
Retoma Do Mozambique LNG E Desenvolvimento Socioeconómico: Gás Tem Que Ser Fonte da Transformação Económica
- Especialistas da Totalenergies E Exxonmobil Consideram Conteúdo Local, Desenvolvimento Da Força De Trabalho E Participação Das Comunidades Como Condições Para Que A Retoma Dos Projectos De GNL Produza Benefícios Mais Amplos Para A Economia Moçambicana
- TotalEnergies estima em USD 20 mil milhões o investimento inicial para o Rovuma LNG, montante superior ao actual PIB anual da economia de Moçambique;
- TotalEnergies prevê gastar USD 4,5 mil milhões na aquisição de bens e serviços a empresas moçambicanas, no âmbito do conteúdo local;
- Mozambique LNG vai gerar 9.000 empregos para moçambicanos no pico da construção do projecto, além de novas oportunidades para trabalhadores, empresas fornecedoras e prestadores de serviços nacionais;
- Programas sociais durante o período de força maior mobilizaram cerca de USD 80 milhões entre 2021 e 2024, segundo a apresentação;
- Multinacionais defendem maior integração de trabalhadores, fornecedores e comunidades locais na cadeia de valor do gás.
A retoma dos grandes projectos de gás na Bacia do Rovuma está a ser apresentada pelas empresas do sector como uma oportunidade que ultrapassa a produção de GNL e deve traduzir-se em emprego, desenvolvimento de fornecedores nacionais, aumento das receitas públicas e dinamização das economias locais, sobretudo em Cabo Delgado.
Esta foi uma das principais mensagens transmitidas durante o encontro dedicado às expectativas em torno da retoma do Mozambique LNG, durante uma mesa redonda organizada na cidade de Maputo nesta quarta-feira (26.08.2026), onde representantes da TotalEnergies e da ExxonMobil apresentaram a dimensão dos projectos e os mecanismos que, segundo as empresas, podem ampliar o impacto socioeconómico do investimento.
A directora dos Assuntos Corporativos da TotalEnergies, Mary Begg-Saffar, defendeu que a dimensão e a complexidade dos projectos de GNL exigem uma abordagem que combine segurança operacional, responsabilidade empresarial e maximização dos benefícios para o país.
Mary Begg-Saffar, sublinhou que a produção de gás natural liquefeito envolve uma cadeia industrial de elevada complexidade, desde a extracção do gás no subsolo marinho até ao seu processamento, liquefacção, armazenamento e transporte. Essa dimensão, segundo a explicação dada, traduz-se igualmente em elevadas necessidades de investimento e oportunidades económicas ao longo da cadeia de fornecimento.
Na sua apresentação, Mary Begg-Saffar destacou ainda o potencial energético do gás natural para responder às necessidades presentes e futuras de Moçambique, incluindo a produção de electricidade, mas reconheceu que a existência de recursos naturais não garante, por si só, benefícios generalizados à população.
“A questão central passa, por isso, pela forma como os recursos e os investimentos são administrados”.
Conteúdo Local Como Instrumento De Desenvolvimento Com A Retoma Do Projecto Rovuma LNG
Na perspectiva da ExxonMobil, , o impacto económico deve ser pensado para além do simples volume de produção de gás.
Na sua apresentação, a Gestora Socioeconómica da ExxonMobil Mozambique, Lucy Jason, defendeu uma abordagem assente em desenvolvimento da força de trabalho, desenvolvimento de fornecedores locais e investimento nas comunidades.
Lucy Jason, refere que a empresa utiliza globalmente uma abordagem de gestão socioeconómica baseada, entre outros elementos, na identificação dos impactos, no envolvimento das comunidades e na criação de mecanismos para apresentação e resolução de reclamações.
Para a ExxonMobil, o conceito não deve limitar-se ao cumprimento formal de requisitos de conteúdo local. O objectivo deve ser garantir que os benefícios de um investimento desta dimensão sejam sentidos tanto nas comunidades directamente afectadas como no conjunto da economia nacional.
A estratégia da multinacional Lucy Jason, prevê, por isso, o desenvolvimento de trabalhadores moçambicanos, a utilização de fornecedores nacionais e investimentos comunitários.
Bacia Do Rovuma Coloca Moçambique Entre Os Grandes Potenciais Produtores De GNL
Os números apresentados no encontro ajudam a dimensionar a escala económica esperada para a Bacia do Rovuma com a retoma do Mozambique LNG.
Dados tornados públicos durante o evento, aponta que Moçambique possui mais de 100 trilhão de pés cúbicos (TCF) de gás natural recuperável, colocando o país entre os 15 países com maiores reservas recuperáveis, com potencial para sustentar mais de 50 milhões de toneladas por ano de GNL, equivalente a cerca de 10% da procura mundial actual.
Na Área 1, são apontados 65 TCF de gás descoberto, enquanto o desenvolvimento inicial é estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares, descrito como um dos maiores investimentos industriais de África.
Os dados estimam ainda cerca de 4,5 mil milhões de dólares em despesas com empresas registadas em Moçambique e até 9.000 empregos para moçambicanos no pico da construção.
Do lado do Estado, as estimativas apresentadas apontam para aproximadamente 800 milhões de dólares em receitas fiscais durante a fase de construção. Já durante os 25 anos de produção, o fluxo de caixa acumulado para o Governo e a ENH foi estimado entre 40 mil milhões e 100 mil milhões de dólares, dependendo da evolução dos preços do petróleo.
Cabo Delgado No Centro Da Equação Transformar O Investimento Em Desenvolvimento Económico
Apesar da dimensão nacional dos projectos, Cabo Delgado surge como o principal território onde será testada a capacidade de transformar o investimento em desenvolvimento económico.
A apresentação da TotalEnergies durante a mesa redonda em torno das expectativas da retoma do Mozambique LNG, aponta para 8.500 empregos criados, cerca de 5.000 agricultores envolvidos em programas de desenvolvimento agrícola e aproximadamente 2.000 pescadores apoiados.
A intervenção da ExxonMobil reforçou precisamente essa dimensão territorial. A empresa considera que, embora os benefícios devam alcançar todo o país, o maior impacto directo ocorrerá nas comunidades e na região onde os projectos serão implementados.
A lógica apresentada é particularmente relevante para Cabo Delgado, onde a retoma dos projectos ocorre num contexto marcado pelos efeitos da instabilidade e pela necessidade de reconstrução económica e social.
Totalenergies Alocou Cerca De USD 80 Milhões Durante O Período De Força Maior
Mesmo durante o período em que o projecto permaneceu sob força maior, a apresentação da TotalEnergies destacou a manutenção de programas sociais. Entre 2021 e 2024, foram apresentados cerca de 80 milhões de dólares em despesas com programas sociais, com impacto estimado em mais de 50 mil pessoas.
Os programas abrangeram áreas como saúde, educação, água potável, agricultura e pescas, incluindo a construção e equipamento de escolas resilientes, formação de professores, apoio a mais de 5.000 agricultores e mais de 2.000 pescadores e iniciativas destinadas a apoiar o regresso e a estabilização das comunidades de Palma e Mocímboa da Praia.
A empresa apresentou estas intervenções como parte de uma estratégia de redução da vulnerabilidade das comunidades locais, e não apenas como iniciativas associadas à construção das infra-estruturas de gás.
O Desafio Passa Agora Da Expectativa À Materialização Dos Projectos Com Impacto Na Economia Real
O encontro deixou, contudo, uma questão económica central sobre a Retoma do Mozambique LNG e as expectativas em volta do impacto económico e desenvolvimento local a ser criado por cada projecto na Bacia do Rovuma. Como garantir que a dimensão financeira dos projectos se converta numa capacidade produtiva permanente para Moçambique?
A resposta apresentada pelas empresas passa por uma maior articulação entre Governo, sector privado, comunidades e sociedade civil. Para a ExxonMobil, três condições são fundamentais: objectivos comuns, colaboração e clareza sobre os papéis e responsabilidades de cada interveniente.
A mensagem partilhada no Expert Meeting sobre as Implicações, Expectativas e Realidades em Torno dos Projectos Mozambique LNG, ganha particular importância numa fase em que o país se prepara para retomar investimentos de grande escala no sector do gás.
O desafio colocado pelos participantes passa pela necessidade de avaliar quantas empresas moçambicanas conseguem entrar na cadeia de fornecimento, quantos trabalhadores nacionais adquirem competências transferíveis, quanto valor permanece na economia e em que medida Cabo Delgado consegue converter o ciclo do gás numa base para diversificação económica.
É precisamente nessa capacidade de transformar um recurso natural de dimensão mundial em capital humano, empresas competitivas, infra-estruturas, receitas públicas e actividade económica sustentável que estará uma das principais medidas do impacto económico da nova fase do gás em Moçambique.
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