Ásia E Estados Unidos Lideram Nova Corrida Mundial Por Infra-Estruturas De Gás

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• Centrais eléctricas, gasodutos e terminais de GNL concentram investimentos de longo prazo, enquanto Moçambique ganha espaço através dos projectos flutuantes e das reservas do Rovuma.

Questões-Chave:
  • A Ásia dispõe de cerca de 950 mil MW de capacidade termoeléctrica a gás em operação e de mais 140 mil MW em construção;
  • Os Estados Unidos possuem aproximadamente 562 mil MW de capacidade instalada e lideram a construção de terminais de exportação de GNL;
  • A China constrói cerca de 22 mil quilómetros de gasodutos, enquanto a Índia acrescenta perto de 15 mil quilómetros;
  • A Ásia concentra mais de 66% da capacidade mundial de importação de GNL existente e quase 70% da capacidade em construção;
  • Projectos que totalizam 35 milhões de toneladas anuais de liquefacção alcançaram a decisão final de investimento no primeiro semestre de 2026;
  • As tecnologias flutuantes podem duplicar a capacidade mundial de liquefacção para cerca de 40 milhões de toneladas anuais até 2030;
  • Moçambique surge entre os mercados africanos que utilizam projectos flutuantes para transformar reservas remotas em exportações de GNL.

O gás natural e o gás natural liquefeito estão a concentrar uma nova vaga mundial de investimentos em centrais eléctricas, gasodutos, terminais de exportação e infra-estruturas de importação, impulsionada pela necessidade de aumentar a produção de electricidade e garantir estabilidade aos sistemas energéticos.

Dados do Global Energy Monitor, analisados pela Reuters, mostram que a Ásia lidera a expansão da capacidade termoeléctrica a gás, enquanto os Estados Unidos conservam a maior capacidade instalada num único país e assumem a dianteira na construção de terminais de exportação de GNL.

O Global Gas Report 2026, elaborado pela União Internacional do Gás, indica que os investimentos aprovados continuam a crescer, apesar da instabilidade geopolítica, das oscilações nos preços e dos compromissos internacionais de redução das emissões.

Em 2025, projectos correspondentes a 67 milhões de toneladas anuais de capacidade de liquefacção e 51 milhões de toneladas de regaseificação alcançaram a decisão final de investimento. No primeiro semestre de 2026, foram aprovados mais 35 milhões de toneladas de capacidade de liquefacção e 25 milhões de toneladas de regaseificação.

Estes activos possuem ciclos de funcionamento de várias décadas. A dimensão dos investimentos em curso indica, por isso, que o gás continuará a ocupar uma posição central na matriz energética mundial muito para além da presente conjuntura.

Ásia Concentra Expansão Da Produção Eléctrica A Gás

A Ásia dispõe actualmente de cerca de 950 mil megawatts de capacidade termoeléctrica a gás em operação, superando os aproximadamente 735 mil MW instalados no continente americano e os 366 mil MW existentes na Europa.

A região possui ainda perto de 140 mil MW em construção, mais de três vezes a capacidade que está a ser adicionada em qualquer outra região mundial.

Entre os países, os Estados Unidos conservam o maior parque termoeléctrico a gás, com aproximadamente 562 mil MW em funcionamento. A China, contudo, lidera os novos projectos em construção.

A procura crescente de electricidade, a industrialização, a urbanização, a expansão dos centros de dados e as necessidades de refrigeração estão a impulsionar a instalação de nova capacidade de geração.

Ao mesmo tempo, os governos e empresas de electricidade procuram fontes capazes de responder rapidamente às oscilações da produção solar e eólica. As centrais a gás são utilizadas como capacidade flexível para manter o equilíbrio dos sistemas quando a geração renovável diminui ou quando a procura aumenta subitamente.

Segundo o relatório, a produção de electricidade continua a ser o maior segmento consumidor de gás natural, representando cerca de 34% da procura mundial.

China E Índia Constroem Maiores Redes De Gasodutos

O continente americano possui mantém a mais extensa rede de transporte de gás, com perto de 490 mil quilómetros de gasodutos em funcionamento. O total supera os aproximadamente 281 mil quilómetros existentes na Ásia e os 262,7 mil quilómetros da Europa.

O centro da expansão deslocou-se, porém, para a Ásia, onde estão em construção quase 56 mil quilómetros de novos gasodutos.

A China lidera, com perto de 22 mil quilómetros em desenvolvimento, seguida pela Índia, que constrói aproximadamente 15 mil quilómetros.

Esta expansão deverá permitir a integração de novos centros de consumo, indústrias e centrais eléctricas, além de ligar regiões produtoras aos principais mercados urbanos.

Os gasodutos também fazem parte das estratégias asiáticas destinadas a reduzir a dependência do GNL transportado por via marítima, cujos preços e disponibilidade se tornaram mais vulneráveis aos conflitos e às interrupções nas rotas internacionais.

No primeiro semestre de 2026, a China utilizou o crescimento da produção interna e as importações através do gasoduto Power of Siberia 1 para compensar parte da redução das compras de GNL.

Estados Unidos Aceleram Exportações De GNL

Os Estados Unidos, actualmente o maior produtor mundial de gás, possuem também a maior capacidade nacional de exportação de GNL.

O país está a construir cerca de 100 milhões de toneladas anuais de nova capacidade de exportação, mais do que qualquer outro mercado, segundo os dados do Global Energy Monitor.

Esta expansão aumenta a capacidade norte-americana de abastecer a Europa, a Ásia e outros mercados que procuram diversificar as respectivas fontes de energia.

Em 2025, os Estados Unidos ultrapassaram a Rússia e tornaram-se o maior exportador líquido de gás do mundo. O GNL norte-americano assegurou mais de metade das importações europeias, depois do fim do trânsito de gás russo através da Ucrânia.

Durante as restrições ao abastecimento provenientes do Golfo, os terminais norte-americanos aumentaram a utilização para responder à procura de compradores que procuravam substituir os volumes indisponíveis. Em Março de 2026, algumas unidades terão operado, em termos agregados, a 119% da sua capacidade nominal.

O início das operações de novas infra-estruturas, incluindo Plaquemines, Corpus Christi Stage 3 e Golden Pass, ampliou a oferta disponível num momento de elevada tensão no mercado.

Ásia Domina Terminais De Importação

A Ásia concentra mais de 66% da capacidade mundial existente de importação de GNL e quase 70% dos terminais actualmente em construção.

O Japão possui a maior infra-estrutura nacional de recepção, com capacidade anual estimada em 242 milhões de toneladas. A China lidera a expansão, com aproximadamente 97 milhões de toneladas anuais de capacidade de importação em construção.

A dimensão destes investimentos confirma que as economias asiáticas continuarão a influenciar a formação dos preços e os fluxos comerciais mundiais de GNL.

A exposição da região às importações marítimas representa, contudo, um risco. O Global Gas Report 2026 estima que o comércio mundial de GNL tenha diminuído 4% no primeiro semestre, para cerca de 284 mil milhões de metros cúbicos, devido principalmente às perturbações que reduziram os fluxos provenientes do Golfo.

Mais de 80% da diminuição incidiu sobre compradores asiáticos, evidenciando a dependência da região em relação às cargas que atravessam o Estreito de Ormuz.

Os mercados emergentes da Ásia e de África, mais sensíveis ao preço, foram particularmente afectados. Perante o encarecimento do GNL, alguns países reduziram as compras ou recorreram a combustíveis alternativos, incluindo o carvão.

Procura Mundial Sofre Recuo Conjuntural

A procura mundial de gás natural atingiu o máximo histórico de 4,202 biliões de metros cúbicos em 2025, representando um crescimento anual de 1,7%.

A Ásia acrescentou 25 mil milhões de metros cúbicos, o Médio Oriente 18 mil milhões e a Europa dez mil milhões. Em África, a procura aumentou 3,4%, correspondente a seis mil milhões de metros cúbicos.

Para 2026, a União Internacional do Gás prevê uma ligeira redução mundial de 0,2%, equivalente a sete mil milhões de metros cúbicos, reflectindo as perturbações no abastecimento e os preços elevados.

Em África, a procura deverá permanecer praticamente estável, com um crescimento estimado em apenas 0,2%. Esta estagnação não decorre necessariamente da ausência de necessidades energéticas, mas da limitada capacidade financeira de vários países para importar GNL quando os preços internacionais aumentam.

A expansão das infra-estruturas será, portanto, decisiva para aproximar a produção dos mercados consumidores, reduzir os custos e aumentar a resistência dos sistemas a choques externos.

GNL Flutuante Abre Espaço Para Novos Exportadores

A tecnologia de liquefacção flutuante está a mudar a geografia do mercado, permitindo o aproveitamento de reservas offshore e remotas que dificilmente justificariam grandes instalações em terra.

O mundo possui nove unidades flutuantes de GNL em operação, com uma capacidade conjunta de cerca de 19 milhões de toneladas anuais. Considerando os projectos planeados e em construção, esta capacidade poderá mais do que duplicar, alcançando aproximadamente 40 milhões de toneladas até 2030.

Estas unidades integram no mesmo activo o processamento, a liquefacção, o armazenamento e a transferência do gás para navios transportadores. A solução reduz a necessidade de extensas infra-estruturas em terra e pode encurtar o período entre o investimento e o início da produção.

O relatório destaca África como uma das regiões onde a tecnologia está a permitir a comercialização de reservas em áreas com infra-estruturas limitadas. A Eni possui três unidades flutuantes em operação ao largo do Congo e de Moçambique e uma quarta unidade, com capacidade de 3,6 milhões de toneladas anuais, em construção.

Moçambique Pode Ganhar Escala Na Nova Geografia Do GNL

Moçambique já integra o grupo de exportadores mundiais através da unidade Coral Sul FLNG, instalada na Bacia do Rovuma. O modelo flutuante permitiu iniciar a monetização das reservas offshore antes da entrada em funcionamento dos grandes projectos em terra.

A expansão mundial da procura e da infra-estrutura de GNL aumenta a relevância estratégica dos projectos moçambicanos, incluindo o relançado Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, os desenvolvimentos da Área 4 e as soluções flutuantes adicionais.

O crescimento dos terminais de importação na Ásia é particularmente importante, uma vez que aproxima os mercados consumidores das reservas localizadas na costa oriental africana.

A posição geográfica de Moçambique oferece acesso competitivo ao Oceano Índico e aos grandes compradores asiáticos. Essa vantagem dependerá da execução atempada dos projectos, da segurança, da competitividade dos custos e da estabilidade dos acordos comerciais e fiscais.

Para a economia nacional, o ponto decisivo será a ligação entre a exportação e o desenvolvimento interno. Para além das receitas fiscais e das divisas, a expansão do gás terá maior alcance se estimular a industrialização, a geração de electricidade, a produção de fertilizantes, o desenvolvimento de fornecedores nacionais e a criação de emprego qualificado.

A nova corrida mundial pelas infra-estruturas de gás cria mercado para as reservas moçambicanas. Converter essa procura numa plataforma de transformação económica exigirá que o país avance, em paralelo, com as infra-estruturas, o conteúdo local e a utilização doméstica do recurso.

 

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