Indústria Atinge 60 Mil Milhões, Mas Custos Continuam A Travar Competitividade

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  • Governo aponta progressos na produção e novos investimentos no primeiro semestre, enquanto sector privado defende energia estável, logística mais eficiente, redução de taxas, financiamento de longo prazo e maior acesso aos mercados para transformar capacidade instalada em indústria competitiva.
Questões-Chave:
  • Produção industrial foi estimada em cerca de 60 mil milhões de meticais no primeiro semestre de 2026;
  • Indústrias alimentares, metais de base, bebidas, minerais não metálicos e produtos químicos estiveram entre os principais segmentos produtivos;
  • Três grandes estabelecimentos industriais licenciados em Niassa e Sofala apresentam potencial para criar 938 postos de trabalho;
  • CTA considera que custos de logística, energia, financiamento, taxas e burocracia continuam a limitar a competitividade das empresas;
  • Sector privado defende que mercado doméstico, por si só, não sustenta uma industrialização de maior escala e pede maior orientação para SADC, ZCLCA e mercados internacionais;
  • Governo admite que indicadores de licenciamento e investimento precisam de se traduzir efectivamente em produção, produtividade, emprego e rendimento.

A produção industrial moçambicana atingiu cerca de 60 mil milhões de meticais no primeiro semestre de 2026, num período em que o Governo registou novos investimentos e licenciamentos, mas em que o sector privado continua a identificar custos de produção e limitações logísticas como alguns dos principais obstáculos à expansão da indústria nacional.

Os dados foram apresentados pelo Ministro da Economia, Basílio Muhate, durante a II Sessão do Conselho Coordenador da instituição. Entre os sectores com maior expressão figuram as indústrias alimentares, metais de base, bebidas, minerais não metálicos e produtos químicos.

No mesmo período, foram licenciados três grandes estabelecimentos industriais destinados ao processamento de grafite, produção de embalagens plásticas e papel canelado e serração e aplainamento de madeira. Localizados em Niassa e Sofala, os projectos apresentam potencial para gerar 938 postos de trabalho. (

Os números mostram movimento na actividade industrial, mas coincidem com uma avaliação mais cautelosa do empresariado. A Confederação das Associações Económicas de Moçambique considera que o país ainda precisa de reduzir os custos que condicionam a capacidade das empresas de produzir localmente e competir com bens importados.

É precisamente nesta diferença entre capacidade produtiva existente e competitividade efectiva que se concentra uma das principais questões da política industrial.

Custos De Produção Permanecem No Centro Do Debate Industrial

Para a CTA, aumentar a produção nacional requer uma abordagem que articule indústria, comércio, energia, transportes, agricultura, financiamento e infra-estruturas.

Álvaro Massingue, presidente da organização, defendeu que a política industrial deve começar por tornar competitivo quem produz em Moçambique. Entre as condições apontadas estão energia estável, logística competitiva, redução de taxas e burocracia, disponibilidade de divisas e acesso a financiamento adequado.

A preocupação reside no facto de uma empresa poder ter capacidade produtiva instalada e, ainda assim, perder competitividade se enfrentar custos elevados para transportar matérias-primas, importar equipamentos, financiar stocks ou levar o produto ao mercado.

A indústria deixa, nestas condições, de competir apenas pela eficiência dentro da fábrica. Passa a competir também pela qualidade das estradas, funcionamento dos corredores, preço da energia, custo do capital e previsibilidade das regras.

Isso ajuda a explicar por que razão a discussão sobre industrialização está progressivamente a deslocar-se da simples instalação de fábricas para o custo total de produzir em Moçambique.

Governo Quer Medir Resultados Para Além Dos Licenciamentos

O próprio Governo reconhece esta diferença entre indicadores administrativos e resultados económicos.

Na abertura do Conselho Coordenador, Basílio Muhate defendeu que o desempenho do sector não deve ser avaliado apenas pelo número de licenças emitidas, empresas capacitadas ou projectos aprovados, mas pela sua tradução em actividade produtiva, emprego, investimento, produtividade e rendimento.

A posição ganha importância num contexto em que foram aprovados 90 projectos de investimento directo no primeiro semestre, enquanto 3.004 micro, pequenas e médias empresas beneficiaram de diferentes intervenções de apoio.

O desafio passa, portanto, por assegurar que o investimento aprovado saia da fase administrativa e se converta efectivamente em unidades produtivas, emprego e produção comercial.

Essa passagem é particularmente relevante num ambiente em que empresas continuam a enfrentar restrições de financiamento, infra-estruturas, logística, acesso aos mercados e eficiência das cadeias de abastecimento — constrangimentos igualmente reconhecidos pelo Ministério da Economia.

Mercado Interno Limita Escala Da Industrialização

A CTA acrescenta outra dimensão ao problema: a dimensão do mercado doméstico.

Na avaliação do sector privado, a procura interna é importante, mas insuficiente para sustentar uma estratégia industrial mais ambiciosa.

Isso obriga as empresas moçambicanas a pensar na produção para além das fronteiras nacionais, utilizando a SADC, a Zona de Comércio Livre Continental Africana e outros mercados externos como plataformas de expansão.

Mas o acesso formal a um mercado não significa automaticamente capacidade para exportar.

Empresas precisam de cumprir normas técnicas, assegurar qualidade, obter certificações, manter volumes regulares e competir em preço com produtores de outros países. A CTA considera, por isso, que o sucesso da política comercial deve ser medido não apenas pelo número de acordos assinados, mas pela quantidade de empresas efectivamente capazes de os utilizar.

A escala torna-se particularmente importante na indústria porque muitos investimentos exigem elevados custos iniciais.

Uma fábrica que produz apenas para um mercado limitado pode operar abaixo da sua capacidade e enfrentar custos unitários elevados. A expansão para mercados regionais permite aumentar volumes, distribuir custos fixos por uma produção maior e melhorar competitividade.

Tarifas Aduaneiras Entram Na Estratégia De Produção

Outro ponto levantado pelo sector privado diz respeito à política aduaneira.

A CTA defende que a pauta deve ser utilizada como instrumento de transformação produtiva, facilitando a importação de equipamentos, tecnologia, componentes e matérias-primas que não são produzidos localmente.

A lógica é distinguir bens que concorrem directamente com produção nacional daqueles que constituem insumos necessários para produzir.

Taxar excessivamente máquinas ou matérias-primas pode elevar o custo do produto final e tornar a própria indústria nacional menos competitiva.

Ao mesmo tempo, a CTA admite políticas temporárias de protecção para determinados sectores, mas defende que essas medidas sejam selectivas, condicionadas a resultados e não utilizadas para preservar permanentemente empresas pouco eficientes.

O objectivo seria permitir que determinados segmentos industriais ganhem escala e produtividade sem eliminar os incentivos à competição.

Financiamento De Longo Prazo Continua Escasso

A estrutura de financiamento permanece outro dos principais obstáculos.

A indústria necessita normalmente de capital com horizontes mais longos do que actividades comerciais de curto prazo.

Fábricas precisam de financiar instalações, máquinas, tecnologia, stocks, certificação e expansão antes de começarem a gerar retornos suficientes.

A CTA considera necessário ampliar garantias, linhas de financiamento para equipamentos e instrumentos específicos para empresas exportadoras.

Num contexto de taxas de juro elevadas e limitações no acesso a divisas, o financiamento torna-se parte central da competitividade.

Uma empresa pode possuir tecnologia e mercado, mas continuar impossibilitada de expandir produção se o custo do capital tornar o investimento economicamente inviável.

Produção Nacional Precisa De Substituir Importações Com Competitividade

Os dados do primeiro semestre acrescentam outra dimensão à discussão.

Moçambique registou um saldo comercial positivo de aproximadamente US$ 114 milhões, associado a um aumento de 5% das exportações e a uma redução de 12% das importações, segundo os dados preliminares apresentados pelo Ministério da Economia.

A redução das importações, contudo, não representa automaticamente substituição por produção nacional.

Basílio Muhate defendeu que a queda deve ser acompanhada pelo reforço da capacidade produtiva doméstica para que uma parcela crescente da procura interna seja efectivamente satisfeita por empresas moçambicanas.

Esta distinção é importante.

Importações podem cair por aumento da produção nacional, mas também devido a menor procura, dificuldades cambiais ou redução do investimento.

Para que exista substituição efectiva de importações, empresas nacionais precisam de conseguir colocar no mercado produtos com preço, qualidade e disponibilidade competitivos.

Matérias-Primas Continuam A Sair Antes Da Transformação

Outra preocupação do sector privado é a persistência de uma economia em que parte significativa dos recursos naturais sai do país com níveis reduzidos de transformação.

A CTA defende uma passagem gradual da exportação de matérias-primas para produtos transformados e de uma economia predominantemente extractiva para uma base produtiva mais diversificada.

A lógica económica é aumentar o valor criado internamente antes da exportação.

Transformar uma matéria-prima pode gerar procura por energia, transporte, manutenção, serviços financeiros, embalagem, tecnologia e mão-de-obra especializada, ampliando os efeitos da actividade sobre o conjunto da economia.

Mas esse processo depende precisamente das condições que o sector privado reclama: energia fiável, logística eficiente, financiamento, tecnologia e mercados.

Conteúdo Local Procura Evoluir Para Capacidade Empresarial

O debate alcança igualmente os grandes projectos de investimento.

Para a CTA, participação de empresas nacionais em contratos de fornecimento não deve constituir o objectivo final das políticas de conteúdo local.

O ganho mais duradouro ocorre quando essa participação permite adquirir tecnologia, competências, certificações, capacidade financeira e experiência que possibilitem às empresas competir posteriormente noutros mercados.

A perspectiva aproxima conteúdo local de uma política de desenvolvimento empresarial.

O fornecimento a grandes projectos torna-se, neste caso, uma plataforma para aumentar a capacidade produtiva das empresas moçambicanas, em vez de constituir apenas uma fonte temporária de contratos.

60 Mil Milhões Colocam A Competitividade No Centro Da Próxima Fase

Os cerca de 60 mil milhões de meticais de produção industrial registados no primeiro semestre fornecem uma referência importante sobre a dimensão actual da actividade.

Mas os próprios sinais emitidos pelo Governo e pelo sector privado mostram que a próxima etapa será determinada menos pela quantidade de projectos anunciados e mais pela capacidade de elevar produtividade, reduzir custos e ampliar mercados.

A convergência é significativa.

O Governo quer que investimentos e licenciamentos produzam resultados mensuráveis em actividade económica e emprego. O sector privado pede condições que permitam às empresas transformar esses investimentos em produção competitiva.

Nesse quadro, industrialização deixa de significar simplesmente instalar novas unidades.

Passa por conseguir que as fábricas produzam regularmente, aumentem escala, compitam com importações, exportem e permaneçam economicamente sustentáveis.

É esta passagem da capacidade instalada para a competitividade que deverá determinar se os actuais 60 mil milhões de meticais representam apenas um indicador conjuntural ou a base para uma transformação mais ampla da estrutura produtiva moçambicana.

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