Metical Fecha Julho Estável Enquanto Défice De Liquidez Sobe Para 7,4 Mil Milhões De Meticais

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  • A taxa média de referência do dólar permaneceu em 63,91 meticais entre 27 e 31 de Julho, enquanto a cotação efectiva dos bancos comerciais encerrou em 63,96 meticais. A estabilidade cambial coexistiu, contudo, com uma deterioração do desvio de liquidez em moeda nacional e uma diferença próxima de 10% entre bancos e casas de câmbio.

Questões-Chave

  • A taxa média de referência USD/MZN permaneceu inalterada em 63,91 meticais durante os cinco boletins analisados.
  • A taxa média efectiva dos bancos comerciais recuou de 64,02 para 63,96 meticais por dólar.
  • Nas casas de câmbio, a taxa média passou de 69,92 para 70,10 meticais, depois de atingir 70,79 meticais.
  • A diferença entre a taxa média dos bancos e das casas de câmbio encerrou em 6,14 meticais por dólar, equivalente a aproximadamente 9,6%.
  • Nas cinco observações, os bancos compraram ao público 127,5 milhões de dólares e venderam 105,65 milhões, registando compras líquidas de 21,85 milhões.
  • O desvio de liquidez em moeda nacional passou de um excedente de 1,96 mil milhões para um défice de 7,42 mil milhões de meticais.
  • A taxa das operações interbancárias overnight permaneceu alinhada com a MIMO, em 9,25%.

Taxa De Referência Permanece Imóvel

O Metical encerrou Julho sem alterações na taxa de câmbio de referência face ao dólar, apesar das oscilações registadas nas operações efectivamente realizadas pelos bancos comerciais e pelas casas de câmbio.

Segundo os Diários dos Mercados do Banco de Moçambique, a taxa de referência permaneceu fixada, entre 27 e 31 de Julho, em 63,27 meticais na compra e 64,54 meticais na venda, correspondendo a uma média de 63,91 meticais por dólar.

A estabilidade desta referência não significa que todas as operações cambiais tenham sido realizadas ao mesmo preço. A taxa de referência funciona como indicador do mercado, enquanto as taxas efectivas reflectem as transacções concretizadas entre instituições financeiras e os respectivos clientes.

Nos bancos comerciais, a taxa média efectiva passou de 64,02 meticais no boletim de 27 de Julho para 63,96 meticais no encerramento de 31 de Julho. O movimento corresponde a uma apreciação marginal do Metical de seis centavos por dólar.

A variação reduzida confirma que, no segmento bancário formal, o câmbio USD/MZN permaneceu praticamente estável ao longo do período.

Casas De Câmbio Mantêm Dólar Acima De 70 Meticais

A estabilidade observada nos bancos comerciais não se repetiu integralmente nas casas de câmbio.

A taxa média efectiva deste segmento iniciou o período em 69,92 meticais por dólar, subiu para 70,79 meticais no boletim de 28 de Julho e encerrou em 70,10 meticais.

No último dia analisado, as casas de câmbio compravam o dólar, em média, a 69,34 meticais e vendiam-no a 70,86 meticais. Nos bancos comerciais, as médias correspondentes situavam-se em 63,33 meticais na compra e 64,59 meticais na venda.

A diferença entre as taxas médias dos dois segmentos atingiu 6,14 meticais por dólar no encerramento, equivalente a aproximadamente 9,6% da cotação bancária.

Ao longo das cinco observações, o diferencial médio situou-se em cerca de 6,24 meticais por dólar.

Esta divergência mostra que a estabilidade cambial agregada não produz necessariamente condições idênticas para todos os utilizadores. Empresas com acesso regular aos bancos comerciais enfrentam um custo cambial diferente daquele suportado por particulares, pequenos operadores e agentes que recorrem às casas de câmbio.

Os boletins não identificam as causas específicas do diferencial. Entre os factores que geralmente podem influenciar estas diferenças encontram-se a dimensão das operações, disponibilidade de numerário, custos operacionais, perfil dos clientes e risco assumido por cada operador.

Bancos Captam Mais Divisas Do Que Vendem Ao Público

A movimentação cambial entre os bancos comerciais e o público apresentou oscilações significativas durante o período.

Cálculos do O.Económico, com base nas cinco observações publicadas pelo Banco de Moçambique, indicam que os bancos compraram ao público um total de 127,5 milhões de dólares e venderam 105,65 milhões.

O saldo acumulado foi, assim, positivo em 21,85 milhões de dólares, significando que as instituições compraram mais moeda norte-americana aos clientes do que venderam.

Quando consideradas todas as moedas e convertidos os valores para dólares, as compras totalizaram 152,87 milhões e as vendas 132,63 milhões, produzindo um saldo líquido de 20,24 milhões de dólares.

Os números devem ser interpretados com prudência, porque cada boletim reporta operações realizadas no dia útil anterior. A agregação representa, portanto, as cinco observações constantes dos documentos, e não necessariamente todas as transacções ocorridas entre 27 e 31 de Julho.

Ainda assim, o saldo positivo sugere uma captação líquida de divisas junto dos clientes durante os dias observados, potencialmente associada a receitas de exportação, pagamentos de serviços, transferências externas ou outras entradas cambiais.

O maior saldo diário foi registado no boletim de 31 de Julho. Nesse documento, os bancos reportaram compras de 34,76 milhões de dólares e vendas de 16,87 milhões, resultando num saldo líquido de 17,90 milhões.

Fluxos Cambiais Mudam De Direcção Ao Longo Da Semana

A posição líquida não foi uniforme.

No boletim de 27 de Julho, as compras de dólares superaram as vendas em 3,08 milhões. No dia seguinte, o saldo tornou-se negativo em aproximadamente 870 mil dólares.

Em 29 de Julho, as instituições voltaram a registar compras líquidas de 4,80 milhões de dólares. No boletim de 30 de Julho, as vendas ultrapassaram as compras em 3,06 milhões, antes da forte recuperação registada no encerramento.

Estas oscilações revelam que a estabilidade da taxa de câmbio não corresponde a um equilíbrio diário entre procura e oferta de divisas.

O mercado pode absorver variações temporárias através dos stocks dos bancos, operações interbancárias, entradas de moeda estrangeira e gestão das posições cambiais.

Por essa razão, uma sessão em que os bancos vendem mais dólares do que compram não conduz automaticamente à depreciação do Metical. A direcção cambial depende da persistência dos desequilíbrios, da profundidade do mercado e da capacidade das instituições de responder à procura.

Liquidez Em Meticais Passa De Excedente A Défice

A estabilidade do mercado cambial ocorreu num ambiente de alteração significativa da liquidez bancária em moeda nacional.

Em 27 de Julho, o desvio entre os saldos médios das reservas bancárias e as reservas obrigatórias era positivo em 1,96 mil milhões de meticais.

No boletim de 29 de Julho, o indicador tornou-se negativo em 5,20 mil milhões. O défice aprofundou-se para 7,18 mil milhões no dia seguinte e atingiu 7,42 mil milhões de meticais em 31 de Julho.

Entre o início e o fim do período, a posição deteriorou-se em cerca de 9,38 mil milhões de meticais.

A taxa média efectiva de constituição das reservas obrigatórias em moeda nacional também recuou de 39,30% para 37,87%, uma redução de 1,43 pontos percentuais.

Um desvio negativo indica que os saldos médios observados se encontravam abaixo da exigência de reservas no momento de referência. Não significa necessariamente que todas as instituições estavam em défice, uma vez que o sistema pode conter simultaneamente bancos com excesso e bancos com necessidade de liquidez.

Cedência E Depósito Ocorrem Simultaneamente

Os dados das facilidades permanentes confirmam a existência de posições diferenciadas entre as instituições.

No encerramento de 31 de Julho, a Facilidade Permanente de Cedência atingiu 2,5 mil milhões de meticais, enquanto a Facilidade Permanente de Depósito se situou em 2,75 mil milhões.

A primeira representa recursos obtidos junto do Banco de Moçambique por instituições que necessitam de liquidez de curto prazo. A segunda recebe excedentes temporários que outras instituições decidem depositar no banco central.

A utilização simultânea das duas facilidades sugere que a liquidez não estava distribuída de forma uniforme entre os bancos. Algumas instituições necessitavam de financiamento, enquanto outras dispunham de recursos excedentários.

A taxa da Facilidade Permanente de Cedência permaneceu em 12,25%, enquanto a remuneração da Facilidade Permanente de Depósito se manteve em 6,25%.

O diferencial entre as duas taxas cria um corredor em torno da taxa MIMO e incentiva os bancos a procurarem primeiro financiamento no mercado interbancário, onde o custo tende a ser inferior ao da cedência directa do banco central.

Mercado Interbancário Opera Alinhado Com A MIMO

As operações de recompra entre bancos comerciais mantiveram uma taxa média ponderada de 9,25% durante todo o período.

O montante overnight oscilou entre 2,15 mil milhões e 3,15 mil milhões de meticais, encerrando em três mil milhões. No último boletim, apenas uma instituição aparecia como tomadora e uma como cedente.

A coincidência entre a taxa das operações interbancárias e a taxa MIMO mostra que o sinal de política monetária continuou a ser transmitido para o custo do dinheiro de muito curto prazo.

O Comité de Política Monetária decidiu, a 29 de Julho, manter a taxa MIMO em 9,25%, num contexto de incerteza em torno dos preços internacionais dos combustíveis e alimentos e dos efeitos do conflito no Médio Oriente. 

A Facilidade Permanente de Depósito, em 6,25%, e a Facilidade Permanente de Cedência, em 12,25%, mantiveram-se três pontos percentuais abaixo e acima da MIMO, respectivamente. 

Operações Com Bilhetes Do Tesouro Absorvem Volumes Elevados

O Banco de Moçambique utilizou igualmente operações com Bilhetes do Tesouro e acordos de recompra para gerir a liquidez de curto prazo.

No boletim de 28 de Julho, foram colocados 49,5 mil milhões de meticais em Bilhetes do Tesouro com acordo de recompra para o prazo overnight, à taxa média de 9,25%.

No dia 29, o montante subscrito em operações de sete dias atingiu 140,87 mil milhões de meticais, também a 9,25%. Para o prazo de um mês, foram subscritos 10,5 mil milhões, à taxa média de 9,34%.

A dimensão destas operações mostra a intensidade da gestão monetária realizada no encerramento do mês.

A sequência entre operações de absorção temporária e a posterior deterioração do desvio de reservas é consistente com uma retirada relevante de liquidez do sistema. Os documentos, isoladamente, não permitem, contudo, atribuir todo o défice observado exclusivamente a estas operações, uma vez que os saldos também respondem a pagamentos, impostos, movimentações do Estado e decisões individuais dos bancos.

Carteira De Bilhetes Do Tesouro Permanece Totalmente Utilizada

O valor descontado da carteira de Bilhetes do Tesouro do Tipo A atingiu 155,46 mil milhões de meticais a partir de 29 de Julho, contra 154,72 mil milhões nos dois primeiros boletins.

O Banco de Moçambique indica que o saldo em dívida correspondente se encontrava integralmente em utilização pelo Estado, mantendo a proporção em 100%.

A utilização integral desta carteira confirma a relevância dos Bilhetes do Tesouro no financiamento de curto prazo e na gestão monetária.

O indicador, por si só, não demonstra uma redução directa do crédito à economia. Mostra, contudo, que uma parcela elevada dos activos líquidos do sistema permanece associada aos instrumentos de dívida pública.

Caso a procura de financiamento pelo Estado permaneça elevada, os bancos poderão continuar a avaliar os títulos públicos como alternativa ao crédito a empresas e famílias, sobretudo quando oferecem rendimento atractivo e menor risco de capital.

Estabilidade Cambial Coexiste Com Inflação Mais Elevada

A contenção da taxa de câmbio continua a desempenhar um papel importante na limitação da inflação importada.

Moçambique depende de importações de combustíveis, trigo, arroz, equipamentos, medicamentos e diversos bens intermédios. Uma depreciação rápida do Metical aumentaria o custo destas aquisições e poderia transmitir-se aos preços internos.

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística mostram que a inflação homóloga atingiu 7,51% em Junho, enquanto a inflação acumulada desde o início do ano se situou em 5,40%. 

Neste contexto, a estabilidade do USD/MZN reduz uma das potenciais fontes de aceleração dos preços. Não elimina, porém, outros riscos, nomeadamente os custos internacionais da energia, alimentos, transporte e perturbações logísticas.

Diferença Entre Segmentos Exige Leitura Mais Ampla

O encerramento de Julho apresenta duas realidades cambiais.

No sistema bancário, o Metical manteve-se estável, com a taxa média efectiva próxima da referência oficial. Nas casas de câmbio, o dólar permaneceu acima de 70 meticais e apresentou uma diferença próxima de 10% face à média dos bancos.

A divergência significa que a experiência cambial depende do canal de acesso à moeda estrangeira.

Grandes empresas e clientes bancarizados podem negociar volumes e condições diferentes. Pequenos operadores e particulares que necessitam de numerário ou transacções imediatas enfrentam taxas mais elevadas.

Para a avaliação do mercado, não é suficiente observar apenas a taxa de referência. É necessário acompanhar as taxas efectivas, os volumes transaccionados, o diferencial entre segmentos e a disponibilidade real de divisas.

Empresas Devem Separar Estabilidade De Disponibilidade

Para as empresas moçambicanas, a ausência de depreciação da taxa de referência oferece previsibilidade na elaboração de orçamentos e contratos.

Contudo, estabilidade de preço não equivale necessariamente a disponibilidade imediata de moeda estrangeira.

Uma empresa pode encontrar uma taxa estável, mas enfrentar prazos, limites operacionais ou custos adicionais para executar pagamentos externos. Os boletins analisados mostram que os fluxos entre compras e vendas variaram consideravelmente de um dia para outro.

Importadores, empresas com dívida externa e operadores dependentes de matérias-primas estrangeiras deverão acompanhar não apenas a cotação, mas também a liquidez cambial do seu banco e o custo efectivo de execução das operações.

Mercado Encerra Julho Com Sinais Mistos

A analise Os cinco Diários dos Mercados apresentam um Metical estável, uma captação líquida de divisas pelos bancos e uma transmissão regular da taxa MIMO ao mercado interbancário.

Ao mesmo tempo, mostram o aprofundamento do défice médio de liquidez em moeda nacional, a utilização simultânea das facilidades de cedência e depósito e uma diferença persistente entre bancos comerciais e casas de câmbio.

A leitura conjunta indica que a estabilidade cambial permanece preservada, mas assenta num mercado segmentado e numa gestão monetária activa.

Para Agosto, os principais indicadores serão a evolução da oferta de divisas, a capacidade de normalizar o desvio das reservas obrigatórias, o comportamento das casas de câmbio e o impacto da inflação sobre as decisões do Banco de Moçambique.