Importações Alargam Défice Comercial Para US$ 319,6 Milhões

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  • Compras externas cresceram 14% no segundo trimestre de 2026, muito acima do aumento de 2,2% das exportações. Factura de combustíveis avançou 79,4%, enquanto o investimento directo estrangeiro recuou 55,6%.
Questões-Chave:
  • Défice do comércio de bens aumentou de US$ 88,7 milhões para US$ 319,6 milhões entre o primeiro e o segundo trimestres;
  • Importações subiram 14%, para US$ 2,21 mil milhões;
  • Exportações cresceram 2,2%, para US$ 1,89 mil milhões;
  • Importação de combustíveis aumentou 79,4%, atingindo US$ 424,2 milhões;
  • Investimento directo estrangeiro caiu de US$ 1,33 mil milhões para US$ 590 milhões;
  • Reservas internacionais líquidas reduziram-se para US$ 3,44 mil milhões em Julho;
  • Cobertura das reservas equivale a 2,8 meses das importações totais;

O défice comercial de Moçambique mais do que triplicou no segundo trimestre de 2026, pressionado pelo aumento das importações, particularmente de combustíveis, enquanto as exportações registaram um crescimento moderado.

Dados do Banco de Moçambique mostram que o saldo negativo do comércio de bens passou de US$ 88,7 milhões nos primeiros três meses do ano para US$ 319,6 milhões entre Abril e Junho.

As importações cresceram 14%, de US$ 1,94 mil milhões para US$ 2,21 mil milhões. No mesmo período, as exportações aumentaram apenas 2,2%, de US$ 1,85 mil milhões para US$ 1,89 mil milhões.

A diferença entre os ritmos de crescimento acrescentou cerca de US$ 231 milhões ao défice trimestral.

Os números constam do Resumo Mensal de Informação Estatística de Agosto de 2026, publicado pelo Banco de Moçambique. Embora divulgado em Agosto, o documento reúne dados monetários e cambiais actualizados até Julho e informação do sector externo referente ao segundo trimestre.

Combustíveis Lideram Aumento Das Importações

A factura de importação de combustíveis aumentou de US$ 236,4 milhões no primeiro trimestre para US$ 424,2 milhões no segundo, uma subida de 79,4%.

As compras de gasóleo avançaram de US$ 164,9 milhões para US$ 290,7 milhões, enquanto as importações de gasolina praticamente duplicaram, passando de US$ 56,4 milhões para US$ 110,3 milhões.

O combustível para aviação aumentou de US$ 15,2 milhões para US$ 23,2 milhões.

No conjunto, os bens intermédios cresceram 31,9%, para US$ 681,7 milhões. Além dos combustíveis, registou-se um aumento expressivo nas importações de fertilizantes, de US$ 13,3 milhões para US$ 41,4 milhões.

A evolução da factura energética tem implicações directas sobre a disponibilidade de divisas, os custos de transporte e produção e a formação dos preços internos.

Importações Sem Grandes Projectos Sobem 51,7%

As importações dos grandes projectos diminuíram de US$ 693,7 milhões para US$ 320,4 milhões entre o primeiro e o segundo trimestres.

Em sentido contrário, as compras externas realizadas pelo restante tecido económico aumentaram de US$ 1,25 mil milhões para US$ 1,89 mil milhões, correspondentes a uma subida de 51,7%.

O crescimento mostra que a expansão das importações não resultou dos grandes empreendimentos intensivos em capital, mas da procura do conjunto da economia por combustíveis, bens de consumo, matérias-primas, equipamentos e outros produtos.

As importações de bens de consumo aumentaram 7,5%, para US$ 638,2 milhões. Entre os principais movimentos destacam-se o arroz, que passou de US$ 98,5 milhões para US$ 112,7 milhões, e o trigo, que aumentou de US$ 46,1 milhões para US$ 66,7 milhões.

As compras de automóveis cresceram de US$ 120 milhões para US$ 139,1 milhões, enquanto as importações de medicamentos e reagentes aumentaram de US$ 65,2 milhões para US$ 73,5 milhões.

Os bens de capital avançaram 11,7%, atingindo US$ 324,8 milhões, impulsionados sobretudo pelas importações de maquinaria.

Gás E Carvão Sustentam Exportações

As exportações da indústria extractiva cresceram de US$ 964 milhões para US$ 1,36 mil milhões, compensando quedas acentuadas noutros grupos de produtos.

As receitas de gás natural aumentaram 56%, de US$ 467,4 milhões para US$ 729 milhões. As vendas externas de carvão mineral subiram de US$ 410,3 milhões para US$ 535,7 milhões.

As exportações de rubis, safiras e esmeraldas passaram de US$ 3,8 milhões para US$ 19,8 milhões, enquanto as areias pesadas diminuíram de US$ 82,5 milhões para US$ 76,2 milhões.

O peso do gás e do carvão confirma a concentração das exportações moçambicanas em matérias-primas e grandes projectos.

Estes empreendimentos geraram US$ 1,47 mil milhões das exportações do segundo trimestre, equivalentes a cerca de 77,8% do total.

Excluindo os grandes projectos, as vendas externas aumentaram de US$ 382,1 milhões para US$ 421 milhões, um crescimento de 10,2%.

Agricultura E Indústria Transformadora Recuam

As exportações de produtos agrícolas diminuíram de US$ 119,6 milhões para US$ 20,3 milhões entre os dois trimestres.

As receitas do tabaco caíram de US$ 13,1 milhões para US$ 2,8 milhões, enquanto a castanha de caju em bruto recuou de US$ 68,4 milhões para US$ 4,9 milhões. As exportações de frutas mantiveram-se próximas de US$ 12,3 milhões.

Na indústria transformadora, as vendas externas passaram de US$ 430 milhões para apenas US$ 15,5 milhões. O recuo reflecte, em grande medida, a forte redução das exportações de barras de alumínio, de US$ 371,4 milhões para US$ 2,9 milhões.

O perfil trimestral pode ser influenciado pelo calendário dos embarques, mas a amplitude das variações mostra a vulnerabilidade das receitas externas à concentração num número reduzido de produtos e empresas.

As exportações de energia eléctrica também diminuíram, de US$ 139,3 milhões para US$ 129,6 milhões.

Investimento Directo Estrangeiro Cai 55,6%

O investimento directo estrangeiro recebido por Moçambique caiu de US$ 1,33 mil milhões no primeiro trimestre para cerca de US$ 590 milhões no segundo, uma redução de 55,6%.

Os fluxos destinados a acções e participações diminuíram de US$ 583,3 milhões para US$ 191,5 milhões. O outro capital, constituído essencialmente por suprimentos e créditos comerciais, recuou de US$ 745,1 milhões para US$ 398,5 milhões.

Os grandes projectos absorveram US$ 355,7 milhões deste último instrumento, comparativamente a US$ 706,9 milhões no trimestre anterior.

Por sectores, as indústrias extractivas continuaram a receber a maior parcela, com US$ 368,7 milhões, mas abaixo dos US$ 1,25 mil milhões registados entre Janeiro e Março.

A indústria transformadora captou US$ 151 milhões, invertendo o fluxo negativo de US$ 11,7 milhões observado no primeiro trimestre.

Reservas Caem Para US$ 3,44 Mil Milhões

As reservas internacionais líquidas diminuíram de US$ 3,46 mil milhões em Junho para US$ 3,44 mil milhões em Julho, uma redução de aproximadamente US$ 27 milhões.

Segundo o Banco de Moçambique, as reservas cobriam 2,8 meses das importações totais. Excluindo as importações dos grandes projectos, a cobertura correspondia a 4,3 meses.

Durante Julho, o País registou entradas de US$ 213 milhões e saídas de US$ 261,7 milhões. O fluxo efectivo do período foi negativo em US$ 27 milhões, depois de considerados os restantes movimentos.

A redução das reservas ocorre num contexto de aumento das importações e maior factura de combustíveis, factores que elevam a procura de moeda externa.

No mercado cambial, no final de Julho, os bancos comerciais compravam o US$ a 63,33 meticais e vendiam-no a 64,59 meticais. Nas casas de câmbio, a cotação de venda atingia 70,86 meticais.

Crédito À Economia Recua Em Julho

O crédito à economia diminuiu 0,4% em Julho, passando de 292,78 mil milhões para 291,67 mil milhões de meticais. Comparativamente a Julho de 2025, registou um crescimento de apenas 0,9%.

O crédito às empresas privadas aumentou 3,5% no mês, para 104,47 mil milhões de meticais, enquanto o financiamento às empresas públicas caiu 13,5%, para 24,47 mil milhões.

Por actividades, o crédito à indústria transformadora aumentou 6,7%, para 22,16 mil milhões de meticais. O comércio registou uma subida de 5%, para 25,73 mil milhões, e a agricultura avançou 2,7%, para 4,61 mil milhões.

Apesar destas variações positivas, o financiamento agrícola representa apenas cerca de 1,6% do crédito total à economia.

Os particulares e as instituições sem fins lucrativos absorviam 159 mil milhões de meticais, correspondentes a mais de metade do financiamento concedido.

Juros Baixam Sem Acelerar Financiamento

A taxa média sobre os saldos dos empréstimos a um ano diminuiu de 22,02% em Junho para 21,27% em Julho. A taxa média dos depósitos a um ano recuou de 4,23% para 3,81%.

Nas novas operações, os empréstimos com prazo superior a um ano concedidos às empresas registaram uma taxa média de 17,17%, abaixo dos 18,62% de Junho.

No crédito ao consumo, a taxa diminuiu de 24,23% para 23,08%, enquanto o financiamento à habitação recuou de 16,50% para 16,33%.

A descida das taxas ainda não produziu uma expansão sustentada do crédito total. O custo do financiamento permanece elevado e o diferencial entre as taxas dos empréstimos e dos depósitos continua amplo.

Pressões Externas Encontram Inflação Elevada

A inflação anual nacional fixou-se em 7,48% em Julho, comparativamente a 3,96% no mesmo mês de 2025. A inflação acumulada atingiu 5,12%.

Embora os preços tenham diminuído 0,26% em Julho, a aceleração homóloga mostra que o nível geral permanece consideravelmente acima do registado há um ano.

A combinação entre importações crescentes, maior factura de combustíveis, redução das reservas, crédito moderado e inflação elevada constitui um quadro exigente para a economia.

A expansão das exportações extractivas fornece receitas externas relevantes, mas a queda das vendas agrícolas e transformadoras reduz a diversificação. A sustentabilidade das contas externas exigirá maior capacidade interna de produção, substituição competitiva de importações e ampliação da base empresarial exportadora.

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