reduzida participação da agricultura merece atenção num país em que o sector continua a empregar uma parte significativa da população e é apresentado como uma das bases da diversificação económica.

O indicador não significa que toda a responsabilidade pela insuficiência do financiamento agrícola pertença ao banco. O sector apresenta riscos climáticos, informalidade, fragilidade das garantias, reduzida qualidade da informação financeira e ciclos produtivos pouco compatíveis com empréstimos convencionais.

Todavia, a diferença entre o peso económico e social da agricultura e a parcela que recebe da carteira bancária confirma a necessidade de instrumentos como garantias, seguros agrícolas, financiamento baseado em contratos, crédito sazonal e fundos de partilha de risco.

Liquidez E Aplicações Financeiras Dominam O Activo

O activo consolidado aumentou 2,8%, para 247,24 mil milhões de meticais.

O crescimento não foi impulsionado pelo crédito a clientes, que diminuiu. Resultou sobretudo do aumento das disponibilidades no Banco de Moçambique, das aplicações em instituições financeiras e de outras rubricas de elevada liquidez.

A caixa e disponibilidades em bancos centrais aumentaram 13,1%, para 66,17 mil milhões de meticais.

Dentro desta rubrica, os depósitos mantidos no Banco de Moçambique cresceram de 51,37 mil milhões para 60,40 mil milhões. Em sentido contrário, o numerário em caixa diminuiu de 7,13 mil milhões para 5,77 mil milhões.

A evolução ocorreu depois de o Banco de Moçambique aumentar, em Maio, o coeficiente das reservas obrigatórias em moeda nacional de 29% para 39%, mantendo a taxa sobre depósitos em moeda estrangeira em 29,5%. Os recursos mantidos para cumprir esta exigência não são remunerados. 

O aumento das reservas obrigatórias protege a liquidez sistémica e apoia os objectivos da política monetária, mas também imobiliza uma parcela maior dos depósitos que poderia ser utilizada em crédito ou outras aplicações remuneradas.

Banco Mantém Mais De 55 Mil Milhões Em Títulos E Acções

A carteira bruta de activos financeiros atingiu 55,36 mil milhões de meticais.

Deste montante, 47,57 mil milhões estavam classificados ao custo amortizado e 7,79 mil milhões ao justo valor através do outro rendimento integral.

As Obrigações do Tesouro totalizavam aproximadamente 20,42 mil milhões de meticais e os Bilhetes do Tesouro cerca de 34,60 mil milhões. A carteira incluía ainda obrigações da Fast Ferry e participações na EMOSE, SIMO e GCI.

Após a dedução das imparidades, os activos financeiros contabilizados no balanço ascendiam a 44,40 mil milhões de meticais.

O stock de imparidade sobre os activos financeiros ao custo amortizado aumentou de 9,58 mil milhões para 10,96 mil milhões de meticais.

O aumento reflectiu reforços, ajustamentos e a metodologia de reconhecimento de perdas esperadas aplicada aos títulos, incluindo instrumentos emitidos por entidades nacionais.

O FMI tem alertado para a ligação crescente entre o risco soberano e o sistema bancário moçambicano, num contexto em que a dívida interna se tornou uma das principais fontes de financiamento do Estado e os atrasos no serviço da dívida aumentaram a prudência das instituições financeiras. 

Esta exposição não significa que todos os títulos estejam em incumprimento. Mostra, contudo, que a rentabilidade e o risco dos bancos estão cada vez mais associados à capacidade financeira do Estado.

Dois Terços Do Activo Estão Em Liquidez E Aplicações Financeiras

Somando caixa e disponibilidades em bancos centrais, aplicações em instituições de crédito e activos financeiros líquidos, estas rubricas representavam aproximadamente 66,9% do activo consolidado do BCI.

O crédito líquido a clientes correspondia a cerca de 24,7%.

A estrutura proporciona elevada liquidez e reduz a dependência imediata do banco relativamente ao crescimento do crédito. Também permite gerar rendimentos através de aplicações interbancárias e títulos.

Ao mesmo tempo, revela que apenas cerca de um quarto do activo estava directamente aplicado em empréstimos líquidos a empresas e famílias.

Uma parte da concentração em liquidez não decorre exclusivamente de uma decisão comercial do banco, mas das elevadas reservas obrigatórias determinadas pelo regulador.

Ainda assim, a composição confirma uma trajectória prudencial: redução do crédito, crescimento dos depósitos no Banco Central e manutenção de uma carteira significativa de aplicações financeiras.

Solvabilidade Permanece Muito Acima Do Mínimo

O BCI encerrou Junho com um rácio de solvabilidade de aproximadamente 31,4%, praticamente estável face aos 31,44% registados no final de 2025.

O indicador permanece mais de 16 pontos percentuais acima do mínimo de 15% exigido pelo Banco de Moçambique.

Os fundos próprios elegíveis situavam-se em 31,54 mil milhões de meticais, enquanto os capitais próprios consolidados aumentaram 3,6%, para 38,57 mil milhões.

O banco distribuiu cerca de 2,10 mil milhões de meticais em dividendos relativos aos resultados anteriores, mantendo, ainda assim, uma posição de capital elevada.

A solvabilidade oferece capacidade para absorver perdas inesperadas e sustentar a continuidade das operações. Não elimina, porém, a necessidade de acompanhar o crescimento das imparidades, a concentração em dívida pública e a redução da intermediação financeira.

Rentabilidade Mantém-Se Elevada, Mas A Qualidade Do Resultado Mudou

O lucro de 3,34 mil milhões de meticais confirma que o BCI continua a gerar resultados expressivos e a manter uma posição de capital confortável.

A leitura detalhada mostra, contudo, que a qualidade do desempenho mudou.

O banco beneficiou de uma redução acentuada dos juros pagos aos depositantes, aumento dos rendimentos provenientes dos activos financeiros e menor imposto sobre o rendimento.

Em contrapartida, registou diminuição dos juros obtidos no crédito, queda dos resultados operacionais, aumento dos gastos com pessoal, maior custo de imparidade e redução do crédito líquido.

A contracção da carteira ocorreu enquanto os depósitos cresceram e a solvabilidade permaneceu acima de 31%, indicando que a limitação não resulta de insuficiência evidente de recursos ou de capital