• IIAM e Centro de Comércio Internacional testam aproveitamento de resíduos do café para produção artesanal de sabonetes, numa iniciativa que combina transformação local, economia circular e empreendedorismo feminino. Num sector ainda em construção, o exercício mostra que o valor económico do café pode estender-se muito para além da venda do grão.
Questões-Chave:
  • Mulheres empreendedoras e técnicas de agro-processamento foram capacitadas em Maputo para transformar borra de café em sabonetes artesanais, numa iniciativa do IIAM e do Centro de Comércio Internacional;
  • A formação integra o programa ACP Business Friendly e procura ampliar o aproveitamento económico da cadeia do café através de novos produtos, boas práticas de produção e ligação aos mercados;
  • O modelo introduz uma lógica de economia circular, convertendo um resíduo normalmente descartado numa matéria-prima para produtos com potencial comercial;
  • Para uma cadeia cafeeira moçambicana ainda emergente, a agregação de valor poderá assumir particular importância na criação de pequenas empresas, diversificação de rendimentos e desenvolvimento de mercados;
  • O desafio económico será transformar experiências de capacitação em negócios viáveis, com qualidade, escala, certificação, canais de distribuição e procura efectiva;

A cadeia produtiva do café em Moçambique começa a explorar uma dimensão que vai além da expansão das plantações e comercialização do grão: a criação de valor a partir dos próprios resíduos gerados pelo consumo e processamento do produto.

O Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), em parceria com o Centro de Comércio Internacional (ITC), realizou recentemente, em Maputo, uma formação dirigida a mulheres empreendedoras e técnicas de agro-processamento sobre a utilização da borra de café na produção artesanal de sabonetes.

A iniciativa integra o programa ACP Business Friendly e pretende desenvolver capacidades técnicas, disseminar boas práticas de produção e estimular novas oportunidades empresariais associadas à cadeia do café.

Durante a formação, as participantes aprenderam técnicas de produção de sabonetes de glicerina e de produtos elaborados através do processo de saponificação com soda cáustica, utilizando a borra de café como um dos componentes.

Do Resíduo À Matéria-Prima

Economicamente, o aspecto mais relevante da iniciativa está na transformação daquilo que normalmente termina como resíduo em insumo para uma nova actividade produtiva.

A lógica é simples: quanto maior for o número de produtos e actividades económicas que podem resultar de uma determinada matéria-prima, maior tende a ser a capacidade da respectiva cadeia de valor para gerar rendimento.

No caso do café, grande parte da discussão em países produtores concentra-se tradicionalmente na produtividade, qualidade do grão, processamento, torrefacção, embalagem e acesso aos mercados.

O aproveitamento dos resíduos introduz uma camada adicional.

A borra deixa de representar apenas o fim do ciclo de consumo do café e passa a constituir matéria-prima para outra actividade, prolongando a utilização económica do produto e abrindo espaço para pequenos negócios de transformação.

É uma aplicação prática da economia circular: reduzir desperdício e, simultaneamente, procurar criar valor comercial.

Novos Produtos Podem Ampliar A Economia Do Café

A formação realizada pelo IIAM e ITC não se limitou à utilização simples da borra.

As participantes exploraram igualmente a incorporação de ingredientes naturais como gengibre, açafrão e argilas, permitindo desenvolver diferentes formulações e adaptar os produtos às características e preferências dos consumidores.

Esta diferenciação é particularmente relevante para pequenos negócios.

Em mercados onde competir apenas por preço pode ser difícil, atributos ligados à origem dos ingredientes, formulação, apresentação, sustentabilidade ou especificidade do produto podem criar nichos com maior valor unitário.

No entanto, passar de uma formação técnica para uma actividade empresarial sustentável exige uma cadeia adicional de capacidades: definição do produto, custos, embalagem, marca, segurança, certificação, distribuição e acesso aos consumidores.

É nesta passagem entre saber produzir e conseguir vender que se determinará o verdadeiro resultado económico da experiência.

Segurança E Qualidade Também São Parte Da Competitividade

A utilização de soda cáustica na produção de sabonetes exige procedimentos técnicos rigorosos.

Durante a formação, foi sublinhada a necessidade do cumprimento das normas de segurança, tanto para proteger quem produz como para assegurar a qualidade do produto final e evitar riscos para os consumidores.

Este elemento tem uma dimensão económica frequentemente subestimada.

À medida que pequenos produtores procuram sair do mercado estritamente informal e alcançar canais comerciais mais estruturados, a qualidade e segurança deixam de ser apenas questões técnicas: tornam-se condições de acesso ao mercado.

Um produto pode ser inovador e utilizar matérias-primas locais, mas dificilmente consegue crescer de forma sustentável sem consistência de qualidade, embalagem adequada, informação ao consumidor e cumprimento das normas aplicáveis.

Para as micro e pequenas empresas, essas exigências podem representar custos adicionais, mas são igualmente o caminho para alcançar mercados de maior escala e maior valor.

Café É Uma Cadeia Estratégica Ainda Em Construção

A experiência ocorre num momento em que Moçambique procura estruturar de forma mais consistente a sua economia do café.

A FAO refere que o Governo identificou o café como uma cadeia de valor estratégica, com potencial para criação de emprego, aumento dos rendimentos rurais e diversificação agrícola. Moçambique aderiu à Organização Internacional do Café em 2023, num movimento associado à intenção de modernizar e desenvolver o sector. 

Na província de Manica, o Programa Integrado de Desenvolvimento Agrícola do Corredor da Beira está, por exemplo, a apoiar novas plantações de café Arábica, assistência técnica e articulação entre produtores, instituições de investigação e sector privado. A FAO considera que o sector moçambicano continua numa fase de formação, tornando particularmente importante o investimento em investigação, tecnologia, qualidade e acesso aos mercados. 

O ITC, por sua vez, tem vindo a desenvolver capacitações que abrangem cultivo, gestão das explorações, transplante de mudas e outras componentes da profissionalização da cadeia cafeeira moçambicana. 

Isto significa que o aproveitamento da borra para sabonetes deve ser entendido dentro de uma transformação mais ampla: produzir mais café, aumentar a qualidade e, paralelamente, capturar maior valor em diferentes etapas da cadeia.

Mulheres Podem Ocupar Novos Segmentos Da Cadeia

A concentração da capacitação em mulheres empreendedoras acrescenta outra dimensão económica.

As cadeias agrícolas não geram rendimento exclusivamente dentro das explorações. Processamento, comercialização, embalagem, retalho e transformação de subprodutos podem criar actividades empresariais acessíveis a operadores de menor dimensão.

O próprio ITC tem associado a construção da cadeia moçambicana do café à criação de oportunidades empresariais para mulheres e à perspectiva de desenvolvimento de marcas nacionais lideradas por empreendedoras moçambicanas. 

A importância desta abordagem reside em ampliar os pontos de entrada na cadeia.

Nem todo o empreendedor associado ao café precisa de possuir uma plantação. Pode existir actividade económica na torrefacção, cafetaria, distribuição, embalagem, cosmética artesanal, fertilizantes orgânicos e outros usos dos subprodutos.

Uma cadeia mais diversificada tende, por isso, a oferecer maior capacidade de retenção local de rendimento.

Formação Precisa De Encontrar Mercado

O passo seguinte será, contudo, decisivo.

A produção experimental de sabonetes demonstra que existe uma possibilidade técnica de agregação de valor. Não demonstra ainda que exista um negócio economicamente sustentável.

Para isso, será necessário testar custos de produção, capacidade de compra dos consumidores, preço aceitável, dimensão da procura, requisitos sanitários, fornecimento regular das matérias-primas e capacidade de distribuição.

Também será necessário perceber se estas iniciativas conseguem evoluir de pequenos lotes artesanais para unidades empresariais capazes de gerar rendimentos consistentes.

Este é um ponto central para programas de empreendedorismo: o número de pessoas capacitadas é um indicador de actividade; empresas criadas, vendas realizadas, empregos gerados e rendimento produzido são indicadores económicos de resultado.

Agregar Valor Antes E Depois Da Chávena

O desenvolvimento do café moçambicano enfrenta ainda desafios de escala, produtividade, processamento, conhecimento técnico e posicionamento comercial.

Mas precisamente por se encontrar numa fase emergente, existe espaço para construir uma cadeia menos concentrada exclusivamente na produção primária.

A lógica de valor acrescentado pode começar antes da colheita, através de melhores variedades e produtividade; continuar no processamento, torrefacção e embalagem; chegar à comercialização de café de qualidade; e prolongar-se mesmo depois da chávena, através do reaproveitamento dos resíduos.

A formação promovida pelo IIAM e ITC é ainda uma experiência de pequena escala.

A sua relevância económica está, contudo, na ideia que demonstra: numa cadeia de valor, aquilo que parece ser o fim de um produto pode constituir o início de outro negócio.

Para Moçambique, particularmente, a oportunidade será transformar essa lógica numa capacidade empresarial mais ampla — capaz de fazer com que uma maior parcela do valor gerado pelo café permaneça na economia nacional.

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