
Lucro do Millennium bim Cai 37,2% Apesar da Expansão dos Depósitos e do Crédito
O banco encerrou o primeiro semestre de 2026 com resultado líquido de 1,05 mil milhões de meticais, penalizado por imparidades associadas à dívida pública. Depósitos, crédito, receitas operacionais e utilização dos canais digitais cresceram, enquanto a solvabilidade se manteve acima de 40%.
- O resultado líquido caiu de 1,67 mil milhões para 1,05 mil milhões de meticais, uma redução homóloga de 37,2%.
- O banco atribui a queda a imparidades adicionais e ajustamentos prudenciais resultantes da deterioração da classificação da dívida soberana.
- Os depósitos de clientes cresceram 10,4%, para 180,6 mil milhões de meticais, enquanto o crédito bruto aumentou 11,8%, para 53,6 mil milhões.
- O rácio de solvabilidade atingiu 40,76%, mais de três vezes acima do mínimo regulamentar de 12%.
- A elevada liquidez garante capacidade para expandir o financiamento, mas o reduzido rácio de transformação mostra que apenas uma parte dos depósitos está a ser convertida em crédito à economia.
O Millennium bim terminou o primeiro semestre de 2026 com um resultado líquido de 1,048 mil milhões de meticais, representando uma redução de 37,2% comparativamente aos 1,669 mil milhões registados no mesmo período de 2025.
A quebra dos lucros contrasta com o crescimento da actividade comercial do banco. Os depósitos, o crédito, o produto bancário, a base de clientes e a utilização dos canais digitais aumentaram, enquanto os custos operacionais diminuíram. Ainda assim, o agravamento do risco associado à dívida pública obrigou a instituição a reconhecer imparidades e ajustamentos adicionais, comprimindo a rentabilidade final.
Os resultados ilustram uma das principais vulnerabilidades actualmente enfrentadas pelo sistema financeiro moçambicano: mesmo quando a actividade bancária cresce e a qualidade da carteira de crédito se mantém relativamente controlada, a deterioração do risco soberano pode afectar directamente os balanços, os lucros e a capacidade de distribuição de dividendos.
Dívida Pública Absorve Parte do Ganho Operacional
Segundo o Millennium bim, o resultado líquido reportado foi afectado pelo reconhecimento de imparidades adicionais e por ajustamentos prudenciais adoptados depois da revisão em baixa da classificação de risco soberano de Moçambique.
Excluindo esse impacto considerado extraordinário, o banco estima que o lucro teria aumentado 21,6% em relação ao primeiro semestre de 2025.
A distinção é importante para avaliar o desempenho operacional, mas não elimina o efeito económico das imparidades. A exposição à dívida do Estado integra a actividade efectiva dos bancos e o risco soberano não pode ser separado de forma permanente da rentabilidade das instituições financeiras.
Em Abril de 2026, a Fitch reduziu a classificação da dívida externa de longo prazo de Moçambique para “CC”, nível que traduz uma elevada probabilidade de incumprimento. A decisão ocorreu num contexto de dificuldades de tesouraria, acumulação de atrasados e agravamento da sustentabilidade da dívida pública.
Para os bancos que detêm títulos públicos, a deterioração da classificação soberana aumenta a probabilidade estimada de perda e obriga ao reconhecimento de provisões. Estas reduzem o lucro contabilístico, mesmo quando o Estado ainda não deixou formalmente de cumprir determinados pagamentos.
Lucros Permanecem Distantes dos Níveis de 2023
O desempenho semestral deve ser interpretado dentro de uma trajectória mais longa de redução da rentabilidade.
O Millennium bim obteve um lucro de 7,211 mil milhões de meticais em 2023, que diminuiu para 3,309 mil milhões em 2024 e para apenas 201 milhões de meticais em 2025. O banco atribuiu parte substancial desta evolução ao aumento das imparidades sobre a dívida pública e ao agravamento do risco de crédito em alguns segmentos de clientes.
O resultado dos primeiros seis meses de 2026, embora inferior ao do período homólogo, já supera amplamente o lucro registado em todo o exercício de 2025. Isto pode indicar recuperação da actividade bancária corrente, mas ainda não permite concluir que a rentabilidade anual tenha regressado aos níveis anteriores.
Em 2025, o banco reconheceu cerca de 5,9 mil milhões de meticais em imparidades relacionadas com a dívida pública. Os lucros de 2024 e 2025 foram destinados às reservas, sem distribuição de dividendos, preservando o capital perante a maior incerteza financeira.
Depósitos Alcançam 180,6 Mil Milhões de Meticais
Os fundos de clientes cresceram 10,4% em termos homólogos, atingindo 180,6 mil milhões de meticais. Os depósitos à ordem aumentaram 15,3%, reflectindo a entrada de novos recursos e a expansão da relação comercial com famílias e empresas.
A base de clientes ultrapassou 2,3 milhões, consolidando o Millennium bim como uma das instituições com maior presença no mercado bancário moçambicano.
O crescimento dos depósitos representa um sinal de confiança dos clientes e assegura ao banco uma fonte relativamente estável de financiamento. Também amplia, teoricamente, a capacidade de conceder crédito sem depender excessivamente de financiamento externo ou interbancário.
Contudo, depósitos mais elevados só produzem impacto económico mais amplo quando uma proporção adequada é convertida em crédito produtivo, financiamento habitacional, investimento empresarial e capital circulante.
Crédito Cresce, Mas Transformação Continua Reduzida
O crédito bruto a clientes aumentou 11,8% em relação a Junho de 2025, alcançando 53,6 mil milhões de meticais, sustentado pelo financiamento concedido às famílias e às empresas.
Quando comparado com Dezembro de 2025, o crédito líquido passou de 49,29 mil milhões para 49,75 mil milhões de meticais, um crescimento de apenas 0,9%. A diferença entre os dois indicadores resulta das bases de comparação e do tratamento contabilístico: o primeiro considera crédito bruto e evolução homóloga; o segundo considera crédito líquido e crescimento durante os seis meses de 2026.
O rácio líquido de crédito sobre depósitos situou-se em 27,5%, segundo a apresentação de resultados. Já o quadro prudencial publicado pelo banco apresenta um rácio de transformação de 29,69%, diferença que poderá resultar de critérios regulamentares e contabilísticos distintos.
Em qualquer das metodologias, o indicador permanece abaixo de 30%. Isto significa, em termos aproximados, que menos de um terço dos recursos captados junto dos clientes está reflectido na carteira de crédito.
Do ponto de vista prudencial, esta posição reduz o risco de liquidez e dá ao banco margem para responder a levantamentos ou a condições adversas. Do ponto de vista da intermediação financeira, mostra também que existe espaço considerável para aumentar o financiamento à economia.
A expansão dependerá, porém, da existência de projectos viáveis, empresas com demonstrações financeiras credíveis, garantias adequadas e condições macroeconómicas que permitam aos mutuários assumir dívida sem elevar excessivamente o risco de incumprimento.
Produto Bancário Cresce Para 10 Mil Milhões de Meticais
O produto bancário aumentou 4,6%, atingindo 10 mil milhões de meticais no primeiro semestre.
A margem financeira cresceu 5,8%, beneficiando do aumento dos volumes de negócio e da gestão das taxas aplicadas aos activos e passivos. As comissões líquidas aumentaram 5,4%, acompanhando a expansão das operações e da utilização dos serviços bancários.
Os custos operacionais diminuíram 2,3%, evidenciando ganhos de eficiência. Os custos com pessoal, contudo, cresceram 13,4%, reflectindo melhorias nas remunerações e benefícios dos trabalhadores.
A combinação entre crescimento das receitas e redução dos custos operacionais demonstra que a queda do lucro não resultou de uma contracção generalizada do negócio. O principal factor esteve nas perdas esperadas reconhecidas sobre activos financeiros, particularmente os relacionados com o Estado.
Solvabilidade Permanece Acima de 40%
O total líquido de activos aumentou 9,2% em termos homólogos, para 226,1 mil milhões de meticais, enquanto os capitais próprios atingiram aproximadamente 36,1 mil milhões.
O rácio de solvabilidade situou-se em 40,76%, comparativamente ao mínimo regulamentar de 12%. O capital Tier 1 atingiu 44,78% e o rácio de alavancagem fixou-se em 15,58%, segundo os indicadores prudenciais referentes a Junho de 2026.
Estes níveis conferem ao banco capacidade para absorver perdas e manter a actividade perante choques económicos ou financeiros. A solidez de capital explica, igualmente, por que razão a instituição consegue reconhecer imparidades elevadas sem comprometer imediatamente a sua continuidade operacional.
A rentabilidade dos capitais próprios, contudo, situou-se em apenas 5,87%, enquanto a rendibilidade dos activos foi de 0,96%. Os indicadores mostram que o banco permanece capitalizado, mas está a gerar um retorno relativamente reduzido sobre os recursos disponíveis.
Esta combinação — muito capital e baixa rentabilidade — protege a instituição no curto prazo, mas poderá exigir uma utilização mais produtiva do balanço para evitar que o excesso de liquidez se transforme num custo de oportunidade.
Crédito Malparado Mantém-se Controlado
O rácio de crédito em incumprimento situou-se em 2,62%, mantendo-se num nível relativamente reduzido face ao ambiente macroeconómico adverso.
O comunicado do banco indica uma cobertura por imparidades de 157% para os créditos vencidos há mais de 90 dias. Já o quadro regulamentar apresenta um rácio de cobertura do crédito em incumprimento de 91,91%.
Os dois valores não devem ser automaticamente interpretados como incompatíveis. Poderão resultar de diferentes definições de crédito problemático, garantias consideradas e imparidades incluídas no cálculo. A divulgação simultânea das metodologias permitiria, contudo, uma leitura mais transparente da qualidade da carteira.
O baixo nível de crédito malparado mostra que a principal fonte de pressão sobre os resultados não está, nesta fase, nos empréstimos concedidos às famílias e empresas, mas sobretudo na exposição ao risco soberano.
Canais Digitais Passam A Concentrar Relação Com Clientes
Mais de 74% dos clientes activos utilizam regularmente os canais digitais do Millennium bim, com destaque para a aplicação Smart IZI.
O banco tornou-se também a primeira instituição em Moçambique a disponibilizar a abertura de conta totalmente digital para clientes particulares, reduzindo a necessidade de deslocação a um balcão.
A digitalização permite diminuir custos de transacção, alcançar clientes fora dos centros urbanos e processar um volume maior de operações. Para o banco, pode contribuir para aumentar receitas por cliente sem expandir a rede física ao mesmo ritmo.
O impacto sobre a inclusão financeira dependerá, no entanto, da facilidade de utilização das plataformas, do custo dos dados móveis, da interoperabilidade dos pagamentos e da capacidade de atender cidadãos com menor literacia digital.
A Euromoney distinguiu o Millennium bim como Melhor Banco de Moçambique e Melhor Banco Digital de Moçambique em 2026, destacando a transformação digital, a experiência dos clientes e a inclusão financeira.
Liquidez Pode Financiar Uma Expansão Mais Produtiva
Os resultados do primeiro semestre apresentam duas realidades simultâneas.
Por um lado, o Millennium bim continua a captar depósitos, aumentar o crédito, expandir os canais digitais e preservar rácios de capital e liquidez confortáveis. Por outro, o lucro permanece condicionado pela exposição à dívida pública, num contexto em que a situação fiscal do Estado se transmite directamente aos balanços bancários.
A elevada solvabilidade reduz a possibilidade de uma deterioração imediata da estabilidade da instituição. Contudo, não resolve a questão central da intermediação: uma parte ainda reduzida dos depósitos é convertida em crédito à economia.
Para as famílias e empresas, a dimensão do banco será economicamente mais relevante à medida que se traduzir em financiamento acessível para investimento, produção, exportação, habitação e desenvolvimento das pequenas e médias empresas.
O primeiro semestre de 2026 mostra, assim, um banco comercialmente expansivo, operacionalmente eficiente e financeiramente capitalizado, mas cuja rentabilidade continua ligada à capacidade do Estado de estabilizar as finanças públicas e reduzir o risco que a dívida soberana transfere para todo o sistema bancário.
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