Desenvolvimento humano atrasado em 90% dos países e o índice regista primeiro declínio consecutivo em três décadas

Moçambique está  na posição 185 dos 195 países avaliados.

Abaixo do nosso país apenas estão o Mali, o Burundi, a República Centro Africana, Níger, Chade e o Sudão do Sul.

O novo Relatório da ONU sobre Desenvolvimento Humano, divulgado nesta quinta-feira, 08.07, alerta que múltiplas crises que estão a impedir o progresso do desenvolvimento humano, situação que está a causar retrocessos  na esmagadora maioria dos países.

Relatório de Desenvolvimento Humano 2021/22, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, mostra o retrato de uma sociedade global atravessar  múltiplas crises e que pode seguir uma tendência de crescentes privações e injustiças.

A lista de eventos que causam essas crescentes e grandes perturbações globais é grande. A pandemia de Covid-19 e a invasão russa a Ucrânia a vieram  se somar às amplas transformações sociais e económicas que ocorreram nu mundo num passado muito recente.

Primeiro declínio consecutivo em três décadas

Pela primeira vez nos 32 anos em que PNUD calcula o Índice de Desenvolvimento Humano – que mede a saúde, a educação e o padrão de vida de uma nação – o número diminuiu globalmente por dois anos consecutivos, sinalizando um aprofundamento da crise para muitas regiões. América Latina, Caribe, África Subsaariana e Sul da Ásia foram particularmente atingidos.

O desenvolvimento humano voltou aos níveis de 2016, revertendo grande parte do progresso em direcção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável , ODS, que compõem a Agenda 2030, o plano da ONU para um futuro mais justo para as pessoas e o planeta.

O Segundo o Administrador do PNUD, o mundo trava uma luta para responder a crises consecutivas. Achim Steiner explica que as crises de custo de vida e energia levaram a tentativas de “soluções rápidas”, como subsidiar combustíveis fósseis. Ele avalia essas táticas de socorro imediato estando a atrasar mudanças sistêmicas de longo prazo que devem ser feitas.

Steiner pediu um renovado senso de solidariedade global para enfrentar “desafios comuns e interconectados”, mas reconheceu que a comunidade internacional está atualmente “paralisada para fazer essas mudanças”.

O estudo aponta para a insegurança e polarização dificultando os esforços para trazer a colaboração necessária para enfrentar grandes desafios globais, com dados sugerindo que aqueles que se sentem mais inseguros estão mais propensos a ter visões extremistas. Esse fenômeno foi observado antes mesmo da pandemia de Covid-19.

Covid-19 foi uma janela para uma nova realidade

Agora em seu terceiro ano, a pandemia é descrita no relatório como “uma janela para uma nova realidade”, em vez de um simples desvio de rota. O desenvolvimento de vacinas eficazes é visto como uma conquista importante, responsável por salvar cerca de 20 milhões de vidas e uma demonstração do enorme poder da inovação aliada à vontade política.

Ao mesmo tempo, refere o relatório do PNUD, o lançamento dos imunizantes revelou enormes desigualdades da economia global. O acesso tem sido um desafio em muitos países de baixa renda, e mulheres e raparigas foram as que mais sofreram, assumindo mais responsabilidades domésticas e de cuidado, além de enfrentarem o aumento da violência.

Vivendo um novo “complexo de incerteza”

As ameaças existenciais criadas pelos humanos são maiores que os desastres naturais

As ondas sucessivas de novas variantes de Covid-19 e os avisos de que as pandemias futuras são cada vez mais prováveis ajudaram a compor uma atmosfera generalizada de incerteza. A acelerada mudança tecnológica e seus efeitos no local de trabalho, além dos temores em torno da crise climática, aprofundaram a instabilidade.

Os autores do estudo alertam que a convulsão global da pandemia não é nada comparada ao que o mundo experimentaria se ocorresse um colapso na biodiversidade e as sociedades se vissem tendo que resolver o desafio de cultivar alimentos em escala, sem insectos polinizadores.

Segundo o relatório, pela primeira vez na história as ameaças existenciais criadas pelos humanos são maiores do que as de desastres naturais. As três camadas do “complexo de incerteza” são a mudança planetária, a transição para novas formas de organizar as sociedades industriais e a intensificação da polarização política e social.

A publicação afirma que não são apenas os tufões que estão ficando maiores e mais mortais devido ao impacto humano no meio ambiente. A análise do documento aponta que as escolhas sociais têm impactado especialmente os mais vulneráveis.

Há oportunidades nas incertezas

O relatório destaca que, embora a mudança seja inevitável, as formas como respondemos não são. Embora existam muitos temores bem fundamentados em torno do uso crescente da Inteligência Artificial, há muitas vantagens demonstráveis para a tecnologia, que está, entre outras coisas, a ajudar a modelar os impactos das mudanças climáticas, melhorar o aprendizado individualizado e ajudar no desenvolvimento de medicamentos.

Um resultado para o mundo pós-Covid é a criação de uma nova tecnologia de vacina de mRNA, que promete um avanço na maneira como outras doenças são tratadas. A pandemia também normalizou as licenças médicas remuneradas, o distanciamento social voluntário e o auto-isolamento, todos importantes para a resposta a futuras pandemias.

É possível traçar um novo caminho

O texto ressalta que os últimos três anos podem servir para mostrar do que o mundo é capaz quando vai além das formas convencionais de fazer as coisas, transformando instituições para que se adaptem melhor ao mundo de hoje.

De acordo com Steiner, a análise contida no relatório pode ajudar a traçar um novo rumo para a actual incerteza global. Ele afirma que há uma janela estreita para reiniciar os sistemas e garantir um futuro baseado em ações climáticas decisivas e novas oportunidades para todos.

Essa nova direcção envolve a implementação de políticas com foco no investimento, desde energia renovável até preparação para pandemias, incluindo proteção social para preparar as sociedades para os altos e baixos de um mundo incerto, e inovação que ajuda os países a responder melhor a quaisquer desafios que venham a seguir.

Segundo o autor do relatório, Pedro Conceição, para navegar na incerteza, é necessário dobrar o desenvolvimento humano e olhar além da melhoria da riqueza ou da saúde das pessoas.

Ele afirma que, embora esses pontos continuem importantes, também é necessário proteger o planeta e fornecer às pessoas as ferramentas necessárias para se sentirem mais seguras, recuperar o controle sobre suas vidas e ter esperança no futuro.