África Ultrapassa A Ásia E Torna-se O Epicentro Mundial Da Fome

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  • O número de pessoas afectadas pela fome diminuiu globalmente pelo terceiro ano consecutivo, para cerca de 645 milhões em 2025. Contudo, África passou a concentrar 309 milhões de pessoas subalimentadas, contra 292 milhões na Ásia, enquanto 66,6% da população africana continua sem capacidade financeira para adquirir uma dieta saudável. O relatório das Nações Unidas mostra que produzir mais alimentos será insuficiente sem reduzir os custos da logística, conservação, energia, processamento e distribuição.

Questões-Chave

  • Cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2025, menos 14 milhões do que em 2024;
  • África passou a reunir o maior número de pessoas afectadas pela fome: 309 milhões, contra 292 milhões na Ásia;
  • Uma em cada cinco pessoas no continente africano continua subalimentada;
  • Em 2030, África poderá concentrar 56% das pessoas afectadas pela fome no mundo;
  • Cerca de 2,69 mil milhões de pessoas não conseguem pagar uma dieta saudável, incluindo 66,6% da população africana;
  • O custo médio mundial de uma dieta saudável subiu para 4,28 dólares em paridade do poder de compra por pessoa e por dia;
  • Entre 70% e 75% do preço pago pelos consumidores é formado depois da produção agrícola, sobretudo no processamento, transporte, armazenamento e comércio.

A fome diminuiu globalmente pelo terceiro ano consecutivo, mas o progresso esconde uma transformação particularmente preocupante na geografia da insegurança alimentar: pela primeira vez, África passou a concentrar o maior número absoluto de pessoas afectadas, ultrapassando a Ásia.

O relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026, elaborado conjuntamente pela FAO, Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, UNICEF, Programa Mundial para a Alimentação e Organização Mundial da Saúde, estima que cerca de 7,8% da população mundial enfrentou fome em 2025, contra 8,1% em 2024 e 8,6% em 2022.

Em termos absolutos, entre 608 milhões e 696 milhões de pessoas terão enfrentado subalimentação. O ponto médio da estimativa situa o número em aproximadamente 645 milhões, representando uma redução de 14 milhões relativamente a 2024 e de 43 milhões face a 2022.

A Reuters, ao analisar as novas estimativas das Nações Unidas, assinala que a melhoria mundial foi impulsionada sobretudo pela Ásia — com destaque para a Índia — e pela América Latina, onde programas sociais mais direccionados e aumentos da produtividade agrícola contribuíram para reduzir a subalimentação. 

A recuperação, porém, continua a ser insuficiente. O número de pessoas afectadas permanece acima do nível anterior à pandemia e é superior em cerca de 50 milhões ao registado em 2015, quando foi adoptada a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

África Melhora Em Percentagem, Mas Piora Na Dimensão Humana

O relatório identifica uma ligeira mudança positiva em África: a prevalência da fome recuou de 20,3% da população em 2024 para 20% em 2025, interrompendo uma trajectória de agravamento que se mantinha desde 2017.

Contudo, a redução percentual não impediu que o continente passasse a concentrar o maior número de pessoas subalimentadas. Cerca de 309 milhões de africanos enfrentaram fome em 2025, comparativamente a 292 milhões na Ásia e 32 milhões na América Latina e Caraíbas.

Significa que uma em cada cinco pessoas em África enfrenta subalimentação, contra 6% na Ásia e 4,8% na América Latina e Caraíbas.

A FAO considera que a interrupção da subida da prevalência constitui um sinal importante de que a fome não é inevitável. Porém, alerta que o rápido crescimento demográfico poderá continuar a aumentar o número absoluto de pessoas afectadas, mesmo quando a proporção diminui lentamente. 

Esta distinção é essencial. Uma descida da taxa de fome pode coexistir com um aumento do número de pessoas subalimentadas quando a população cresce mais rapidamente do que a capacidade das políticas públicas, da agricultura e dos sistemas de protecção social para garantir acesso adequado aos alimentos.

O problema africano não reside, portanto, apenas na produção agregada. Resulta também da combinação entre crescimento populacional, pobreza, conflitos, choques climáticos, fraca produtividade, elevados custos logísticos e limitada capacidade financeira dos agregados familiares.

África Poderá Concentrar 56% Da Fome Mundial Em 2030

As projecções indicam que o número mundial de pessoas afectadas pela fome poderá continuar a diminuir nos próximos cinco anos. Contudo, entre 510 milhões e 520 milhões de pessoas poderão ainda estar subalimentadas em 2030.

Deste total, aproximadamente 56% estarão em África. O continente poderá, assim, reunir mais de metade das pessoas afectadas pela fome no mundo no ano em que a comunidade internacional se comprometeu a alcançar o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável relativo à Fome Zero.

Esta projecção confirma que uma melhoria da média mundial não significa necessariamente convergência entre regiões. A Ásia e a América Latina poderão continuar a reduzir a fome, enquanto África absorve uma parcela cada vez maior do problema remanescente.

O relatório adverte igualmente que o conflito no Médio Oriente, a instabilidade dos preços energéticos, eventuais perturbações comerciais e novos fenómenos climáticos poderão comprometer as projecções de melhoria, especialmente nas economias africanas e asiáticas dependentes da importação de alimentos, fertilizantes e combustíveis.

A Reuters observa que as ameaças associadas ao clima, às rotas comerciais e aos custos energéticos permanecem capazes de inverter parte dos ganhos alcançados. 

Menos Fome Não Significa Acesso A Uma Alimentação Saudável

O relatório estabelece uma diferença entre ingerir calorias suficientes e consumir uma alimentação adequada, equilibrada, diversificada e moderada.

Uma pessoa pode não ser classificada como subalimentada e, ainda assim, depender de uma dieta composta quase exclusivamente por cereais, raízes ou outros alimentos ricos em energia, mas pobres em proteínas, vitaminas e minerais.

Em 2025, cerca de 2,1 mil milhões de pessoas — 25,8% da população mundial — enfrentaram insegurança alimentar moderada ou severa. O número diminuiu em aproximadamente 86 milhões relativamente a 2024 e em 135 milhões face a 2020, mas continua acima dos níveis anteriores à pandemia.

Mais de um terço deste universo, cerca de 778,6 milhões de pessoas, encontrava-se em situação de insegurança alimentar severa.

O relatório mostra ainda que a insegurança alimentar continua a ser mais elevada nas zonas rurais do que nas áreas periurbanas e urbanas. As mulheres permanecem proporcionalmente mais afectadas do que os homens, ainda que a diferença tenha diminuído em 2025.

Assim, a melhoria global deve ser interpretada com prudência. O recuo da fome mede um progresso importante, mas não significa que as populações estejam a consumir alimentos suficientemente diversificados para assegurar crescimento infantil, saúde, aprendizagem e produtividade.

Dois Em Cada Três Africanos Não Conseguem Pagar Uma Dieta Saudável

A dimensão mais crítica do relatório encontra-se na acessibilidade económica dos alimentos nutritivos.

O custo médio mundial de uma dieta saudável aumentou de 2,94 dólares em paridade do poder de compra, em 2017, para 3,44 dólares em 2021 e 4,28 dólares por pessoa e por dia em 2025.

O custo foi mais elevado na América Latina e Caraíbas, onde atingiu 4,91 dólares, seguindo-se África, com 4,35 dólares, e Ásia, com 4,33 dólares em paridade do poder de compra.

Apesar da subida dos preços, o número mundial de pessoas incapazes de pagar uma dieta saudável diminuiu de 2,97 mil milhões, em 2021, para aproximadamente 2,69 mil milhões em 2025. A proporção recuou de 37,4% para 32,7% da população mundial.

A melhoria indica que, em termos médios globais, os rendimentos disponíveis para alimentação cresceram mais rapidamente do que o custo dos alimentos.

Em África, porém, ocorreu o movimento contrário. A proporção da população sem recursos para adquirir uma dieta saudável aumentou para 66,6% em 2025 — mais do dobro dos 28,9% registados na Ásia e dos 25,7% observados na América Latina e Caraíbas.

O relatório mostra, assim, que o principal obstáculo africano não é apenas a disponibilidade física de alimentos. É a incapacidade das famílias para adquirir, de forma regular, a combinação de produtos necessária a uma alimentação saudável.

Alimentos Nutritivos Concentram A Maior Parcela Do Custo

A dieta utilizada pelas Nações Unidas para calcular o indicador inclui alimentos de seis grandes grupos: produtos básicos ricos em amido, alimentos de origem animal, leguminosas, nozes e sementes, óleos e gorduras, frutas e vegetais.

Os alimentos de origem animal, frutas e vegetais representam quase 70% do custo total de uma dieta saudável, embora os produtos básicos ricos em amido forneçam aproximadamente metade das calorias da cesta de referência.

Em África, os alimentos de origem animal constituem o grupo mais caro. Sessenta e nove por cento dos países africanos encontram-se no grupo mundial com custos mais elevados para este tipo de alimentos.

Isto ajuda a explicar por que razão famílias com recursos limitados tendem a concentrar o consumo em cereais e alimentos ricos em amido. Estes produtos fornecem calorias a um custo relativamente baixo, mas não asseguram a diversidade nutricional necessária.

A política alimentar baseada apenas na produção de milho, arroz, trigo, mandioca ou outros produtos básicos pode reduzir a fome calórica, mas dificilmente resolverá deficiências de ferro, vitamina A, proteínas e outros micronutrientes.

O Preço Forma-se Sobretudo Depois Da Colheita

Uma das conclusões economicamente mais relevantes do estudo é que entre 70% e 75% do valor pago pelo consumidor é formado depois da produção agrícola.

O processamento, transporte, armazenamento, conservação, comércio grossista e distribuição acumulam a maior parcela dos custos. Até 40% pode concentrar-se nas actividades intermédias da cadeia de valor.

Esta constatação altera o centro da política pública. Aumentar a produção agrícola continua a ser necessário, mas não será suficiente quando os alimentos se perdem antes de chegar ao mercado, as estradas atrasam as entregas, os armazéns são inadequados e a energia encarece a refrigeração.

O problema é especialmente grave para frutas, hortícolas, leite, carne, peixe e outros produtos perecíveis. Quanto maior for o tempo de transporte e menor a disponibilidade de cadeias de frio, maior será a deterioração física e o custo incorporado em cada unidade vendida.

O relatório identifica uma associação entre dietas mais acessíveis e melhor qualidade das estradas, maior eficiência logística, conectividade móvel, integração comercial, produtividade agrícola e menores custos de electricidade e mão-de-obra.

Produzir mais numa exploração agrícola não garante, por si só, preços menores nos mercados urbanos. Os ganhos de produtividade podem ser anulados por perdas pós-colheita, transporte caro, falhas de conservação e margens elevadas resultantes da escassez de operadores.

A Fome Coexiste Com Obesidade E Dietas Desequilibradas

A segurança alimentar mundial enfrenta uma dupla carga: persistem a fome e a desnutrição, enquanto aumentam o excesso de peso, a obesidade e as doenças associadas a dietas pouco equilibradas.

Apenas 30,8% das crianças entre seis e 23 meses consomem uma dieta minimamente diversificada. Em África, a proporção cai para 20,5%, significando que quatro em cada cinco crianças desta faixa etária não recebem uma variedade alimentar considerada mínima.

Entre as mulheres dos 15 aos 49 anos, apenas 62,7% alcançam a diversidade alimentar mínima a nível mundial. Em África, a proporção é de apenas 43%.

Ao mesmo tempo, a prevalência mundial da obesidade nos adultos aumentou de 12,1% em 2012 para 16,2% em 2024 e poderá atingir 18,6% em 2030.

A anemia entre mulheres dos 15 aos 49 anos também está a agravar-se. A prevalência subiu de 27,6% em 2012 para 30,7% em 2023 e poderá alcançar 32,6% até 2030, afastando-se da meta internacional de redução.

Este quadro demonstra que a má alimentação não se manifesta apenas pela ausência de comida. Também resulta do consumo excessivo de produtos de elevada densidade energética, açúcar, sal e gordura, frequentemente mais baratos e acessíveis do que frutas, vegetais, leguminosas e proteínas de qualidade.

Subsidiar Apenas Produtos Básicos Produz Ganhos Limitados

O relatório questiona a concentração histórica dos apoios agrícolas nos cereais, açúcar, lacticínios, carne bovina e culturas oleaginosas.

Cerca de 70% do apoio mundial concedido aos produtores encontra-se ligado predominantemente a estes grupos, enquanto frutas, vegetais e leguminosas — que pesam significativamente no custo de uma dieta saudável — recebem menor atenção.

As simulações apresentadas mostram que subsidiar indiscriminadamente produtos básicos já relativamente baratos produz benefícios limitados para a acessibilidade de uma dieta completa. Em determinadas condições, pode mesmo aumentar o custo global ao desviar terra, mão-de-obra, financiamento e outros factores de produção de alimentos mais nutritivos.

O relatório recomenda que o investimento público em investigação agrícola, sementes, irrigação, extensão e tecnologia seja progressivamente orientado para frutas, vegetais e leguminosas.

A proposta não significa abandonar os cereais estratégicos. Significa equilibrar a política agrícola, passando de uma lógica centrada exclusivamente na quantidade de calorias para outra que considere também a qualidade nutricional.

Moçambique Enfrenta Uma Combinação De Choques Estruturais

As conclusões globais possuem relevância directa para Moçambique, onde a segurança alimentar é condicionada por pobreza, baixa produtividade agrícola, limitações logísticas, conflito armado e exposição recorrente a ciclones, secas e cheias.

O Programa Mundial para a Alimentação estima que cerca de 2,7 milhões de pessoas no País enfrentam insegurança alimentar e necessitam de apoio urgente. A organização assinala igualmente que aproximadamente 37% das crianças menores de cinco anos apresentam atraso de crescimento associado à desnutrição crónica.

As cheias severas registadas no início de 2026 afectaram quase 700 mil pessoas. Dados do WFP indicam perdas superiores a 530 mil cabeças de gado e cerca de 440 mil hectares de culturas, comprometendo rendimentos, reservas familiares e a disponibilidade futura de alimentos em importantes zonas produtoras. 

O Banco Mundial estima que as cheias e secas provocam perdas económicas equivalentes a aproximadamente 6,7% do Produto Interno Bruto por ano, demonstrando que a segurança da água, a irrigação, a drenagem e a resiliência climática constituem componentes centrais da política alimentar. 

Em Moçambique, grande parte da produção é realizada por pequenos agricultores dependentes da chuva e com acesso limitado a sementes melhoradas, irrigação, mecanização, armazenagem, financiamento e mercados estruturados.

O resultado é uma combinação paradoxal: alimentos são produzidos nas zonas rurais, mas perdem-se quantidades relevantes antes da comercialização; simultaneamente, os consumidores urbanos enfrentam preços elevados e os produtores recebem rendimentos reduzidos.

Estradas, Energia E Armazenagem São Política Nutricional

O relatório oferece uma leitura particularmente útil para Moçambique: baixar o custo de uma dieta saudável exige tratar estradas, electricidade, telecomunicações, armazenagem e logística como componentes da política nutricional.

Uma estrada rural degradada não representa apenas um problema de transporte. Aumenta o tempo necessário para levar hortícolas ao mercado, eleva o consumo de combustível, acelera a deterioração e reduz o preço recebido pelo produtor.

A ausência de electricidade fiável limita a refrigeração de leite, carne, peixe, frutas e vegetais. A insuficiência de armazéns favorece perdas de cereais e obriga agricultores a vender imediatamente após a colheita, quando os preços são mais baixos.

Da mesma forma, a falta de informação sobre preços reduz o poder de negociação dos produtores e dificulta o encontro entre zonas com excedentes e mercados com défices.

Investimentos nestas áreas podem produzir um efeito duplo: aumentar o rendimento rural e reduzir o preço pago pelos consumidores.

Produção E Procura Precisam De Avançar Em Conjunto

As Nações Unidas defendem duas linhas complementares de intervenção.

A primeira consiste em aumentar a oferta de alimentos nutritivos através da produtividade, diversificação agrícola, investigação, irrigação, acesso a sementes, redução das perdas e integração comercial.

A segunda procura reduzir o custo por unidade ao longo da cadeia de valor, actuando sobre energia, fertilizantes, transportes, armazenamento, processamento, informação e regulamentação.

As duas linhas devem ser combinadas com medidas destinadas à procura, como transferências sociais, alimentação escolar e programas de apoio nutricional.

Contudo, o relatório alerta que aumentar o poder de compra das famílias sem expandir simultaneamente a oferta pode provocar subidas adicionais dos preços. A protecção social deve, por isso, ser coordenada com a produção e distribuição.

Esta conclusão é particularmente relevante para a Estratégia de Alimentação Escolar 2026–2035 recentemente aprovada pelo Governo moçambicano. A aquisição de alimentos locais poderá criar procura estável para pequenos produtores, mas exigirá capacidade de fornecimento, padrões de qualidade, logística, armazenamento e pagamentos regulares.

O Desafio Não É Apenas Produzir Mais, Mas Fazer Chegar Melhor

A redução global da fome demonstra que políticas públicas, produtividade agrícola e protecção social podem produzir resultados. Mas a deslocação do epicentro mundial para África mostra que o ritmo actual não acompanha a dimensão demográfica e económica do desafio continental.

O continente não enfrenta apenas falta de alimentos. Enfrenta sistemas agroalimentares nos quais os produtos nutritivos são caros, as perdas são elevadas, os mercados estão fragmentados e grande parte da população não possui rendimento suficiente para adquirir uma dieta saudável.

Para Moçambique, a resposta deverá integrar agricultura, água, transportes, energia, comércio, indústria, saúde, educação e protecção social.

A medida mais relevante do progresso não será apenas o aumento da produção de cereais ou o volume de financiamento mobilizado. Será a capacidade de reduzir o preço das proteínas, frutas, vegetais e leguminosas, aumentar o rendimento dos produtores e colocar uma dieta saudável ao alcance de mais famílias.

O relatório de 2026 deixa, assim, uma mensagem central: a fome pode diminuir sem que a alimentação melhore suficientemente. Transformar essa tendência exige passar de uma política centrada na disponibilidade de calorias para uma estratégia económica orientada para a acessibilidade, diversidade e qualidade dos alimentos.