União Africana Aponta Moçambique Como Alternativa Energética Global E Futuro Campeão Da Economia Azul

0
41
  • Presidente da Comissão da União Africana afirma que o país emerge como alternativa estratégica face às incertezas energéticas globais e pode liderar a transformação da economia azul em África.
Questões-Chave:
  • União Africana considera Moçambique uma alternativa energética estratégica para África e para o mundo;
  • Conflito no Médio Oriente reforça importância geopolítica dos recursos energéticos offshore moçambicanos;
  • País é apontado como potencial "campeão continental" da economia azul;
  • Economia azul poderá impulsionar crescimento, emprego e integração regional;
  • União Africana alerta para os impactos das alterações climáticas, pesca ilegal e terrorismo;
  • Especialistas defendem maior investimento em tecnologia, infra-estruturas e conservação marinha.

Moçambique está a consolidar-se como um dos países africanos com maior relevância estratégica na nova geografia energética e marítima global. A avaliação foi apresentada pelo Presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, que considera que o país reúne condições para se afirmar simultaneamente como uma alternativa energética global e como uma das principais plataformas da economia azul no continente africano.

As declarações foram feitas durante a abertura da 3.ª Conferência Internacional Crescendo Azul, realizada em Maputo, num momento em que os mercados internacionais continuam a acompanhar com preocupação os impactos da instabilidade no Médio Oriente sobre a segurança energética mundial.

Segundo Mahmoud Ali Youssouf, a crescente incerteza em torno dos fluxos energéticos provenientes do Golfo reforça a importância de novas fontes de abastecimento, colocando Moçambique numa posição privilegiada.

“Face ao que se passa nos países do Golfo e à guerra no Irão, Moçambique é agora visto como uma alternativa energética offshore”, afirmou o dirigente africano.

Geopolítica Energética Reforça Centralidade De Moçambique

As declarações da União Africana surgem numa fase particularmente relevante para o sector energético moçambicano.

Nos últimos anos, o país consolidou uma das maiores carteiras de gás natural do mundo, com projectos de grande dimensão na Bacia do Rovuma e uma crescente projecção internacional associada à produção de gás natural liquefeito (LNG).

O actual contexto geopolítico contribui para reforçar essa posição.

As tensões persistentes no Médio Oriente, particularmente em torno do Irão e do Estreito de Ormuz, têm levado governos e investidores a procurar alternativas de abastecimento energético mais diversificadas e geograficamente seguras.

Neste cenário, Moçambique surge cada vez mais como um dos principais candidatos a desempenhar um papel relevante na segurança energética global durante as próximas décadas.

Economia Azul Pode Tornar-Se Novo Motor De Crescimento

Mas a visão apresentada pela União Africana vai muito além da energia.

Mahmoud Ali Youssouf considera que Moçambique reúne condições únicas para liderar o desenvolvimento da economia azul em África, beneficiando da sua extensa linha costeira superior a 2.700 quilómetros, da sua localização estratégica no Oceano Índico e da função de corredor logístico para diversos países do interior da África Austral.

Segundo o responsável, sectores como transporte marítimo, logística portuária, pesca, aquacultura, turismo costeiro, energias marinhas e biotecnologia oceânica poderão assumir um papel crescente na geração de riqueza e emprego.

“Moçambique é o epicentro da economia azul. Tem tudo para ser campeão da economia azul não apenas na região, mas em todo o continente”, afirmou.

A visão está alinhada com a Estratégia Marítima Integrada Africana 2050 e com a Estratégia Africana para a Economia Azul, dois instrumentos estruturantes da Agenda 2063 da União Africana.

Centro Regional Da SADC Reforça Liderança Regional

A União Africana destacou igualmente a inauguração do Centro Regional de Coordenação de Monitorização, Controlo e Fiscalização das Pescas da SADC, localizado na Katembe, em Maputo.

A infra-estrutura é vista como um instrumento importante para fortalecer a cooperação regional na gestão sustentável dos recursos marinhos e no combate à pesca ilegal, um dos principais desafios que afectam a economia azul africana.

Para Mahmoud Ali Youssouf, o centro constitui um exemplo concreto de integração regional e demonstra o papel crescente de Moçambique na definição das políticas marítimas do continente.

“A integração começa pelas regiões. Hoje, Moçambique está a mostrar o caminho”, sublinhou.

Potencial Enorme, Mas Desafios Persistem

Apesar do enorme potencial económico identificado, a União Africana recorda que a concretização desta visão dependerá da capacidade dos países africanos enfrentarem desafios persistentes, entre os quais a pesca ilegal, a criminalidade organizada no espaço marítimo, o terrorismo, a degradação dos ecossistemas costeiros, a poluição marinha e os efeitos das alterações climáticas. Estes fenómenos continuam a representar custos económicos significativos para o continente, limitando o aproveitamento sustentável dos recursos oceânicos e comprometendo o desenvolvimento das comunidades que deles dependem.

 

A União Africana lamentou igualmente os atrasos na disponibilização dos financiamentos climáticos prometidos aos países africanos, particularmente aos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos.

Países como Moçambique, Madagáscar e diversos pequenos Estados insulares continuam a enfrentar regularmente ciclones severos, enquanto os mecanismos internacionais de adaptação climática permanecem insuficientemente financiados.

Conservação Marinha É Também Uma Questão Económica

Durante o evento, o Presidente da Fundação para a Conservação da Biodiversidade (Biofund), Carlos dos Santos, alertou para a necessidade de reforçar os investimentos em investigação científica, monitorização e tecnologias de gestão sustentável dos recursos marinhos.

A mensagem foi clara: a conservação dos ecossistemas marinhos não é apenas uma questão ambiental.

Trata-se igualmente de uma questão económica, social e estratégica.

A degradação dos recursos costeiros compromete sectores fundamentais como a pesca, o turismo, a protecção costeira e os meios de subsistência de milhões de africanos.

Uma Janela Estratégica Para O Desenvolvimento

As mensagens deixadas pela União Africana convergem para uma conclusão importante: Moçambique encontra-se numa posição particularmente favorável para transformar recursos marítimos e energéticos em desenvolvimento económico sustentável.

Poucos países africanos combinam simultaneamente uma extensa linha costeira, abundantes recursos energéticos offshore, localização estratégica nos corredores marítimos internacionais e crescente protagonismo regional.

A questão central passa agora pela capacidade de converter esse potencial em investimento, industrialização, criação de emprego, inovação tecnológica e melhoria das condições de vida das populações.

Num momento em que o mundo procura novas fontes de energia e novos motores de crescimento sustentável, Moçambique parece estar a ganhar destaque não apenas como fornecedor de recursos, mas como um dos principais protagonistas da economia azul africana do futuro.