Petróleo Recua, Mas Crise Energética Está Longe de Terminar

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  • Brent cai para perto de US$ 101 com expectativas de abertura diplomática entre EUA e Irão, mas stocks em queda, restrições em Hormuz, pressão sobre o LNG e défice de produtos refinados mantêm o sistema energético mundial sob forte tensão.

QUESTÕES-CHAVE:

  • Brent caiu para US$ 101,71/barril na manhã de 21 de Setembro, enquanto o WTI recuou abaixo da fasquia dos US$ 100;
  • Fluxos petrolíferos do Médio Oriente mostram maior resiliência, apesar das fortes restrições à navegação no Estreito de Hormuz;
  • Stocks mundiais de petróleo diminuíram 507 milhões de barris desde Fevereiro, reduzindo um dos principais amortecedores da crise;
  • A AIE prevê queda de 2,5 milhões de barris/dia na procura mundial de petróleo em 2026, reflexo dos preços elevados e das perturbações de abastecimento;
  • LNG permanece como um dos pontos mais vulneráveis, com reservas europeias de gás em cerca de 67% da capacidade e forte competição por cargas disponíveis;
  • A crise começa a atingir com maior intensidade os produtos refinados, com a Europa a enfrentar um potencial défice de 510 mil barris/dia de jet fuel no quarto trimestre

O petróleo iniciou esta segunda-feira, 21 de Setembro, em queda acentuada, tocando mínimos de mais de uma semana, numa aparente inversão do movimento de alta que marcou as últimas semanas. Mas a descida das cotações não significa que a crise energética global esteja a dissipar-se. Pelo contrário: por detrás da correcção diária dos preços permanece um mercado com stocks substancialmente reduzidos, rotas de abastecimento vulneráveis, custos logísticos elevados e crescentes tensões nos mercados de gás natural liquefeito e produtos refinados.

Às 02h13 GMT, os futuros do Brent negociavam a US$ 101,71 por barril, menos 2,08%, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) recuava 2,14%, para US$ 98,15 por barril. Ambos tocaram os níveis mais baixos desde 10 de Setembro. Oil hits over 1-week low on hop…

A correcção está relacionada, em grande medida, com expectativas de que possa surgir uma oportunidade diplomática para reduzir as tensões entre os Estados Unidos e o Irão durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. O Presidente norte-americano, Donald Trump, manifestou disponibilidade para um eventual encontro com o Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. Oil hits over 1-week low on hop…

O mercado está, portanto, a retirar uma parcela do prémio de risco incorporado nas últimas semanas. Mas os fundamentos mostram que a situação continua longe da normalidade. 

Hormuz Continua a Ser o Epicentro do Risco Energético

A evolução recente do mercado tornou ainda mais evidente a importância sistémica do Estreito de Hormuz. A passagem marítima que liga o Golfo ao Oceano Índico continua a constituir um dos principais pontos de vulnerabilidade da arquitectura energética mundial.

Durante o último fim-de-semana, apenas 12 navios de commodities atravessaram Hormuz, comparativamente aos cerca de 125 navios por dia que utilizavam normalmente a rota antes do conflito. Parte dos petroleiros está também a navegar com os sistemas de identificação desligados, dificultando uma leitura integral dos movimentos marítimos.

Paradoxalmente, porém, os fluxos de petróleo têm revelado uma capacidade de adaptação superior à inicialmente antecipada.

A Arábia Saudita conseguiu elevar as suas exportações para mais de 4 milhões de barris/dia em Setembro, depois de estas terem caído para apenas 2,4 milhões em Agosto, o nível mais baixo desde pelo menos 2013. Dados de satélite indicam igualmente que o petróleo saudita transportado através de Hormuz atingiu uma média de 2,9 milhões de barris/dia nos seis dias anteriores, contra cerca de 700 mil barris/dia em Agosto. Oil hits over 1-week low on hop…

Segundo estimativas citadas pelo JPMorgan, os fluxos petrolíferos totais do Médio Oriente atingiram uma média de 17,1 milhões de barris/dia nos últimos dez dias

Esta resiliência ajuda a explicar por que razão o mercado consegue, por enquanto, evitar uma ruptura ainda mais pronunciada da oferta. Mas não significa que o equilíbrio tenha sido restabelecido.

Stocks Estão a Financiar a Resiliência do Mercado

Uma parte importante da capacidade de resistência demonstrada pelo mercado não resulta de um retorno da oferta à normalidade, mas da utilização dos mecanismos de emergência e dos stocks acumulados anteriormente.

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que os inventários globais observados diminuíram 95 milhões de barris apenas em Agosto, elevando a redução acumulada desde Fevereiro para 507 milhões de barris, equivalente a uma retirada média de 2,8 milhões de barris/dia.

Os países membros da AIE já libertaram mais de 300 milhões de barris de reservas de emergência desde a acção colectiva anunciada em Março. 

Isto introduz uma dimensão importante na leitura da conjuntura: o sistema energético mundial continua a funcionar, mas está a consumir parte dos seus amortecedores para o conseguir.

Quanto mais tempo persistirem as restrições à produção e circulação de energia no Médio Oriente, menor será a capacidade dos inventários para absorver um novo choque de oferta.

É por isso que a AIE considera que, caso os fornecimentos do Golfo permaneçam restringidos e os stocks comerciais continuem a diminuir rapidamente, poderão ser necessários preços mais elevados — e uma consequente redução adicional do consumo — para restabelecer o equilíbrio entre oferta e procura. 

Preços Elevados Começam a Destruir Procura

É precisamente do lado da procura que surge uma das transformações mais importantes desta conjuntura.

A AIE reviu significativamente em baixa as suas perspectivas para 2026 e prevê agora que o consumo mundial de petróleo diminua 2,5 milhões de barris/dia este ano, antes de recuperar 2,6 milhões de barris/dia em 2027.

No segundo trimestre, a procura mundial chegou a cair 5,3 milhões de barris/dia em termos homólogos, a primeira contracção trimestral desde a pandemia da Covid-19. Ásia e Médio Oriente deverão representar cerca de 80% da redução anual.

A dimensão desta alteração não deve ser subestimada. Durante grande parte das crises energéticas anteriores, a discussão concentrou-se na capacidade dos produtores aumentarem a oferta. Na conjuntura actual, uma parte crescente do ajustamento está a ocorrer através da destruição de procura.

Os preços elevados dos combustíveis, dificuldades logísticas, indisponibilidade de determinados produtos e custos crescentes para empresas e consumidores estão a reduzir efectivamente o consumo.

O petróleo pode, portanto, cair em determinadas sessões não porque o sistema energético tenha regressado ao equilíbrio, mas porque a própria economia mundial começa a responder aos preços elevados consumindo menos.

LNG Torna-se Outra Frente Crítica

Se o petróleo apresenta sinais de adaptação, o mercado mundial de LNG continua particularmente exposto.

As perturbações associadas a Hormuz retiraram aproximadamente 36 milhões de toneladas de LNG da oferta global, afectando sobretudo os fluxos provenientes do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos.

Simultaneamente, a Europa aproxima-se do período de maior procura sazonal com os seus reservatórios de gás em apenas cerca de 67% da capacidade, abaixo da meta europeia de 80% para Dezembro. 

A consequência é uma competição crescente entre Europa e Ásia pelas cargas disponíveis.

Os preços spot asiáticos chegaram à proximidade dos US$ 30/MMBtu, depois de terem rondado US$ 10 antes do agravamento da crise. Num cenário de Inverno particularmente frio, responsáveis da indústria admitem que as cotações possam aproximar-se dos US$ 40/MMBtu. 

Mas também aqui o preço está a alterar o comportamento dos consumidores.

As importações asiáticas de LNG deverão situar-se em aproximadamente 20,09 milhões de toneladas em Setembro, o menor volume para este mês em oito anos. China, Índia e Paquistão estão entre os mercados onde os preços elevados provocaram redução das compras e, em alguns casos, substituição do gás por carvão ou derivados de petróleo. 

A elasticidade da procura está, desta forma, a tornar-se um dos mecanismos centrais de ajustamento do mercado energético.

Crise Propaga-se Aos Produtos Refinados

Há ainda uma terceira dimensão que começa a ganhar relevância: a disponibilidade de produtos refinados.

A produção mundial das refinarias atingiu 81,4 milhões de barris/dia em Agosto, mas permaneceu 4,2 milhões de barris/dia abaixo do nível observado um ano antes. A AIE prevê uma redução média de 2,6 milhões de barris/dia no processamento das refinarias em 2026. 

A Europa deverá enfrentar no quarto trimestre um défice de aproximadamente 510 mil barris/dia de combustível para aviação, na sequência da redução dos fornecimentos provenientes do Médio Oriente.

Os stocks de jet fuel no eixo Amesterdão-Roterdão-Antuérpia caíram para mínimos de sete anos, obrigando os compradores europeus a procurar volumes adicionais nos Estados Unidos, Canadá, Nigéria e, mais recentemente, Coreia do Sul. 

É uma demonstração de como a crise está a evoluir: já não se trata apenas de conseguir petróleo bruto, mas de conseguir o produto certo, no mercado certo e no momento necessário.

Esta fragmentação tem consequências económicas importantes. Fretes marítimos, seguros, custos de refinação e prémios associados à segurança passam a integrar de forma mais intensa o preço final da energia.

Energia Volta a Alimentar Pressões Inflacionistas

A transmissão para a economia real já é perceptível.

O Bangladesh, por exemplo, anunciou esta segunda-feira aumentos de até 17,4% nos preços dos combustíveis, numa tentativa de reduzir as perdas da empresa petrolífera estatal, que atingiram cerca de US$ 1,9 mil milhões entre Março e Agosto. O aumento dos preços internacionais e dos custos de transporte marítimo está entre os principais factores por detrás da decisão. 

Este tipo de transmissão poderá tornar-se particularmente relevante para economias importadoras líquidas de energia.

Petróleo persistentemente acima de US$ 100 significa maiores facturas de importação, pressão sobre reservas cambiais, deterioração potencial das contas externas e aumento dos custos de transportes, produção agrícola, indústria e logística.

E ocorre num momento em que vários dos principais bancos centrais mundiais mantêm políticas monetárias restritivas ou voltaram a aumentar taxas de juro. Um choque energético prolongado pode, assim, produzir a combinação particularmente difícil de inflação mais elevada, custos financeiros superiores e menor crescimento económico.

A Geografia Energética Mundial Está a Mudar

Há, contudo, uma consequência estrutural que poderá ultrapassar a actual crise.

A dependência de algumas das principais economias mundiais de um número reduzido de corredores energéticos está novamente sob escrutínio. A capacidade de desviar cargueiros, substituir fornecedores e mobilizar stocks evitou até agora uma ruptura mais profunda, mas os mecanismos tradicionais de absorção dos choques estão a perder força, segundo responsáveis da Shell e da Equinor.

Isso deverá acelerar estratégias de diversificação geográfica da oferta, expansão de terminais de LNG, reforço de reservas estratégicas, novas infra-estruturas de transporte e maior combinação entre hidrocarbonetos, renováveis e sistemas de armazenamento.

E é neste ponto que a conjuntura internacional assume particular significado para África.

Países capazes de acrescentar volumes relevantes de gás natural e LNG fora dos corredores tradicionais do Médio Oriente poderão ganhar importância na nova arquitectura de segurança energética.

Para Moçambique, detentor de algumas das maiores reservas de gás natural descobertas nas últimas décadas, esta transformação reforça a dimensão estratégica dos projectos de LNG. Mais do que beneficiar conjunturalmente de preços elevados, o desafio reside em converter a crescente procura mundial por diversificação e segurança de abastecimento numa oportunidade duradoura de investimento, receitas, industrialização, conteúdo local e integração das empresas nacionais nas cadeias de valor.

A conjuntura de Setembro de 2026 deixa, por isso, uma mensagem aparentemente contraditória. O Brent pode recuar para US$ 101 num dia e o risco energético global continuar elevado.

A evolução do mercado energético nas próximas semanas continuará, assim, condicionada pela duração do conflito no Médio Oriente, pela normalização dos fluxos através do Estreito de Hormuz, pelo ritmo de reposição dos stocks e pela capacidade de produtores alternativos responderem às necessidades do mercado. Uma eventual desescalada poderá aliviar o prémio geopolítico actualmente incorporado nas cotações, mas a recuperação de um equilíbrio mais sustentável dependerá também da recomposição das reservas, da normalização das cadeias logísticas e da disponibilidade de petróleo, gás e produtos refinados nos principais mercados consumidores.

Neste contexto, a descida do Brent para próximo dos US$ 101 não deve ser interpretada, isoladamente, como sinal de normalização. Os fundamentos continuam marcados por restrições de oferta, redução dos stocks e ajustamento da procura aos preços elevados, mantendo o mercado energético global exposto a novos episódios de volatilidade.

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