Sector Privado Ganha Força, Mas Recuperação Ainda Não Cria Emprego E Acelera Preços – PMI

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  • A actividade empresarial registou, em Julho, o desempenho mais favorável dos últimos três anos, apoiada pelo crescimento das encomendas, produção e confiança. A recuperação, porém, foi acompanhada pela primeira redução do emprego desde Maio de 2025 e pela maior subida dos custos dos factores de produção em mais de quatro anos.
Questões-Chave:
  • O PMI de Moçambique subiu para 51,4 pontos, o nível mais elevado em exactamente três anos;
  • As novas encomendas cresceram ao ritmo mais rápido dos últimos oito meses;
  • A produção registou, em conjunto com Julho de 2025, a expansão mais forte em três anos;
  • A confiança empresarial atingiu o nível mais alto desde Outubro de 2022;
  • Apesar da melhoria da actividade, o emprego diminuiu pela primeira vez desde Maio de 2025;
  • Os custos dos factores de produção aumentaram ao ritmo mais rápido desde Maio de 2022;
  • As empresas elevaram os preços de venda com a maior intensidade em pouco mais de quatro anos;
  • O Standard Bank antecipa crescimento económico ainda lento e novas pressões inflacionárias.

Sector Privado Sai De Três Meses De Estagnação

As condições de actividade do sector privado moçambicano registaram, em Julho, a melhoria mais forte dos últimos três anos, apoiadas pelo aumento da procura, pela recuperação da produção e por uma maior aquisição de factores de produção pelas empresas.

O Standard Bank Mozambique Purchasing Managers’ Index — PMI, compilado pela S&P Global, subiu de 50 pontos, em Junho, para 51,4 pontos, em Julho. Uma leitura superior a 50 indica melhoria das condições empresariais em relação ao mês anterior, enquanto valores inferiores sinalizam deterioração.

Segundo o relatório divulgado nesta quarta-feira, 5 de Agosto, a subida representa o fim de três meses de estagnação e a leitura mais elevada desde Julho de 2023. O índice tinha permanecido abaixo dos 50 pontos em Abril e Maio, antes de recuperar para o nível neutro em Junho.

O resultado mostra uma mudança positiva na direcção da actividade, mas a diferença de apenas 1,4 pontos acima do limiar de neutralidade ainda descreve uma expansão moderada. O PMI confirma que um número maior de empresas reportou melhoria, sem indicar, por si só, a dimensão absoluta do crescimento da produção ou das receitas.

Encomendas Crescem Ao Ritmo Mais Rápido Em Oito Meses

A recuperação foi liderada pelo aumento das novas encomendas, que atingiram o ritmo de crescimento mais elevado desde Novembro de 2025 e um dos mais fortes observados nos últimos três anos.

As empresas consultadas pelo Standard Bank e pela S&P Global atribuíram a melhoria ao fortalecimento da procura dos clientes, a condições mais favoráveis nos mercados externos, à chegada de mercadorias anteriormente encomendadas e à melhoria das posições de tesouraria.

A combinação entre procura, disponibilidade de stocks e maior liquidez permitiu às empresas aumentar a actividade e responder aos compromissos comerciais existentes.

O comportamento das encomendas constitui um sinal relevante, porque tende a anteceder decisões de produção, compras e contratação. Quando as empresas recebem mais pedidos, aumentam normalmente o uso da capacidade instalada e, caso a tendência se mantenha, expandem investimento e emprego.

Em Julho, porém, essa transmissão ocorreu apenas parcialmente: a produção e as compras aumentaram, mas o emprego recuou.

Produção Regista Maior Expansão Em Três Anos

Os níveis de produção acompanharam a recuperação das vendas, registando a expansão conjunta mais forte dos últimos três anos, igualando o desempenho observado em Julho de 2025.

De acordo com o inquérito, as empresas elevaram a produção para melhorar a produtividade e concluir encomendas. Algumas indicaram, contudo, que as pressões sobre os preços dos factores de produção limitaram a intensidade da expansão, por exemplo, os índices de novas encomendas e de produção avançaram em simultâneo e se posicionaram claramente acima dos 50 pontos em Julho.

A convergência dos dois indicadores constitui um sinal mais favorável do que uma recuperação isolada da produção. Sugere que o aumento da actividade foi sustentado por procura efectiva, e não apenas por reposição de existências ou conclusão de trabalhos anteriores.

Ainda assim, será necessário observar se a tendência se mantém nos próximos meses, sobretudo perante o aumento dos custos, as limitações cambiais e a nova perturbação no abastecimento de combustíveis.

Confiança Empresarial Atinge Máximo Desde Outubro De 2022

As expectativas das empresas para os próximos 12 meses melhoraram pelo segundo mês consecutivo, atingindo o nível mais elevado desde Outubro de 2022.

O Standard Bank indica que 59% das empresas esperam aumentar a actividade durante o próximo ano, enquanto apenas 1% antecipa uma redução. Quatro dos cinco sectores acompanhados reportaram melhoria da confiança, sendo a agricultura a única excepção.

As empresas associaram o optimismo a planos de abertura de novas agências, contratação futura de trabalhadores e investimento em maquinaria, stocks e marketing.

Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank Moçambique, considera que esta melhoria poderá reflectir expectativas de que o avanço dos projectos de gás natural liquefeito aumente a procura agregada durante os próximos 12 meses.

Fáusio Mussá

A perspectiva de maior actividade nos projectos de gás pode gerar procura directa e indirecta por transporte, construção, alojamento, alimentação, serviços profissionais, equipamentos e fornecimentos locais. A extensão deste efeito dependerá, contudo, do ritmo de execução dos projectos e da capacidade das empresas nacionais para entrarem nas respectivas cadeias de fornecimento.

Emprego Recua Apesar Do Optimismo

O comportamento do emprego constitui a principal reserva à leitura positiva do PMI.

Apesar do aumento das encomendas, da produção e da confiança, as empresas reduziram os seus quadros pela primeira vez desde Maio de 2025. A diminuição foi marginal, mas incluiu despedimentos e saídas não substituídas.

Segundo a S&P Global, a redução do emprego ocorreu em simultâneo com a maior diminuição do trabalho pendente desde Novembro de 2022. Esta combinação indica que as empresas dispunham de capacidade suficiente para responder às encomendas actuais sem aumentar o número de trabalhadores.

Fáusio Mussá considera que a descida do subíndice do emprego para um nível inferior a 50 mostra que o crescimento continua frágil.

A divergência entre produção e emprego pode resultar de maior utilização da capacidade existente, aumento da produtividade, recurso a horas adicionais ou prudência das empresas perante a incerteza económica.

Também pode indicar que o nível actual das encomendas ainda não é suficientemente elevado ou previsível para justificar contratações permanentes.

Crescimento Sem Emprego Limita Alcance Da Recuperação

Uma recuperação empresarial que não cria emprego possui menor capacidade de se transformar em crescimento económico abrangente.

A expansão do emprego aumenta o rendimento das famílias, apoia o consumo e reforça a procura por bens e serviços. Quando a produção cresce sem contratação, os ganhos podem permanecer concentrados nas empresas que conseguem utilizar melhor a sua capacidade já instalada.

Para Moçambique, onde a criação de postos de trabalho formais permanece abaixo das necessidades de uma população jovem e em crescimento, a evolução do emprego deverá ser um dos principais indicadores a acompanhar nas próximas edições do PMI.

As intenções de contratação anunciadas pelas empresas oferecem uma perspectiva positiva, mas ainda não se converteram em decisões efectivas.

A sustentabilidade do crescimento dependerá, portanto, da passagem de uma fase de recuperação da utilização da capacidade para uma fase de investimento, expansão operacional e aumento dos quadros.

Custos Sobem Ao Ritmo Mais Forte Desde Maio De 2022

A expansão da actividade ocorreu paralelamente a uma aceleração significativa dos custos empresariais.

O relatório revela que os preços dos factores de produção aumentaram ao ritmo mais rápido desde Maio de 2022. Cerca de 16% das empresas reportaram crescimento dos custos em relação a Junho, enquanto apenas 4% indicaram uma redução.

As maiores pressões foram observadas nos sectores de comércio grossista e retalhista e nos serviços.

As empresas relacionaram o aumento com a combinação entre maior procura, oferta reduzida de determinados produtos, encarecimento de matérias-primas e escassez de combustíveis.

A inflação dos preços de aquisição atingiu, em conjunto com Agosto de 2024 e Janeiro de 2026, o ritmo mais elevado em mais de três anos, uma subida particularmente acentuada do índice de custos dos factores de produção em Julho, contrastando com a relativa estabilidade observada durante grande parte dos meses anteriores.

Escassez De Combustíveis Já Pressionava Empresas Em Julho

Os dados do PMI foram recolhidos entre 9 e 28 de Julho, período durante o qual várias empresas já reportavam dificuldades no acesso a combustíveis e outros factores de produção.

Isto significa que as pressões identificadas no relatório antecedem o regresso mais visível das filas nos postos de abastecimento de Maputo e Matola no início de Agosto.

O inquérito mostra, assim, que os problemas de abastecimento já estavam a produzir efeitos sobre os custos empresariais antes de a perturbação ganhar maior dimensão pública.

A persistência da escassez poderá agravar os custos de transporte, distribuição e produção nas próximas semanas, afectando os próximos resultados do PMI.

O combustível possui um efeito transversal: além de representar uma despesa directa para transportadores e empresas, influencia os preços de mercadorias, serviços logísticos e matérias-primas movimentadas por estrada.

Empresas Transferem Custos Para Os Consumidores

Perante o aumento das despesas, as empresas elevaram os preços de venda com maior intensidade.

O Standard Bank indica que o aumento médio dos preços cobrados aos clientes foi o mais expressivo em pouco mais de quatro anos. As empresas justificaram a decisão com a necessidade de compensar o encarecimento dos factores de produção e de se proteger contra novas subidas, sobretudo perante a continuidade das limitações no abastecimento de combustíveis.

Esta transmissão dos custos empresariais para os preços finais constitui um sinal de inflação de segunda ronda.

O choque inicial sobre combustíveis e matérias-primas deixa de afectar apenas os bens directamente envolvidos e passa a incorporar-se nos preços de serviços, transporte, comércio e produção.

Fáusio Mussá advertiu que a capacidade demonstrada pelas empresas para aumentar os preços e ampliar margens é consistente com a expectativa do Standard Bank de nova aceleração da inflação.

Inflação Anual Já Atingiu 7,51% Em Junho

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística — INE indicam que a inflação anual de Moçambique atingiu 7,51% em Junho, enquanto a variação acumulada desde o início do ano se situou em 5,4%.

O INE atribuiu parte importante da aceleração aos transportes e aos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas, componentes particularmente sensíveis aos preços dos combustíveis e aos custos logísticos. 

O Standard Bank considera que os efeitos indirectos do ajustamento dos preços dos combustíveis realizado em Maio continuarão a repercutir-se sobre a inflação.

O banco identifica igualmente riscos de inflação importada provenientes da África do Sul, onde a inflação anual atingiu 5% em Junho, influenciada pelas perturbações energéticas internacionais.

A África do Sul é a principal origem de grande parte dos produtos, equipamentos e factores de produção adquiridos por empresas moçambicanas. O aumento dos preços naquele mercado pode, por isso, ser transmitido através das importações, mesmo quando a taxa de câmbio permanece relativamente estável.

Política Monetária Enfrenta Equilíbrio Mais Difícil

O aumento das pressões sobre os preços ocorre num momento em que o Banco de Moçambique procura equilibrar a necessidade de controlar a inflação com a fragilidade da recuperação económica.

Em 29 de Julho, o Comité de Política Monetária manteve a taxa MIMO em 9,25%, sinalizando prudência perante a evolução dos preços e os riscos associados à conjuntura interna e internacional. 

A aceleração dos custos registada pelo PMI poderá limitar o espaço para novos cortes rápidos das taxas de juro.

Uma política monetária mais restritiva ajuda a controlar a inflação e a proteger a estabilidade cambial, mas mantém elevado o custo do crédito para empresas e famílias.

O desafio consiste em impedir que o aumento dos combustíveis e das matérias-primas produza uma espiral de preços, sem interromper a recuperação ainda moderada da actividade privada.

Compras E Inventários Regressam Ao Crescimento

A melhoria das vendas levou as empresas a aumentarem novamente a compra de factores de produção, encerrando uma sequência de quatro meses de redução.

Cerca de 14% das empresas elevaram as aquisições em Julho, enquanto 9% reportaram diminuição. O aumento foi associado a maiores vendas e necessidades operacionais.

Como resultado, os stocks de compras voltaram a crescer depois de três meses consecutivos de queda, embora a expansão tenha sido marginal e concentrada nos sectores da agricultura e dos serviços.

A reposição dos inventários constitui um sinal de maior confiança na continuidade das operações. Contudo, também aumenta a procura por divisas, transporte e produtos importados.

Num contexto de liquidez cambial limitada, a recuperação das compras poderá colocar pressão adicional sobre a capacidade das empresas para financiar importações.

Liquidez Cambial Continua A Condicionar Empresas

Apesar da melhoria do PMI, o Standard Bank mantém uma avaliação prudente sobre o ambiente macroeconómico.

Fáusio Mussá refere que Moçambique continua a enfrentar desafios fiscais e de liquidez em moeda externa acumulados ao longo de vários anos.

A melhoria das posições de tesouraria reportada por algumas empresas em Julho não significa que os constrangimentos cambiais tenham desaparecido.

Empresas dependentes de matérias-primas, equipamentos, peças e mercadorias importadas continuam expostas ao acesso às divisas, aos prazos bancários e aos custos de financiamento do comércio externo.

O aumento das encomendas pode, por isso, transformar-se numa pressão adicional sobre o capital circulante, sobretudo quando as empresas precisam de pagar antecipadamente pelas importações, mas recebem dos seus clientes apenas depois da entrega.

Entregas Melhoram, Mas Ligações Com África Do Sul Mantêm Riscos

Os prazos de entrega dos fornecedores melhoraram pelo segundo mês consecutivo em Julho, embora a evolução tenha permanecido abaixo da média histórica.

Algumas empresas reportaram entregas mais rápidas. Outras indicaram perturbações no transporte rodoviário proveniente da África do Sul, associadas a ataques contra migrantes.

A referência mostra a exposição das cadeias de abastecimento moçambicanas aos acontecimentos sociais e logísticos no país vizinho.

Uma parte significativa das mercadorias importadas por Moçambique entra através das fronteiras rodoviárias com a África do Sul. Interrupções nas estradas, violência contra transportadores ou atrasos fronteiriços podem reduzir rapidamente a disponibilidade de produtos e elevar os custos.

A diversificação de fornecedores, rotas e níveis de stock torna-se, assim, um instrumento de gestão de risco para as empresas.

LNG Sustenta Expectativas, Mas Não Elimina Crescimento Lento

O Standard Bank considera que os avanços nos projectos de gás natural liquefeito poderão aumentar a procura agregada e melhorar o ambiente empresarial durante os próximos 12 meses.

Essa expectativa ajuda a explicar a forte subida do indicador de confiança, apesar das dificuldades fiscais, cambiais e inflacionárias.

O optimismo empresarial não equivale, entretanto, a uma previsão de crescimento económico acelerado.

O Standard Bank continua a antecipar uma expansão lenta do Produto Interno Bruto. O Fundo Monetário Internacional projecta um crescimento real de apenas 0,5% para Moçambique em 2026, reflectindo os efeitos acumulados dos choques internos, das limitações fiscais e da fragilidade de vários sectores da economia. 

O PMI e o PIB medem dimensões diferentes. O primeiro identifica a direcção mensal das condições de actividade numa amostra de empresas privadas. O segundo mede o valor agregado produzido por toda a economia.

Uma melhoria do PMI pode anteceder uma recuperação do PIB, mas não garante, por si só, que a economia crescerá de forma rápida ou abrangente.

El Niño Introduz Novo Risco Para O Final Do Ano

O Standard Bank alerta ainda para a possibilidade de um episódio intenso de El Niño provocar chuvas abaixo da média a partir do quarto trimestre de 2026.

O impacto poderá ser particularmente relevante para a agricultura, sector que não acompanhou a melhoria de confiança registada nas restantes actividades monitorizadas pelo PMI.

Chuvas reduzidas podem afectar culturas, disponibilidade de alimentos, rendimento das famílias rurais e geração hidroeléctrica.

Uma produção agrícola mais baixa tende igualmente a aumentar os preços dos alimentos e as necessidades de importação, ampliando simultaneamente as pressões inflacionárias e cambiais.

O risco climático acrescenta, assim, uma limitação importante à expectativa de maior crescimento durante os próximos meses.

PMI É Um Sinal Antecipado, Não Uma Medição Completa Da Economia

O índice é elaborado pela S&P Global a partir de respostas enviadas por gestores de compras de aproximadamente 400 empresas privadas.

A amostra abrange agricultura, mineração, indústria, construção, comércio, transportes, alojamento, informação, finanças e outros serviços. Os resultados indicam a direcção da mudança em comparação com o mês anterior.

O PMI principal resulta da combinação ponderada de cinco componentes: novas encomendas, com 30%; produção, com 25%; emprego, com 20%; prazos de entrega, com 15%; e stocks de compras, com 10%.

A leitura de 51,4 não significa que a economia ou as empresas tenham crescido 1,4%. Significa que as respostas positivas superaram as negativas o suficiente para colocar o índice nesse nível.

O indicador também não cobre integralmente o sector informal, que representa uma parcela significativa da actividade e do emprego em Moçambique.

Melhoria É Real, Mas Ainda Desequilibrada

O PMI de Julho apresenta o sinal empresarial mais favorável dos últimos três anos.

As encomendas aumentaram, a produção ganhou ritmo, as compras recuperaram e a maioria das empresas espera crescer durante os próximos 12 meses.

Ao mesmo tempo, o emprego diminuiu, os custos aceleraram para o máximo desde Maio de 2022 e as empresas transferiram uma parte mais elevada dessas despesas para os preços cobrados aos clientes.

A leitura principal não é, portanto, apenas a de recuperação. É a de uma recuperação ainda desequilibrada: mais actividade e confiança, mas sem criação imediata de emprego e com risco crescente de inflação.

Para que o resultado de Julho se transforme numa trajectória económica mais sólida, será necessário manter o crescimento das encomendas, reduzir as perturbações no abastecimento, melhorar a disponibilidade de divisas e converter as intenções de expansão empresarial em investimento e contratação efectiva.