
Peace Parks Mobiliza US$ 23 Milhões Para Quatro Parques, Mas Suporta 80% Dos Custos Operacionais
- O financiamento previsto para 2026 cobre os parques nacionais de Maputo, Banhine, Limpopo e Zinave, além dos corredores ecológicos do Grande Limpopo. O investimento sustenta a recuperação da fauna e a profissionalização da gestão, mas evidencia a elevada dependência das áreas protegidas em relação ao capital filantrópico externo.
Questões-Chave
- A Peace Parks Foundation disponibilizou cerca de 23 milhões de dólares para operações e desenvolvimento de quatro parques nacionais em 2026.
- O apoio abrange Maputo, Banhine, Limpopo e Zinave, incluindo áreas de conectividade ecológica do Grande Limpopo.
- A fundação afirma suportar aproximadamente 80% dos custos operacionais destas áreas de conservação.
- Banhine recebeu impalas, zebras, boi-cavalos, pivas e xangos e prepara a introdução de 20 girafas.
- A implementação do Regulamento de Parceria de Gestão Colaborativa poderá alterar o modelo institucional de administração dos parques.
- A sustentabilidade económica exigirá maior geração de receitas próprias, turismo, participação comunitária e progressiva transferência de capacidades para as instituições nacionais.
US$ 23 Milhões Para Operações, Recuperação E Desenvolvimento
A Peace Parks Foundation vai disponibilizar cerca de 23 milhões de dólares em 2026 para assegurar a continuidade das operações e apoiar o desenvolvimento dos parques nacionais de Maputo, Banhine, Limpopo e Zinave, bem como das áreas de conectividade ecológica integradas na paisagem transfronteiriça do Grande Limpopo.
O orçamento deverá financiar actividades de gestão, protecção da fauna, recuperação de ecossistemas, infra-estruturas, desenvolvimento institucional e repovoamento de espécies nas quatro áreas de conservação.
Bartolomeu Soto, representante da Peace Parks Foundation, explicou que os recursos se destinam a assegurar tanto o funcionamento corrente como a continuidade dos programas de desenvolvimento.
“Para o corrente ano de 2026, temos disponível um orçamento de cerca de 23 milhões de dólares americanos para apoiar a continuidade das operações e do desenvolvimento dos quatro parques, nomeadamente Parque do Maputo, do Banhine, do Limpopo e do Zinave, incluindo as áreas de conectividade ecológica na área transfronteiriça do Grande Limpopo”, declarou.
O financiamento assume particular importância num sector cujas despesas não se limitam à preservação directa da fauna. A administração de uma área de conservação exige fiscalização, manutenção de estradas, viaturas, comunicações, investigação, controlo de incêndios, gestão da água, mitigação de conflitos entre pessoas e animais, relacionamento com comunidades e promoção do turismo.
Dependência Financeira Mantém-Se Elevada
Apesar da dimensão do apoio, a estrutura de financiamento revela uma dependência significativa em relação à fundação.
Segundo Bartolomeu Soto, aproximadamente 80% dos custos operacionais dos parques abrangidos são actualmente suportados pela Peace Parks Foundation.
A contribuição permite manter actividades que dificilmente seriam financiadas apenas pelas receitas próprias dos parques ou pelo Orçamento do Estado. Contudo, também coloca a sustentabilidade financeira no centro da discussão sobre o futuro das áreas de conservação.
Quando um parceiro externo suporta a maior parte dos custos, a continuidade das operações fica condicionada à sua capacidade de mobilizar doadores e manter compromissos financeiros durante períodos prolongados.
A questão não reduz a importância do financiamento filantrópico. Mostra, antes, a necessidade de o investimento produzir capacidades nacionais, infra-estruturas duradouras, receitas turísticas e mecanismos que permitam reduzir progressivamente a dependência de uma única fonte.
O próprio Regulamento de Parceria de Gestão Colaborativa estabelece que os acordos devem incluir programas de sustentabilidade financeira, indicadores de desempenho, transferência de capacidades, mobilização de recursos e mecanismos de prestação de contas. O diploma atribui ao parceiro privado a responsabilidade primária de identificar financiamentos, preservando, porém, a propriedade do Estado sobre os recursos naturais.
Banhine Prepara Chegada Das Primeiras 20 Girafas
Uma parte do investimento será direccionada ao Parque Nacional de Banhine, onde está em curso um processo de recuperação da fauna.
De acordo com Bartolomeu Soto, o parque já recebeu impalas, zebras, boi-cavalos, pivas e xangos. Para 2026, está prevista a introdução das primeiras 20 girafas.
“Estes animais não serão apenas números. São vida. São um marco da recuperação do ecossistema”, afirmou o representante da fundação.
O repovoamento procura restabelecer a diversidade e as funções ecológicas perdidas durante períodos de conflito, caça furtiva, degradação de habitats e reduzida capacidade de gestão.
Segundo a Peace Parks Foundation, Banhine possui cerca de sete mil quilómetros quadrados e integra extensas planícies de inundação, lagoas sazonais e importantes rotas para aves migratórias. A organização e a Administração Nacional das Áreas de Conservação iniciaram em 2018 um acordo de apoio à recuperação, desenvolvimento e gestão do parque. (Fundação Peace Parks)
A introdução de fauna poderá elevar a atractividade turística do parque, mas exigirá igualmente capacidade permanente para garantir disponibilidade de água, vigilância, monitoria sanitária, prevenção da caça furtiva e gestão dos movimentos dos animais.
Repovoamento Precisa De Ser Convertido Em Economia Da Conservação
A recuperação de espécies produz valor ecológico, mas o retorno económico depende da capacidade de transformar a biodiversidade numa base sustentável para turismo, investigação, emprego e prestação de serviços.
O crescimento das populações animais pode atrair visitantes, operadores turísticos, investigadores, fornecedores, transportadores e investimentos em alojamento. Pode igualmente criar oportunidades para guias, fiscais, técnicos de conservação e pequenos negócios das comunidades vizinhas.
Em Banhine, a ligação entre conservação e benefícios locais começou a ganhar expressão directa. A Peace Parks informou que, em 2025, o parque distribuiu pela primeira vez receitas às comunidades circundantes, através de um pagamento de 650 mil meticais, correspondente à aplicação do princípio segundo o qual as populações locais recebem 20% das receitas geradas pelas áreas de conservação. (Fundação Peace Parks)
Embora o valor ainda seja reduzido face às necessidades das comunidades, o mecanismo é importante para construir uma relação económica mais visível entre a preservação da fauna e o desenvolvimento local.
Sem benefícios concretos, as populações podem suportar os custos da conservação — incluindo restrições ao uso da terra, perda de culturas e conflitos com animais — sem participarem adequadamente nas receitas geradas.
Zinave Mostra O Resultado Do Investimento De Longo Prazo
O Parque Nacional de Zinave constitui um dos exemplos mais avançados da cooperação entre o Estado moçambicano e a Peace Parks Foundation.
A ANAC e a fundação assinaram, em 2015, um acordo de cogestão com duração de 20 anos para recuperar, desenvolver e administrar o parque. Desde então, Zinave passou por um amplo programa de reintrodução de fauna, melhoria da fiscalização, construção de infra-estruturas e reorganização da gestão. (Fundação Peace Parks)
Em Junho de 2026, a Peace Parks anunciou a conclusão da última de três grandes operações de translocação de rinocerontes-brancos para Zinave. A chegada de nove fêmeas consolidou a população reprodutiva e confirmou o parque como o primeiro em Moçambique a voltar a acolher os chamados “Cinco Grandes” — leão, leopardo, elefante, búfalo e rinoceronte. (Fundação Peace Parks)
O percurso demonstra que a recuperação de um parque não resulta de uma única translocação ou de um financiamento anual. Exige continuidade, segurança, capacidade técnica, acompanhamento científico e investimentos que podem demorar vários anos antes de produzirem retornos económicos relevantes.
Novo Regulamento Cria Base Para Gestão Colaborativa
A Peace Parks espera igualmente avanços na implementação do Regulamento de Parceria de Gestão Colaborativa nas Áreas de Conservação.
Bartolomeu Soto considera que o novo quadro poderá permitir a criação de uma entidade autónoma envolvendo a ANAC e a Peace Parks para apoiar a gestão e o desenvolvimento de Banhine.
O regulamento foi aprovado pelo Governo através do Decreto n.º 52/2024, de 18 de Julho, e define as regras para parcerias entre o sector público, organizações privadas sem fins lucrativos, sociedade civil e comunidades locais.
De acordo com a ANAC, o instrumento foi concebido para permitir uma gestão participativa e eficiente das áreas de conservação, através de modelos de parceria que preservem a autoridade do Estado e mobilizem recursos técnicos e financeiros externos. (ANAC)
O diploma estabelece três modalidades: assistência técnica e financeira, gestão colaborativa bilateral e gestão colaborativa integrada.
No modelo integrado, o Estado e o parceiro podem criar uma estrutura única e híbrida de administração, com unidades de implementação e mecanismos próprios de supervisão. Os acordos podem vigorar até 25 anos, devendo definir responsabilidades, indicadores, financiamento, auditorias, resolução de conflitos e transferência de conhecimento.
Autonomia Operacional Não Retira Soberania Ao Estado
A eventual criação de uma entidade conjunta para a administração de Banhine deverá ser entendida dentro dos limites fixados pelo quadro legal.
O Regulamento de Parceria de Gestão Colaborativa determina que o Estado mantém a propriedade dos recursos naturais e a autoridade sobre as decisões administrativas, políticas e de gestão das áreas de conservação.
Os bens adquiridos no âmbito das parcerias revertem a favor do Estado após o fim dos acordos, enquanto os fundos mobilizados devem ser registados nos sistemas nacionais de controlo financeiro e depositados no sistema bancário moçambicano.
A autonomia operacional poderá facilitar o recrutamento de especialistas, a aquisição de equipamentos e a execução dos programas. Não deverá, contudo, substituir a responsabilidade pública de fiscalização, supervisão e definição das prioridades nacionais.
A eficácia do modelo dependerá da clareza na distribuição das competências entre a ANAC, a fundação, as administrações dos parques, os governos locais e as comunidades.
Quatro Parques Exigem Capacidades De Gestão Especializadas
A aplicação de 23 milhões de dólares em quatro parques com características diferentes exige uma estrutura técnica capaz de gerir múltiplos riscos.
O Parque Nacional de Maputo combina ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Em Junho, a Peace Parks anunciou a conclusão do primeiro levantamento abrangente da biodiversidade do sistema de recifes de Techobanine, destinado a criar uma base científica para a sua protecção futura. (Fundação Peace Parks)
O Parque Nacional do Limpopo integra uma vasta paisagem transfronteiriça ligada ao Kruger, na África do Sul, enfrentando desafios associados à movimentação da fauna, caça furtiva, desenvolvimento comunitário e eventos climáticos.
Banhine possui extensas zonas húmidas sazonais e encontra-se numa fase inicial de recuperação das populações animais, enquanto Zinave já alcançou uma etapa mais avançada de restauração e poderá concentrar-se na consolidação do turismo e das receitas.
Para responder a estas diferenças, a ANAC, a SADC, o Governo alemão e a Peace Parks iniciaram em Julho um programa de liderança dirigido a 43 gestores actuais e emergentes dos quatro parques. Os participantes têm sob a sua responsabilidade cerca de 378 fiscais. (Fundação Peace Parks)
Corredores Ecológicos Ampliam O Alcance Do Investimento
O orçamento também inclui áreas de conectividade ecológica no Grande Limpopo.
Os corredores permitem a movimentação de animais entre áreas protegidas, reduzem o isolamento genético das populações e ajudam a conservar ecossistemas que ultrapassam as fronteiras administrativas dos parques.
A sua gestão é, porém, mais complexa porque envolve terras comunitárias, actividades agrícolas, assentamentos, infra-estruturas e diferentes jurisdições nacionais.
O investimento nestas zonas precisa, assim, de articular conservação com alternativas de rendimento, ordenamento territorial, redução de conflitos entre pessoas e animais e participação das comunidades nas decisões.
Quando os corredores são tratados apenas como espaços de passagem da fauna, podem aumentar os riscos suportados pelas populações. Quando são enquadrados como paisagens económicas, podem apoiar turismo comunitário, produção sustentável, serviços ambientais e cadeias de valor associadas à biodiversidade.
Turismo Deve Assumir Maior Peso No Financiamento
A recuperação da fauna e a melhoria das infra-estruturas deverão criar condições para elevar a receita turística dos parques.
Contudo, a existência de animais não assegura automaticamente a chegada de visitantes. São necessárias estradas transitáveis, alojamento, transportes, segurança, marketing, operadores, formação de guias e ligação com circuitos turísticos nacionais e regionais.
Zinave, Banhine e Limpopo enfrentam ainda limitações de acessibilidade e distância relativamente aos principais centros emissores de turistas. O Parque Nacional de Maputo beneficia da proximidade da capital e da sua combinação de praia, floresta, fauna e biodiversidade marinha.
A estratégia deverá reconhecer estas diferenças e evitar modelos uniformes. Alguns parques poderão gerar receitas mais rapidamente através do turismo; outros permanecerão dependentes de financiamento público e filantrópico devido à sua localização ou função ecológica.
Sustentabilidade Exige Transição De Financiamento Para Capacidade
Os 23 milhões de dólares oferecem recursos imediatos para preservar conquistas, recuperar ecossistemas e melhorar a administração das áreas abrangidas.
A relevância económica do investimento será maior se os recursos forem convertidos em capacidades que permaneçam no país: técnicos formados, sistemas financeiros transparentes, infra-estruturas funcionais, fiscalização profissional, fornecedores nacionais e instituições capazes de mobilizar novas receitas.
A proporção de 80% dos custos operacionais suportada pela Peace Parks mostra que o financiamento externo continua a ser decisivo. Também indica que a sustentabilidade dos parques ainda não pode depender apenas das receitas próprias ou da contribuição pública.
A trajectória futura deverá combinar compromisso prolongado dos parceiros com uma estratégia de redução gradual da dependência, apoiada pelo turismo, diversificação de doadores, pagamentos por serviços ambientais, financiamento climático e participação do sector privado.
A conservação tornar-se-á economicamente mais robusta quando a recuperação da fauna estiver acompanhada por emprego, rendimentos comunitários, receitas nacionais e capacidade institucional moçambicana para sustentar os parques no longo prazo.
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