Acesso ao financiamento passa de difícil a muito difícil    

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_Embora seja uma tendência global, as condições estruturais da economia nacional agravam esta situação.

As condições para obtenção de financiamento estão cada vez mais proibitivas, um resultado da postura mais conservadora da política monetária no contexto de elevadas pressões inflacionárias. No caso concreto da economia nacional, o recente aumento na prime rate, referência nas operações de crédito de taxa de juro variável, pelo segundo mês consecutivo este ano, confirma esta tendência.

O primeiro aumento da referida taxa, na ordem de 50 pontos base (pb), foi registado em Maio do ano em curso, após sete meses sem sofrer qualquer alteração ao nível de 18,60%, passando para 19,10%. O segundo ajuste, ainda mais expressivo, em cerca de 150 pontos base, elevou a taxa para os actuais 20, 60%, totalizando um aumento de 200pb.

Com estes dois ajustes, ficou integralmente reflectido o impacto da decisão tomada pelo regulador em finais de Março quando, numa postura mais restritiva e visando o controlo da inflação a curto e médio prazo, procedeu a um agravamento da taxa de juro de política monetária (taxa MIMO) em 200 pontos base, para 15,25%.

Trata-se, efectivamente, do resultado das condições monetárias mais apertadas visando a contenção das pressões inflacionárias impulsionadas pelo aumento nos preços globais das commodities energéticas e alimentares. Com efeito, o país registou, só nos primeiros quatro meses deste ano, um aumento de preços da ordem de 4,51%, tendo a inflação homóloga acelerado para cerca de 7,9% em Abril, um nível que não é alcançado desde Abril de 2017.

Embora as perspectivas apontem para a manutenção da inflação a um dígito a curto e médio prazo, os riscos são elevados, antevendo-se, portanto, uma resposta ainda mais agressiva de aperto monetário e condições financeiras ainda menos favoráveis para os agentes económicos.

A racionalidade da medida assenta na ideia de que com um acesso ao crédito mais restritivo no país e o dinheiro mais caro, os moçambicanos terão em menor incentivo em contratar empréstimos, um menor poder de compra, e consequentemente procurem menos por certos produtos e serviços. Com isto, e seguindo o mecanismo mercado, o aumento dos preços será contido no curto e médio prazo.

Nesta perspectiva e considerando os elevados riscos inflacionários, novos aumentos do custo de crédito ainda não podem ser descartados. Com efeito, a consultora Fitch Solutions avançou, na sua mais recente análise à política monetária do país, ser expectável um novo aumento da taxa de juro pela Autoridade Monetária para 15,75% ainda este ano e 16,75% em 2023, combatendo a subida da inflação num contexto de aceleração económica.

Ainda que com efeitos particularmente mais graves na economia nacional, onde o custo de crédito já era considerado elevado e incomportável mesmo antes dos recentes desenvolvimentos, o aperto das condições financeiras representa uma tendência global. Assiste-se, a nível mundial, a uma reversão das políticas monetárias complacentes/facilitadas adoptadas desde a crise financeira global em 2008 e impulsionadas ainda mais recentemente pela pandemia da Covid-19, uma tendência que, segundo uma análise da @FinancialTimes sobre o assunto, levou ao aperto mais generalizado da política monetária em mais de duas décadas.

São mais de 60 bancos centrais, dez dos quais no continente africano, que elevaram os seus custos de crédito este ano, incluindo a Reserva Federal dos Estados Unidos e o Banco da Inglaterra, que reverteram décadas de condições financeiras ultra-facilitadas e responderam à alta dos preços com aumentos das taxas em reuniões sucessivas, apontam dados da @Bloomberg.

O ciclo de política restritiva é, de facto, um fenómeno global e a economia nacional não está a fazer mais do que acompanhar esta tendência. Entretanto, pelo facto de esta postura mais restritiva implicar um agravamento das taxas já consideradas altas, o custo da medida é mais penoso para o país quando comparado com outras economias que partem de uma situação relativamente mais favorável.  

Com efeito, mesmo ao nível dos países da região que procederam a um aumento das taxas de juro ao longo do no em curso – designadamente: Botswana (1,65%), Namíbia (4,25%), África do Sul (4,75%) – Moçambique ainda figura como a economia com o custo de crédito mais elevado, perdendo apenas para o Zimbabwe, um país com histórico de hiperinflação, apresentando uma taxa de política de 80%.

As implicações incluem não só a dificuldade de contrair novos empréstimos para o consumo e aplicações em investimentos produtivos mas também um aumento das despesas para fazer face as obrigações creditícias existentes que, junto dos impostos, figuram como as mais importantes na estrutura de custos do sector privado.(OE)

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