Turismo Entra Numa Nova Era: IA, Custos, Talento e Resiliência Redesenham a Competição Global

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TTDI 2026 mostra uma indústria que recuperou a procura perdida durante a pandemia e enfrenta pressões sobre investimento, infra-estruturas e trabalhadores; inteligência artificial altera a descoberta e compra de viagens, preços condicionam acessibilidade e riscos climáticos e geopolíticos elevam a importância da resiliência.

Questões-Chave:

  • 92% das 110 economias avaliadas melhoraram as condições de desenvolvimento turístico entre 2024 e 2026, com a pontuação média global a avançar 2,1%;
  • Infra-estruturas e serviços turísticos melhoraram 9,2% e transporte aéreo 7,2%, acompanhando a recuperação da capacidade e conectividade;
  • Financiamento de venture capital dirigido a soluções de turismo baseadas em inteligência artificial passou de 10% em 2023 para 45% no primeiro semestre de 2025;
  • Competitividade de preços deteriorou-se em 75% das economias avaliadas, pressionada por custos de energia, alimentação, trabalho, transporte e alojamento;
  • Investimento turístico continua aquém da evolução da procura e o sector poderá enfrentar um défice de 43 milhões de trabalhadores até 2035;
  • Procura por cultura, gastronomia, natureza e bem-estar está a ampliar a diversidade dos produtos turísticos e as oportunidades para destinos emergentes;
  • Alterações climáticas, conflitos e concentração excessiva de visitantes elevam os custos e obrigam destinos e empresas a incorporar resiliência na estratégia de investimento.

O turismo mundial recuperou a procura perdida durante a pandemia e entrou num ciclo em que o crescimento das viagens está a pressionar investimento, infra-estruturas, trabalhadores e capacidade dos destinos.

As chegadas internacionais atingiram 1,5 mil milhões em 2025, ultrapassando os níveis anteriores à Covid-19, enquanto a contribuição económica global das viagens e turismo alcançou um recorde de US$ 11,6 biliões.

O Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026 (TTDI), do Fórum Económico Mundial, mostra que a recuperação foi acompanhada por melhorias significativas nas condições de funcionamento da indústria. Entre 2024 e 2026, 101 das 110 economias avaliadas, equivalentes a 92%, melhoraram a pontuação global, e 14 dos 17 pilares registaram progressos. A média mundial avançou 2,1%, o ritmo mais elevado desde 2019.

A expansão também está a aumentar as necessidades de capital, capacidade aérea, alojamento, infra-estruturas e trabalhadores qualificados. Em paralelo, a inteligência artificial começa a modificar a relação entre destinos e consumidores, os custos pressionam a acessibilidade das viagens, alterações climáticas afectam activos turísticos e tensões geopolíticas interferem nas rotas e cadeias de transporte.

O resultado é uma competição cada vez mais determinada pela combinação entre tecnologia, capacidade física, investimento, talento, preço e resiliência.

Inteligência Artificial Entra Na Escolha Do Destino

Uma parte crescente da competição turística ocorre antes da realização da viagem.

A inteligência artificial está a entrar na pesquisa de destinos, construção de itinerários, comparação de alternativas, reservas, atendimento ao cliente, marketing e gestão das operações das empresas.

Segundo o Fórum Económico Mundial, a proporção das maiores empresas mundiais de viagens que mencionavam inteligência artificial nos respectivos relatórios anuais passou de 4% em 2022 para 35% em 2024.

O movimento do capital tecnológico reforça a tendência. A parcela do financiamento de venture capital da indústria de viagens direccionada para soluções baseadas em inteligência artificial aumentou de 10% em 2023 para 45% no primeiro semestre de 2025.

A evolução pode alterar a forma como destinos chegam aos consumidores. Durante décadas, países e empresas concentraram uma parte importante do esforço comercial em publicidade, feiras internacionais e promoção institucional. A expansão da internet transferiu crescente influência para motores de busca, redes sociais e plataformas digitais de reservas.

Os sistemas de inteligência artificial acrescentam agora mecanismos capazes de recomendar destinos, hotéis, restaurantes, experiências e itinerários directamente ao viajante.

A capacidade de disponibilizar informação estruturada e actualizada, permitir reservas electrónicas e integrar empresas nas plataformas digitais internacionais ganha, assim, peso na visibilidade comercial de um destino.

O Fórum Económico Mundial assinala que as estratégias nacionais de marca turística já começam a adaptar-se ao crescimento das pesquisas e recomendações orientadas por inteligência artificial.

Digitalização Amplia O Mercado E A Distância Entre Empresas

A preparação tecnológica foi uma das áreas que mais avançaram no TTDI.

Entre 2024 e 2026, o pilar de preparação para tecnologias de informação e comunicação melhorou 3,2%, com progressos em 91% das economias avaliadas.

As economias emergentes e em desenvolvimento registaram um crescimento de 4,9%, comparativamente a 1,6% nas economias avançadas. Apesar da recuperação mais rápida, permanecem, em média, 24% abaixo das economias avançadas neste indicador.

A diferença tecnológica repercute-se directamente sobre as empresas.

Uma pequena empresa turística com reduzida capacidade digital encontra maiores dificuldades para surgir nas pesquisas internacionais, receber pagamentos electrónicos, gerir reservas, analisar padrões de procura ou adoptar ferramentas de inteligência artificial.

Para hotéis, restaurantes, operadores e outros prestadores de serviços, a transformação digital influencia simultaneamente distribuição, produtividade, acesso aos mercados e conhecimento do consumidor.

A capacidade tecnológica passa, desta forma, a integrar os factores que determinam quais empresas conseguem participar nos fluxos internacionais de turismo e capturar uma parcela maior da despesa dos viajantes.

Investimento Continua Atrás Da Procura

A expansão das viagens está também a pressionar a capacidade física da indústria.

Entre 2024 e 2026, o pilar de Serviços e Infra-estruturas Turísticas melhorou 9,2%, enquanto a Infra-estrutura de Transporte Aéreo avançou 7,2%. Mais de 90% das economias registaram progressos nestas duas áreas.

A capacidade aérea disponível, medida através de quilómetros por lugares oferecidos, aumentou 18,7%, enquanto o indicador de conectividade aeroportuária avançou 8,5%.

O investimento global de capital no turismo terá crescido 8,5% em 2025, alcançando aproximadamente US$ 1,1 bilião.

O ritmo de investimento permanece, contudo, abaixo da expansão da procura. Segundo a análise apresentada pelo Fórum Económico Mundial, esta diferença está presente nas economias do G20 desde 2022 e poderá prolongar-se até 2033.

A característica intensiva em capital do turismo amplia o problema. Aeroportos, hotéis, estradas, caminhos-de-ferro, portos e grandes equipamentos turísticos exigem investimentos elevados e horizontes longos de recuperação.

Taxas de juro, restrições fiscais, tensões comerciais e incerteza geopolítica influenciam o custo e a disponibilidade desse capital.

Se a procura continuar a crescer acima do investimento, os efeitos poderão surgir através de congestionamento, menor disponibilidade de alojamento, preços mais elevados e perda de qualidade da experiência turística.

Preços Perdem Competitividade Em 75% Das Economias

A acessibilidade financeira das viagens também está sob pressão.

A Competitividade de Preços deteriorou-se em 75% das economias avaliadas entre 2024 e 2026, levando a pontuação média global deste pilar a recuar 3,1%.

Custos de trabalho, alimentação, energia e transportes contribuíram para esta evolução. Desde 2024, os preços da gasolina aumentaram em aproximadamente 65% das economias avaliadas, enquanto as tarifas dos quartos de hotel de gama média e superior subiram, em média, cerca de 6%.

O encarecimento das viagens aumenta a sensibilidade dos consumidores ao preço e reforça a comparação entre destinos.

Para economias emergentes com estruturas de custos relativamente competitivas, esta tendência pode abrir espaço para conquistar segmentos de mercado, desde que preço, conectividade, segurança, qualidade dos serviços e facilidade de acesso estejam adequadamente articulados.

A competição pelo visitante passa, assim, pela relação entre o custo total da viagem e o valor da experiência oferecida.

Défice De Trabalhadores Pode Chegar A 43 Milhões

A disponibilidade de trabalhadores qualificados constitui outra restrição à expansão do sector.

Mais de 70% das economias melhoraram o desempenho no pilar de Recursos Humanos e Mercado de Trabalho. A proporção da força laboral com educação avançada aumentou e a percepção sobre disponibilidade de trabalhadores qualificados também registou progressos.

As empresas continuam, porém, a enfrentar dificuldades na contratação e retenção de profissionais.

Horários extensos ou imprevisíveis, perspectivas de progressão profissional, condições laborais e novas expectativas sobre flexibilidade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal influenciam a capacidade de atracção do sector.

Segundo estimativas citadas pelo Fórum Económico Mundial, o défice mundial de trabalhadores no turismo poderá atingir 43 milhões de pessoas em 2035, correspondendo a cerca de 16% das necessidades projectadas.

Entre empresas de alojamento, alimentação e lazer consultadas no Future of Jobs Report 2025, 55% identificaram dificuldades para atrair talento, comparativamente a 37% no conjunto das indústrias.

O crescimento da procura terá, por isso, de ser acompanhado por investimento em qualificação, produtividade, tecnologia, automatização e desenvolvimento de carreiras capazes de tornar o sector atractivo para novos profissionais.

Cultura E Gastronomia Ganham Peso Na Procura

As preferências dos viajantes estão também a ampliar a diversidade dos produtos turísticos.

Os Recursos Culturais constituíram o pilar que mais melhorou no TTDI entre 2024 e 2026, com um avanço médio de 9,6% e progressos em mais de 95% das economias.

A procura digital por atracções culturais e de entretenimento, incluindo gastronomia, património, museus, festivais, tradições locais e artes performativas, aumentou aproximadamente 15%.

Mais de metade dos viajantes considera a alimentação durante a preparação das viagens, enquanto o mercado mundial do turismo gastronómico atingiu US$ 16,1 mil milhões em 2025, comparativamente a US$ 8,5 mil milhões em 2021.

A procura por natureza, actividades ao ar livre e bem-estar também continua a expandir-se. As despesas globais associadas ao turismo de bem-estar alcançaram cerca de US$ 894 mil milhões em 2024.

Esta diversificação abre espaço para economias capazes de transformar cultura, gastronomia, natureza e conhecimento local em experiências comercializáveis.

A cadeia de valor pode estender-se aos produtores agrícolas, pescadores, artesãos, indústrias criativas, restaurantes, guias, empresas de transporte e pequenos operadores, aumentando a participação das comunidades na despesa realizada pelos visitantes.

Resiliência Climática Protege Activos E Receitas

A exposição climática tornou-se uma variável económica cada vez mais relevante para destinos e investidores.

O TTDI identifica progressos na sustentabilidade energética: a participação média das fontes de baixo carbono na energia utilizada pelo sector passou de 5,7% em 2018 para quase 7% em 2024.

Ao mesmo tempo, ondas de calor, incêndios, escassez de água, perda de biodiversidade, tempestades e outros eventos extremos aumentam os riscos sobre infra-estruturas e operações turísticas.

Estradas, aeroportos, hotéis, parques, praias, festivais e cadeias logísticas podem sofrer interrupções ou perdas físicas, com consequências sobre receitas, custos de seguros e decisões de investimento.

O Fórum Económico Mundial cita o caso dos incêndios nas proximidades de Jasper, no Canadá, durante a época turística de 2024. As perdas foram estimadas em US$ 3,25 milhões por dia, enquanto os danos nas infra-estruturas mantinham a capacidade de alojamento cerca de 25% abaixo dos níveis anteriores ainda um ano depois.

Investimentos em infra-estruturas resilientes, gestão da água, energia, seguros, sistemas de alerta, diversificação de destinos e planos de continuidade operacional passam a desempenhar uma função directa na protecção dos activos e receitas do sector.

Geopolítica Afecta Rotas, Custos E Mercados Emissores

Os riscos geopolíticos também passaram a ter efeitos mais imediatos sobre a operação turística.

Conflitos podem encerrar espaços aéreos, alterar corredores de aviação, aumentar os preços dos combustíveis e obrigar companhias aéreas a utilizar rotas mais longas. O impacto chega rapidamente às tarifas, capacidade disponível e confiança dos viajantes.

O TTDI 2026 destaca as perturbações recentes nas ligações aéreas entre Europa, Ásia, Austrália e África associadas à escalada dos conflitos no Médio Oriente.

A resposta dos destinos envolve diversificação dos mercados emissores, utilização de diferentes hubs, flexibilidade das ligações aéreas e capacidade operacional para preservar acesso durante períodos de perturbação.

Uma elevada concentração de visitantes provenientes de poucos mercados aumenta a exposição a choques económicos, políticos ou logísticos nesses países. A diversificação reduz essa vulnerabilidade e amplia as fontes potenciais de procura.

Concentração De Visitantes Aumenta Custos Nos Destinos

Em algumas das economias mais procuradas, o crescimento das chegadas está a criar pressões sobre habitação, transportes, água, espaços públicos e património.

O indicador de sustentabilidade da procura permanece abaixo dos níveis de 2019. A Europa apresenta a menor pontuação regional nesta dimensão, quase 12% abaixo da média mundial, reflectindo problemas relacionados com concentração territorial, sazonalidade e pressão sobre determinados destinos.

Estas tensões estão a levar governos e operadores a distribuir visitantes por diferentes localidades e épocas do ano e a desenvolver segmentos capazes de gerar maior valor económico.

A avaliação do desempenho turístico passa, assim, a incorporar indicadores como despesa por visitante, duração da estadia, distribuição territorial das receitas, sazonalidade e benefícios gerados para as comunidades.

A gestão dos fluxos ganha relevância à medida que determinados destinos se aproximam dos limites físicos, ambientais e sociais da capacidade instalada.

Impacto Socioeconómico Recua 3,5%

Um dos sinais mais relevantes do TTDI 2026 surge na relação entre crescimento turístico e desenvolvimento económico.

Enquanto a procura recuperou e 14 dos 17 pilares melhoraram, o indicador de Impacto Socioeconómico do Turismo recuou 3,5% entre 2024 e 2026 e registou melhoria em cerca de 17% das economias avaliadas.

O dado mostra um desfasamento entre expansão da actividade e capacidade de converter esse crescimento em benefícios económicos e sociais mais amplos.

A profundidade das ligações entre turismo e economia local torna-se determinante.

Quando hotéis, restaurantes e operadores compram produção nacional, contratam empresas locais, geram empregos de maior produtividade e estimulam investimento, a despesa do visitante produz efeitos sucessivos sobre diferentes sectores.

Cadeias locais pouco desenvolvidas reduzem a retenção interna dessa despesa e limitam os efeitos multiplicadores sobre rendimento, emprego e actividade empresarial.

A capacidade de converter volume turístico em valor económico distribuído emerge, assim, como uma das questões centrais para governos e destinos.

Cinco Prioridades Orientam O Próximo Ciclo

A análise do Fórum Económico Mundial identifica cinco áreas prioritárias para governos, destinos, empresas e investidores.

A diversificação dos mercados emissores, segmentos e épocas do ano reduz a exposição a choques e sazonalidade. A protecção da conectividade, visibilidade e continuidade operacional reforça a capacidade de responder a conflitos, eventos climáticos e perturbações dos transportes.

A competitividade através do valor procura equilibrar preço, qualidade, acessibilidade e experiência. A integração das comunidades pretende ampliar os benefícios económicos locais e preservar a sustentabilidade social dos destinos. O reforço das competências procura assegurar trabalhadores capazes de responder à expansão do sector e incorporar novas tecnologias.

Estas prioridades convergem numa agenda em que crescimento, produtividade e resiliência precisam de avançar conjuntamente.

Produtividade, Resiliência E Valor Passam Ao Centro Da Competição

O TTDI 2026 apresenta uma indústria que recuperou a procura perdida durante a pandemia e enfrenta agora constrangimentos associados à própria expansão. O crescimento das viagens aumenta as necessidades de investimento, infra-estruturas, conectividade e trabalhadores qualificados, enquanto custos elevados, alterações climáticas e tensões geopolíticas acrescentam exigências à gestão dos destinos.

A inteligência artificial acrescenta outra variável ao modificar a descoberta de destinos, planeamento das viagens, distribuição, reservas e relação entre empresas e consumidores. Paralelamente, a pressão sobre algumas comunidades está a levar governos e operadores a observar com maior atenção a distribuição territorial dos visitantes, sazonalidade e valor económico gerado por cada viagem.

A vantagem competitiva tende a concentrar-se nas economias capazes de combinar capacidade física, tecnologia, talento, investimento, resiliência e integração das cadeias locais de valor.

Os números do TTDI reforçam esta leitura. A melhoria registada por 92% das economias avaliadas significa que os parâmetros de competitividade estão a avançar em grande parte do mercado. A deterioração da competitividade de preços, o défice projectado de trabalhadores e o investimento que continua atrás da procura mostram, por sua vez, os constrangimentos que acompanham a expansão.

O próximo ciclo de crescimento do turismo será condicionado pela capacidade de aumentar produtividade, mobilizar investimento, incorporar tecnologia, gerir riscos e converter a expansão das viagens em maior valor económico e social.

TTDI 2026 mostra uma indústria que recuperou a procura perdida durante a pandemia e enfrenta pressões sobre investimento, infra-estruturas e trabalhadores; inteligência artificial altera a descoberta e compra de viagens, preços condicionam acessibilidade e riscos climáticos e geopolíticos elevam a importância da resiliência.

Questões-Chave:

  • 92% das 110 economias avaliadas melhoraram as condições de desenvolvimento turístico entre 2024 e 2026, com a pontuação média global a avançar 2,1%;
  • Infra-estruturas e serviços turísticos melhoraram 9,2% e transporte aéreo 7,2%, acompanhando a recuperação da capacidade e conectividade;
  • Financiamento de venture capital dirigido a soluções de turismo baseadas em inteligência artificial passou de 10% em 2023 para 45% no primeiro semestre de 2025;
  • Competitividade de preços deteriorou-se em 75% das economias avaliadas, pressionada por custos de energia, alimentação, trabalho, transporte e alojamento;
  • Investimento turístico continua aquém da evolução da procura e o sector poderá enfrentar um défice de 43 milhões de trabalhadores até 2035;
  • Procura por cultura, gastronomia, natureza e bem-estar está a ampliar a diversidade dos produtos turísticos e as oportunidades para destinos emergentes;
  • Alterações climáticas, conflitos e concentração excessiva de visitantes elevam os custos e obrigam destinos e empresas a incorporar resiliência na estratégia de investimento.

O turismo mundial recuperou a procura perdida durante a pandemia e entrou num ciclo em que o crescimento das viagens está a pressionar investimento, infra-estruturas, trabalhadores e capacidade dos destinos.

As chegadas internacionais atingiram 1,5 mil milhões em 2025, ultrapassando os níveis anteriores à Covid-19, enquanto a contribuição económica global das viagens e turismo alcançou um recorde de US$ 11,6 biliões.

O Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026 (TTDI), do Fórum Económico Mundial, mostra que a recuperação foi acompanhada por melhorias significativas nas condições de funcionamento da indústria. Entre 2024 e 2026, 101 das 110 economias avaliadas, equivalentes a 92%, melhoraram a pontuação global, e 14 dos 17 pilares registaram progressos. A média mundial avançou 2,1%, o ritmo mais elevado desde 2019.

A expansão também está a aumentar as necessidades de capital, capacidade aérea, alojamento, infra-estruturas e trabalhadores qualificados. Em paralelo, a inteligência artificial começa a modificar a relação entre destinos e consumidores, os custos pressionam a acessibilidade das viagens, alterações climáticas afectam activos turísticos e tensões geopolíticas interferem nas rotas e cadeias de transporte.

O resultado é uma competição cada vez mais determinada pela combinação entre tecnologia, capacidade física, investimento, talento, preço e resiliência.

Inteligência Artificial Entra Na Escolha Do Destino

Uma parte crescente da competição turística ocorre antes da realização da viagem.

A inteligência artificial está a entrar na pesquisa de destinos, construção de itinerários, comparação de alternativas, reservas, atendimento ao cliente, marketing e gestão das operações das empresas.

Segundo o Fórum Económico Mundial, a proporção das maiores empresas mundiais de viagens que mencionavam inteligência artificial nos respectivos relatórios anuais passou de 4% em 2022 para 35% em 2024.

O movimento do capital tecnológico reforça a tendência. A parcela do financiamento de venture capital da indústria de viagens direccionada para soluções baseadas em inteligência artificial aumentou de 10% em 2023 para 45% no primeiro semestre de 2025.

A evolução pode alterar a forma como destinos chegam aos consumidores. Durante décadas, países e empresas concentraram uma parte importante do esforço comercial em publicidade, feiras internacionais e promoção institucional. A expansão da internet transferiu crescente influência para motores de busca, redes sociais e plataformas digitais de reservas.

Os sistemas de inteligência artificial acrescentam agora mecanismos capazes de recomendar destinos, hotéis, restaurantes, experiências e itinerários directamente ao viajante.

A capacidade de disponibilizar informação estruturada e actualizada, permitir reservas electrónicas e integrar empresas nas plataformas digitais internacionais ganha, assim, peso na visibilidade comercial de um destino.

O Fórum Económico Mundial assinala que as estratégias nacionais de marca turística já começam a adaptar-se ao crescimento das pesquisas e recomendações orientadas por inteligência artificial.

Digitalização Amplia O Mercado E A Distância Entre Empresas

A preparação tecnológica foi uma das áreas que mais avançaram no TTDI.

Entre 2024 e 2026, o pilar de preparação para tecnologias de informação e comunicação melhorou 3,2%, com progressos em 91% das economias avaliadas.

As economias emergentes e em desenvolvimento registaram um crescimento de 4,9%, comparativamente a 1,6% nas economias avançadas. Apesar da recuperação mais rápida, permanecem, em média, 24% abaixo das economias avançadas neste indicador.

A diferença tecnológica repercute-se directamente sobre as empresas.

Uma pequena empresa turística com reduzida capacidade digital encontra maiores dificuldades para surgir nas pesquisas internacionais, receber pagamentos electrónicos, gerir reservas, analisar padrões de procura ou adoptar ferramentas de inteligência artificial.

Para hotéis, restaurantes, operadores e outros prestadores de serviços, a transformação digital influencia simultaneamente distribuição, produtividade, acesso aos mercados e conhecimento do consumidor.

A capacidade tecnológica passa, desta forma, a integrar os factores que determinam quais empresas conseguem participar nos fluxos internacionais de turismo e capturar uma parcela maior da despesa dos viajantes.

Investimento Continua Atrás Da Procura

A expansão das viagens está também a pressionar a capacidade física da indústria.

Entre 2024 e 2026, o pilar de Serviços e Infra-estruturas Turísticas melhorou 9,2%, enquanto a Infra-estrutura de Transporte Aéreo avançou 7,2%. Mais de 90% das economias registaram progressos nestas duas áreas.

A capacidade aérea disponível, medida através de quilómetros por lugares oferecidos, aumentou 18,7%, enquanto o indicador de conectividade aeroportuária avançou 8,5%.

O investimento global de capital no turismo terá crescido 8,5% em 2025, alcançando aproximadamente US$ 1,1 bilião.

O ritmo de investimento permanece, contudo, abaixo da expansão da procura. Segundo a análise apresentada pelo Fórum Económico Mundial, esta diferença está presente nas economias do G20 desde 2022 e poderá prolongar-se até 2033.

A característica intensiva em capital do turismo amplia o problema. Aeroportos, hotéis, estradas, caminhos-de-ferro, portos e grandes equipamentos turísticos exigem investimentos elevados e horizontes longos de recuperação.

Taxas de juro, restrições fiscais, tensões comerciais e incerteza geopolítica influenciam o custo e a disponibilidade desse capital.

Se a procura continuar a crescer acima do investimento, os efeitos poderão surgir através de congestionamento, menor disponibilidade de alojamento, preços mais elevados e perda de qualidade da experiência turística.

Preços Perdem Competitividade Em 75% Das Economias

A acessibilidade financeira das viagens também está sob pressão.

A Competitividade de Preços deteriorou-se em 75% das economias avaliadas entre 2024 e 2026, levando a pontuação média global deste pilar a recuar 3,1%.

Custos de trabalho, alimentação, energia e transportes contribuíram para esta evolução. Desde 2024, os preços da gasolina aumentaram em aproximadamente 65% das economias avaliadas, enquanto as tarifas dos quartos de hotel de gama média e superior subiram, em média, cerca de 6%.

O encarecimento das viagens aumenta a sensibilidade dos consumidores ao preço e reforça a comparação entre destinos.

Para economias emergentes com estruturas de custos relativamente competitivas, esta tendência pode abrir espaço para conquistar segmentos de mercado, desde que preço, conectividade, segurança, qualidade dos serviços e facilidade de acesso estejam adequadamente articulados.

A competição pelo visitante passa, assim, pela relação entre o custo total da viagem e o valor da experiência oferecida.

Défice De Trabalhadores Pode Chegar A 43 Milhões

A disponibilidade de trabalhadores qualificados constitui outra restrição à expansão do sector.

Mais de 70% das economias melhoraram o desempenho no pilar de Recursos Humanos e Mercado de Trabalho. A proporção da força laboral com educação avançada aumentou e a percepção sobre disponibilidade de trabalhadores qualificados também registou progressos.

As empresas continuam, porém, a enfrentar dificuldades na contratação e retenção de profissionais.

Horários extensos ou imprevisíveis, perspectivas de progressão profissional, condições laborais e novas expectativas sobre flexibilidade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal influenciam a capacidade de atracção do sector.

Segundo estimativas citadas pelo Fórum Económico Mundial, o défice mundial de trabalhadores no turismo poderá atingir 43 milhões de pessoas em 2035, correspondendo a cerca de 16% das necessidades projectadas.

Entre empresas de alojamento, alimentação e lazer consultadas no Future of Jobs Report 2025, 55% identificaram dificuldades para atrair talento, comparativamente a 37% no conjunto das indústrias.

O crescimento da procura terá, por isso, de ser acompanhado por investimento em qualificação, produtividade, tecnologia, automatização e desenvolvimento de carreiras capazes de tornar o sector atractivo para novos profissionais.

Cultura E Gastronomia Ganham Peso Na Procura

As preferências dos viajantes estão também a ampliar a diversidade dos produtos turísticos.

Os Recursos Culturais constituíram o pilar que mais melhorou no TTDI entre 2024 e 2026, com um avanço médio de 9,6% e progressos em mais de 95% das economias.

A procura digital por atracções culturais e de entretenimento, incluindo gastronomia, património, museus, festivais, tradições locais e artes performativas, aumentou aproximadamente 15%.

Mais de metade dos viajantes considera a alimentação durante a preparação das viagens, enquanto o mercado mundial do turismo gastronómico atingiu US$ 16,1 mil milhões em 2025, comparativamente a US$ 8,5 mil milhões em 2021.

A procura por natureza, actividades ao ar livre e bem-estar também continua a expandir-se. As despesas globais associadas ao turismo de bem-estar alcançaram cerca de US$ 894 mil milhões em 2024.

Esta diversificação abre espaço para economias capazes de transformar cultura, gastronomia, natureza e conhecimento local em experiências comercializáveis.

A cadeia de valor pode estender-se aos produtores agrícolas, pescadores, artesãos, indústrias criativas, restaurantes, guias, empresas de transporte e pequenos operadores, aumentando a participação das comunidades na despesa realizada pelos visitantes.

Resiliência Climática Protege Activos E Receitas

A exposição climática tornou-se uma variável económica cada vez mais relevante para destinos e investidores.

O TTDI identifica progressos na sustentabilidade energética: a participação média das fontes de baixo carbono na energia utilizada pelo sector passou de 5,7% em 2018 para quase 7% em 2024.

Ao mesmo tempo, ondas de calor, incêndios, escassez de água, perda de biodiversidade, tempestades e outros eventos extremos aumentam os riscos sobre infra-estruturas e operações turísticas.

Estradas, aeroportos, hotéis, parques, praias, festivais e cadeias logísticas podem sofrer interrupções ou perdas físicas, com consequências sobre receitas, custos de seguros e decisões de investimento.

O Fórum Económico Mundial cita o caso dos incêndios nas proximidades de Jasper, no Canadá, durante a época turística de 2024. As perdas foram estimadas em US$ 3,25 milhões por dia, enquanto os danos nas infra-estruturas mantinham a capacidade de alojamento cerca de 25% abaixo dos níveis anteriores ainda um ano depois.

Investimentos em infra-estruturas resilientes, gestão da água, energia, seguros, sistemas de alerta, diversificação de destinos e planos de continuidade operacional passam a desempenhar uma função directa na protecção dos activos e receitas do sector.

Geopolítica Afecta Rotas, Custos E Mercados Emissores

Os riscos geopolíticos também passaram a ter efeitos mais imediatos sobre a operação turística.

Conflitos podem encerrar espaços aéreos, alterar corredores de aviação, aumentar os preços dos combustíveis e obrigar companhias aéreas a utilizar rotas mais longas. O impacto chega rapidamente às tarifas, capacidade disponível e confiança dos viajantes.

O TTDI 2026 destaca as perturbações recentes nas ligações aéreas entre Europa, Ásia, Austrália e África associadas à escalada dos conflitos no Médio Oriente.

A resposta dos destinos envolve diversificação dos mercados emissores, utilização de diferentes hubs, flexibilidade das ligações aéreas e capacidade operacional para preservar acesso durante períodos de perturbação.

Uma elevada concentração de visitantes provenientes de poucos mercados aumenta a exposição a choques económicos, políticos ou logísticos nesses países. A diversificação reduz essa vulnerabilidade e amplia as fontes potenciais de procura.

Concentração De Visitantes Aumenta Custos Nos Destinos

Em algumas das economias mais procuradas, o crescimento das chegadas está a criar pressões sobre habitação, transportes, água, espaços públicos e património.

O indicador de sustentabilidade da procura permanece abaixo dos níveis de 2019. A Europa apresenta a menor pontuação regional nesta dimensão, quase 12% abaixo da média mundial, reflectindo problemas relacionados com concentração territorial, sazonalidade e pressão sobre determinados destinos.

Estas tensões estão a levar governos e operadores a distribuir visitantes por diferentes localidades e épocas do ano e a desenvolver segmentos capazes de gerar maior valor económico.

A avaliação do desempenho turístico passa, assim, a incorporar indicadores como despesa por visitante, duração da estadia, distribuição territorial das receitas, sazonalidade e benefícios gerados para as comunidades.

A gestão dos fluxos ganha relevância à medida que determinados destinos se aproximam dos limites físicos, ambientais e sociais da capacidade instalada.

Impacto Socioeconómico Recua 3,5%

Um dos sinais mais relevantes do TTDI 2026 surge na relação entre crescimento turístico e desenvolvimento económico.

Enquanto a procura recuperou e 14 dos 17 pilares melhoraram, o indicador de Impacto Socioeconómico do Turismo recuou 3,5% entre 2024 e 2026 e registou melhoria em cerca de 17% das economias avaliadas.

O dado mostra um desfasamento entre expansão da actividade e capacidade de converter esse crescimento em benefícios económicos e sociais mais amplos.

A profundidade das ligações entre turismo e economia local torna-se determinante.

Quando hotéis, restaurantes e operadores compram produção nacional, contratam empresas locais, geram empregos de maior produtividade e estimulam investimento, a despesa do visitante produz efeitos sucessivos sobre diferentes sectores.

Cadeias locais pouco desenvolvidas reduzem a retenção interna dessa despesa e limitam os efeitos multiplicadores sobre rendimento, emprego e actividade empresarial.

A capacidade de converter volume turístico em valor económico distribuído emerge, assim, como uma das questões centrais para governos e destinos.

Cinco Prioridades Orientam O Próximo Ciclo

A análise do Fórum Económico Mundial identifica cinco áreas prioritárias para governos, destinos, empresas e investidores.

A diversificação dos mercados emissores, segmentos e épocas do ano reduz a exposição a choques e sazonalidade. A protecção da conectividade, visibilidade e continuidade operacional reforça a capacidade de responder a conflitos, eventos climáticos e perturbações dos transportes.

A competitividade através do valor procura equilibrar preço, qualidade, acessibilidade e experiência. A integração das comunidades pretende ampliar os benefícios económicos locais e preservar a sustentabilidade social dos destinos. O reforço das competências procura assegurar trabalhadores capazes de responder à expansão do sector e incorporar novas tecnologias.

Estas prioridades convergem numa agenda em que crescimento, produtividade e resiliência precisam de avançar conjuntamente.

Produtividade, Resiliência E Valor Passam Ao Centro Da Competição

O TTDI 2026 apresenta uma indústria que recuperou a procura perdida durante a pandemia e enfrenta agora constrangimentos associados à própria expansão. O crescimento das viagens aumenta as necessidades de investimento, infra-estruturas, conectividade e trabalhadores qualificados, enquanto custos elevados, alterações climáticas e tensões geopolíticas acrescentam exigências à gestão dos destinos.

A inteligência artificial acrescenta outra variável ao modificar a descoberta de destinos, planeamento das viagens, distribuição, reservas e relação entre empresas e consumidores. Paralelamente, a pressão sobre algumas comunidades está a levar governos e operadores a observar com maior atenção a distribuição territorial dos visitantes, sazonalidade e valor económico gerado por cada viagem.

A vantagem competitiva tende a concentrar-se nas economias capazes de combinar capacidade física, tecnologia, talento, investimento, resiliência e integração das cadeias locais de valor.

Os números do TTDI reforçam esta leitura. A melhoria registada por 92% das economias avaliadas significa que os parâmetros de competitividade estão a avançar em grande parte do mercado. A deterioração da competitividade de preços, o défice projectado de trabalhadores e o investimento que continua atrás da procura mostram, por sua vez, os constrangimentos que acompanham a expansão.

O próximo ciclo de crescimento do turismo será condicionado pela capacidade de aumentar produtividade, mobilizar investimento, incorporar tecnologia, gerir riscos e converter a expansão das viagens em maior valor económico e social.