Dólar Encosta a Máximos de Dois Meses Com Brent Acima de US$ 106 e Fed Mais

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  • Tensões entre Estados Unidos e Irão elevam risco sobre a oferta de petróleo, reacendem pressões inflacionárias e reforçam expectativas de novo aumento dos juros norte-americanos, pressionando euro, libra, yen e moedas emergentes
Questões-Chave:
  • Dollar Index sobe para 101,15 e acumula valorização de 1,7% em Setembro, encaminhando-se para o melhor mês desde Junho;
  • Brent supera US$ 106 por barril perante o agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irão e riscos associados ao Estreito de Ormuz;
  • mercado atribui 65% de probabilidade a nova subida dos juros da Fed na reunião de Outubro, segundo o CME FedWatch;
  • EUR/USD recua para 1,1379, GBP/USD para 1,3232 e USD/JPY avança para 157,7;
  • PCE, emprego norte-americano e novos indicadores de actividade podem redefinir as expectativas sobre a trajectória da Fed;
  • dólar forte, petróleo caro e yields elevadas aumentam pressões sobre moedas e economias importadoras de energia.

O dólar iniciou a semana próximo de máximos de dois meses, sustentado por uma combinação que voltou a dominar os mercados globais: petróleo acima de US$ 106 por barril, risco geopolítico crescente no Médio Oriente e expectativas de que a Reserva Federal norte-americana terá de manter uma política monetária mais restritiva para conter novas pressões inflacionárias.

Segundo dados de mercado compilados pela Reuters, o Dollar Index, que mede o desempenho da moeda norte-americana perante um cabaz das principais divisas, avançava para 101,15 nesta segunda-feira, 28 de Setembro, acumulando uma valorização de 1,7% no mês. A confirmar-se até ao fecho de Setembro, será o melhor desempenho mensal desde Junho.

A força do dólar já se reflecte nos principais pares cambiais. O euro recuava 0,1%, para US$ 1,1379, enquanto a libra negociava em US$ 1,3232, ambos próximos de mínimos de vários meses perante a moeda norte-americana.

O yen também voltou a perder terreno, depreciando-se 0,3%, para 157,7 por dólar, apesar de Washington e Tóquio terem reafirmado preocupação com a subvalorização da moeda japonesa. O dólar australiano negociava em US$ 0,7017 e o yuan offshore enfraquecia para 6,7235 por dólar.

O movimento cambial está a ser alimentado por uma alteração rápida das expectativas sobre inflação e juros nos Estados Unidos.

Brent Acima de US$ 106 Reabre Pressão Sobre Inflação

O petróleo voltou a ocupar posição central na formação das expectativas monetárias.

Os futuros do Brent subiram mais de 1% e ultrapassaram US$ 106 por barril, depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, rejeitar um acordo de paz com o Irão destinado a resolver o conflito e permitir a reabertura do Estreito de Ormuz, segundo a Reuters.

O mercado está a incorporar o risco de perturbações adicionais no abastecimento energético através de uma das rotas mais importantes para o comércio mundial de petróleo.

A transmissão para a política monetária ocorre através dos preços. Petróleo mais caro aumenta custos de transporte, produção e logística e pode elevar a inflação ao consumidor. O efeito torna-se particularmente relevante quando as pressões sobre preços já se encontram acima das metas dos bancos centrais.

A Reserva Federal reconheceu essa deterioração antes da actual subida do petróleo. No seu relatório de política monetária de Julho, o banco central norte-americano assinalou que a inflação tinha acelerado durante 2025 e voltado a subir de forma significativa em Março de 2026, quando os preços da energia aumentaram após o início do conflito no Médio Oriente.

O indicador preferido da Fed, o Personal Consumption Expenditures Price Index (PCE), apresentava inflação de 3,7% em Julho, segundo os dados divulgados pelo próprio banco central, mantendo-se distante da meta de 2%.

A nova subida do petróleo reforça, por isso, uma pressão que já estava incorporada na decisão monetária de Setembro.

Fed Recoloca Subida dos Juros no Centro do Mercado Cambial

A Reserva Federal elevou, em 16 de Setembro, a taxa dos federal funds em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75%-4,00%, a primeira subida desde Julho de 2023.

No comunicado divulgado após a reunião, o Federal Open Market Committee (FOMC) afirmou que a inflação permanecia elevada e justificou o aperto com a necessidade de acelerar o regresso dos preços à meta de 2%. A decisão foi aprovada por unanimidade.

As expectativas de novo aumento estão agora a crescer.

Segundo o CME FedWatch, citado pela Reuters, os contratos negociados no mercado atribuem 65% de probabilidade a uma nova subida dos juros na reunião da Fed marcada para 27 e 28 de Outubro.

A mudança é consistente com as projecções apresentadas pela própria Fed em Setembro, que mantêm a possibilidade de política monetária adicionalmente restritiva, e com declarações recentes de responsáveis do banco central.

Susan Collins, presidente da Reserva Federal de Boston, afirmou na semana passada que apoiou o aumento de Setembro e advertiu para riscos inflacionários ainda elevados. Alberto Musalem, presidente da Fed de St. Louis, também indicou que novas subidas poderão ser necessárias para conter a inflação, num contexto de procura resistente e pressões provenientes de energia, importações e outras commodities.

O mercado cambial responde directamente a essa reavaliação. Taxas norte-americanas mais elevadas aumentam a remuneração dos activos denominados em dólares e podem atrair capital para Treasuries e outros instrumentos dos Estados Unidos, reforçando a procura pela moeda.

Treasuries Ampliam Suporte ao Dólar

A subida das yields das obrigações do Tesouro norte-americano acrescenta outro suporte à moeda.

A Reuters assinala que os rendimentos elevados nas maturidades longas estão a contribuir para a valorização do dólar, enquanto investidores incorporam simultaneamente inflação persistente, petróleo caro e política monetária restritiva.

O mecanismo passa pelo diferencial de juros.

Quando os rendimentos dos Treasuries aumentam relativamente às obrigações de outras grandes economias, activos denominados em dólares tornam-se relativamente mais atractivos. Esse movimento pode gerar procura adicional pela moeda norte-americana, especialmente quando coincide com maior aversão ao risco.

O actual ciclo reúne as duas condições: rendimentos elevados e procura por activos associados à segurança do dólar num período de tensão geopolítica.

A OCBC considera que a moeda norte-americana pode prolongar o movimento de valorização no curto prazo se persistirem as tensões nos mercados energéticos e continuarem a aumentar os riscos inflacionários. O banco mantém como cenário-base uma valorização moderada do dólar até ao final do ano, segundo declarações do estratega cambial Sim Moh Siong citadas pela Reuters.

Euro e Libra Perdem Terreno Perante Diferencial de Juros

A pressão sobre euro e libra reflecte também o reposicionamento das expectativas relativas aos respectivos bancos centrais.

O EUR/USD em 1,1379 encontra-se próximo de mínimos de vários meses, enquanto a libra recuou para 1,3232.

A libra já vinha sendo penalizada desde a subida dos juros norte-americanos de 16 de Setembro. Dados compilados pela Reuters mostram que o mercado também começou a incorporar a possibilidade de novo aperto pelo Banco de Inglaterra caso o choque energético prolongue as pressões inflacionárias no Reino Unido.

A relação entre as moedas dependerá da velocidade relativa do aperto monetário. Se a Fed elevar os juros novamente enquanto Banco Central Europeu e Banco de Inglaterra apresentarem trajectórias menos restritivas, o diferencial de rendimentos continuará a favorecer o dólar.

Uma alteração dos dados de inflação ou emprego norte-americanos pode, contudo, modificar rapidamente essa relação.

Yen Cai Para 157,7 Apesar de Preocupação de Washington e Tóquio

O yen negociava em 157,7 por dólar, recuando 0,3% na sessão.

A moeda japonesa tinha recuperado algum terreno na sexta-feira depois de a ministra japonesa das Finanças, Satsuki Katayama, e o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, reafirmarem preocupação com a sua subvalorização e intenção de reforçar a cooperação cambial.

A reacção mostrou-se limitada perante a nova valorização generalizada do dólar.

O comportamento do yen continua associado ao diferencial entre rendimentos norte-americanos e japoneses. Mesmo depois do recente endurecimento monetário do Banco do Japão, yields elevadas nos Estados Unidos mantêm pressão sobre a moeda japonesa.

Rand Mostra Vulnerabilidade ao Petróleo e ao Dólar

Para África Austral, o comportamento do rand constitui uma referência importante sobre a transmissão das condições financeiras internacionais.

Em 14 de Setembro, quando uma nova perturbação da oferta no Médio Oriente elevou os preços do petróleo e os mercados aguardavam a decisão da Fed, o rand caiu cerca de 1,1%, para 16,3175 por dólar, segundo a Reuters.

A reacção mostra a sensibilidade da moeda sul-africana à combinação actualmente presente nos mercados: petróleo caro, dólar forte e juros norte-americanos elevados.

A África do Sul é importadora líquida de petróleo. A subida dos preços energéticos pode deteriorar as condições comerciais, elevar custos internos e aumentar a procura de dólares para financiar importações.

O comportamento do rand também possui importância regional devido à profundidade dos vínculos comerciais e financeiros entre a África do Sul e várias economias da África Austral.

Ouro Cai Mais de 2% Com Reprecificação dos Juros

O efeito do novo cenário monetário também chegou aos metais preciosos.

O ouro spot caiu 2,1%, para US$ 4.198,10 por onça, nesta segunda-feira, encaminhando-se para a maior queda diária desde 1 de Setembro, segundo a Reuters.

O movimento mostra como a subida do petróleo está a produzir efeitos diferentes entre classes de activos.

O ouro tende a beneficiar de períodos de tensão geopolítica e inflação elevada. Taxas de juro e yields reais superiores, contudo, aumentam o custo de oportunidade de deter um activo que não paga juros.

Nesta sessão, a expectativa de novo aperto monetário pela Fed e a valorização do dólar estão a superar o efeito tradicional de procura de refúgio associado ao conflito.

PCE e Emprego Podem Redefinir Expectativas Para Outubro

A trajectória do dólar durante os próximos dias será condicionada pela divulgação de novos indicadores norte-americanos.

Os investidores aguardam dados de inflação PCE e, posteriormente, o relatório de emprego de Setembro. O Bureau of Labor Statistics confirmou a publicação do Employment Situation em 2 de Outubro.

A leitura conjunta será relevante para a reunião da Fed de 27 e 28 de Outubro.

Inflação resistente acompanhada por mercado de trabalho sólido reforçaria a capacidade da Fed para prosseguir com o aperto monetário. Uma deterioração significativa do emprego poderia introduzir maior cautela, mesmo perante pressões inflacionárias vindas da energia.

Os mercados acompanham igualmente os indicadores PMI da China, inflação da zona euro e Japão e a decisão do Reserve Bank of Australia.

Na Austrália, a expectativa indicada pela Reuters aponta para uma subida de 25 pontos base, para 4,60%, nível próximo de um máximo de 15 anos.

O conjunto reforça uma mudança que se tornou visível nas últimas semanas: vários bancos centrais voltaram a enfrentar simultaneamente inflação elevada e choques de oferta associados à energia.

Dólar Forte e Petróleo Caro Elevam Pressão Sobre Economias Importadoras

A combinação actual possui implicações directas para economias emergentes importadoras de combustíveis.

Grande parte do comércio internacional de petróleo é denominada em dólares. Quando o preço do barril sobe ao mesmo tempo que o dólar se valoriza, importadores enfrentam duas pressões: pagam mais pela commodity e necessitam de maior quantidade de moeda doméstica para adquirir os dólares usados na transacção.

Esse mecanismo pode aumentar custos de importação de combustíveis, transporte e produção e criar pressões sobre inflação e contas externas.

Para Moçambique, a transmissão pode ocorrer através do custo internacional dos combustíveis, fretes, importações denominadas em dólares e condições financeiras globais. O efeito interno efectivo dependerá da duração do choque, dos mecanismos de formação dos preços domésticos dos combustíveis, da evolução do metical e das condições de abastecimento.

O mesmo ambiente tende a aumentar a volatilidade das moedas emergentes. Taxas norte-americanas superiores podem incentivar fluxos para activos em dólares e elevar o custo de financiamento externo para governos e empresas.

Setembro Recoloca o Dólar no Centro dos Mercados

A valorização mensal de 1,7% do Dollar Index, o Brent acima de US$ 106, a probabilidade de 65% atribuída pelo mercado a nova subida da Fed e o recuo simultâneo de euro, libra e yen mostram uma alteração clara do posicionamento dos investidores.

O petróleo passou novamente a influenciar as expectativas de inflação. A inflação está a modificar as expectativas de juros. Os juros e as yields dos Treasuries estão a reforçar o dólar. E a valorização da moeda norte-americana está a redistribuir pressões através dos mercados cambiais, commodities e economias emergentes.

Os próximos dados norte-americanos determinarão a intensidade desse movimento.

Se inflação e emprego sustentarem a possibilidade de novo aperto monetário em Outubro, o diferencial de juros poderá continuar a favorecer o dólar. Uma redução das tensões no Médio Oriente capaz de fazer recuar o petróleo retiraria parte da pressão inflacionária que actualmente sustenta essa reprecificação.

Até lá, petróleo, inflação e Fed formam o principal eixo de transmissão para o mercado cambial global.

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