
BRICS+ Avançam Para Sistema Próprio de Pagamentos, Mas Moeda Comum Enfrenta Obstáculos Estruturais
Relatório elaborado por economistas internacionais, incluindo Jim O’Neill, considera viável a criação de uma plataforma conjunta de pagamentos transfronteiriços para reduzir a dependência do dólar. Divergências monetárias, restrições cambiais e ausência de uma autoridade central comum dificultam a adopção de uma moeda única.
- Pagamentos Internacionais: Estudo recomenda acelerar a criação de mecanismos conjuntos de pagamentos entre os países do BRICS+;
- Dependência do Dólar: Utilização de moedas nacionais poderá reduzir custos de transacção e ampliar a autonomia financeira dos membros;
- Moeda Comum: Economistas identificam obstáculos institucionais e monetários à criação de uma divisa partilhada;
- Bancos Centrais: Integração dos sistemas financeiros exige interoperabilidade tecnológica, coordenação regulatória e compromissos institucionais;
- Economias Africanas: Iniciativa poderá criar alternativas para pagamentos comerciais, embora os benefícios dependam da liquidez cambial e da aceitação das moedas utilizadas.
BRICS+ Privilegiam Integração dos Pagamentos em Vez de Moeda Única
Os países do BRICS+ dispõem de condições para desenvolver um mecanismo conjunto de pagamentos internacionais que reduza a dependência do dólar norte-americano, mas a criação de uma moeda comum permanece economicamente complexa e institucionalmente distante, segundo um relatório divulgado pela plataforma de investigação BRICS+ Thinking.
O documento, elaborado pelos economistas Gregory T. Chin, Danny Quah e Jim O’Neill, antigo economista-chefe do Goldman Sachs e responsável pela criação do acrónimo BRICS, sustenta que a prioridade do agrupamento deverá incidir na integração das infra-estruturas financeiras existentes, permitindo realizar operações comerciais e financeiras transfronteiriças de forma mais rápida, menos onerosa e com maior utilização de moedas nacionais.
A avaliação, divulgada a 30 de Outubro e noticiada pela Reuters, surge num contexto de crescente interesse das economias emergentes por mecanismos de pagamento alternativos aos circuitos tradicionais dominados pelo dólar.
O relatório considera que existem fundamentos técnicos e económicos para desenvolver um sistema de pagamentos entre os membros do BRICS+, mas adverte que a adopção de uma moeda comum exigiria transformações profundas nas respectivas estruturas monetárias e financeiras.
A distinção é fundamental: um sistema conjunto de pagamentos permite movimentar dinheiro entre diferentes moedas nacionais, enquanto uma moeda comum pressupõe a adopção de uma unidade monetária partilhada e a criação de instituições capazes de gerir a respectiva política monetária.
Segundo os autores, os esforços para desenvolver os pagamentos transfronteiriços devem avançar independentemente das dificuldades associadas à criação de uma divisa comum.
Bancos Centrais São Decisivos Para a Integração dos Sistemas de Pagamento
A recomendação central do estudo consiste em assegurar o envolvimento efectivo dos bancos centrais na criação de uma infra-estrutura financeira interoperável entre os países participantes.
Gregory Chin, Danny Quah e Jim O’Neill defendem que as autoridades monetárias devem assumir um compromisso institucional com o projecto e assegurar as condições técnicas indispensáveis ao seu funcionamento. Os autores consideram “absolutamente crucial” que os bancos centrais adoptem esse objectivo e estabeleçam os requisitos necessários à operacionalização do mecanismo, segundo a declaração citada pela Reuters.
A proposta contempla a interligação dos sistemas nacionais de pagamentos, permitindo que instituições financeiras de diferentes países realizem transferências e liquidações comerciais através de infra-estruturas compatíveis.
Actualmente, muitas operações internacionais continuam a depender de bancos correspondentes, sistemas de mensagens financeiras e processos de conversão cambial que podem aumentar custos e prazos de liquidação.
A integração pretendida pelo BRICS+ poderá permitir maior utilização de moedas locais, reduzindo a necessidade de conversões intermediárias para dólares em determinadas operações.
Contudo, a eficácia do sistema exigirá compatibilidade tecnológica, regras comuns de funcionamento, mecanismos de segurança, supervisão financeira e instrumentos adequados de gestão do risco cambial.
O relatório destaca que, apesar das iniciativas já desenvolvidas, os esforços para integrar os sistemas financeiros dos países membros registaram progressos limitados.
Cimeira de Nova Deli Confirmou Prioridade aos Pagamentos Transfronteiriços
A proposta apresentada pelo BRICS+ Thinking está alinhada com as orientações aprovadas na XVIII Cimeira do BRICS, realizada em Nova Deli, na Índia, em Setembro de 2026.
Na declaração final, os líderes reafirmaram o compromisso com o desenvolvimento de mecanismos de pagamento transfronteiriço mais rápidos, económicos, acessíveis, transparentes e seguros.
O documento reconheceu os trabalhos desenvolvidos pela BRICS Payment Task Force, estrutura encarregada de estudar soluções práticas para a integração dos sistemas financeiros dos países participantes.
Os líderes também destacaram a importância de promover a utilização de moedas nacionais na liquidação de operações comerciais e de investimento, respeitando as prioridades económicas de cada Estado.
A declaração de Nova Deli não estabeleceu a criação de uma moeda comum, concentrando-se nas iniciativas de interoperabilidade e na modernização dos mecanismos existentes.
A orientação confirma uma abordagem gradual à integração financeira, privilegedando instrumentos operacionais que possam funcionar sem exigir a unificação das políticas monetárias nacionais.
Entre as iniciativas em discussão encontram-se mecanismos como BRICS Pay, BRICS Bridge e BRICS Clear, concebidos para diferentes modalidades de pagamento, liquidação e serviços financeiros. O estudo identifica progressos nos projectos-piloto e na operacionalização de algumas dessas soluções, embora a sua implementação integrada continue incompleta.
BRICS+ | Dois Modelos de Integração Financeira
| Dimensão de Análise | Sistema de Pagamentos Transfronteiriços | Moeda Comum Única |
|---|---|---|
| Conceito e Mecanismo | Interligação de infra-estruturas financeiras e liquidação em moedas nacionais | Unidade monetária partilhada com autoridade central e política comum |
| Viabilidade Técnica e Institucional | Elevada viabilidade técnica no curto e médio prazo | Enfrenta obstáculos estruturais, monetários e políticos profundos |
| Exigências de Governação | Interoperabilidade bancária, acordos de compensação e regras comuns | Transferência de soberania monetária e convergência orçamental/fiscal |
| Estado de Desenvolvimento | Iniciativas em curso (BRICS Pay, BRICS Bridge e BRICS Clear) | Sem consenso, calendário ou mecanismos institucionais previstos |
Fonte: BRICS+ Thinking (Relatório: A BRICS+ Currency and Payments System: Feasibility and Consequences, Outubro de 2026).
Moeda Comum Exigiria Reformas Profundas nas Economias do BRICS+
O estudo apresenta uma avaliação substancialmente menos favorável da possibilidade de criação de uma moeda comum aos países do BRICS+.
Segundo os autores, a adopção de uma divisa partilhada exigiria reformas profundas, incluindo maior independência dos bancos centrais, estabelecimento de uma autoridade monetária comum e redução das restrições à circulação internacional de capitais. Outro requisito seria assegurar a convertibilidade da moeda, tanto nas operações internas como nas transacções internacionais.
O relatório considera que estas exigências são particularmente difíceis de satisfazer nas actuais condições económicas e institucionais dos países participantes.
As economias do BRICS+ apresentam diferentes regimes cambiais, níveis de desenvolvimento financeiro, estruturas produtivas e prioridades de política monetária.
A China mantém um sistema de gestão cambial e controlo de fluxos financeiros distinto do praticado por outras economias do agrupamento. A Índia, por sua vez, tem privilegiado o desenvolvimento da utilização internacional da rupia sem assumir compromissos de integração monetária supranacional. A Rússia enfrenta restrições financeiras internacionais associadas às sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022.
Estas diferenças dificultam a definição de uma política monetária comum capaz de responder adequadamente às condições económicas de todos os participantes. Os autores acrescentam que a dispersão geográfica dos países e a ausência de disposição para transferir autonomia monetária para um banco central comum constituem obstáculos adicionais.
A conclusão do estudo é particularmente expressiva: as perspectivas iniciais para uma moeda comum do BRICS+ são pouco favoráveis.
Desdolarização Avança Pela Utilização de Moedas Nacionais
A discussão sobre mecanismos alternativos de pagamentos está associada aos esforços de várias economias emergentes para reduzir a utilização do dólar nas suas operações internacionais.
O processo ganhou maior visibilidade após a introdução de sanções financeiras contra a Rússia, em 2022, que demonstraram a importância estratégica do acesso às infra-estruturas internacionais de pagamentos e compensação.
Desde então, vários países passaram a explorar mecanismos de liquidação comercial em moedas nacionais e alternativas aos sistemas financeiros tradicionais.
Contudo, a redução da utilização do dólar nas transacções entre determinados parceiros não implica necessariamente a substituição da moeda norte-americana como principal referência do sistema monetário internacional.
O dólar continua a desempenhar funções centrais na formação de preços das matérias-primas, no financiamento internacional, na constituição de reservas cambiais e nas operações dos mercados financeiros globais.
O relatório do BRICS+ Thinking não identifica uma decisão colectiva dos países membros de substituir o dólar como moeda de referência mundial. A proposta concentra-se na redução da dependência operacional e no aumento da autonomia financeira, através de mecanismos que permitam ampliar a utilização internacional das moedas nacionais.
Esta distinção ajuda a compreender a natureza da iniciativa: trata-se, fundamentalmente, de desenvolver alternativas para determinadas operações comerciais e financeiras, sem que isso implique necessariamente uma ruptura com o sistema monetário internacional existente.
Pressões Comerciais dos Estados Unidos Acrescentam Dimensão Geopolítica
A possibilidade de os países do BRICS desenvolverem mecanismos monetários alternativos tem suscitado críticas da administração norte-americana.
O Presidente Donald Trump ameaçou anteriormente aplicar tarifas de 100% sobre produtos provenientes de países do agrupamento caso estes avansassem com uma moeda comum ou apoiassem iniciativas destinadas a substituir o dólar.
A posição de Washington introduz uma dimensão comercial e geopolítica no debate, uma vez que muitos países do BRICS mantêm relações económicas significativas com os Estados Unidos.
Para as economias emergentes, a decisão de ampliar sistemas alternativos de pagamentos envolve, por conseguinte, considerações relacionadas com custos financeiros, autonomia monetária, acesso aos mercados e eventuais repercussões comerciais.
A Reuters assinala que a Rússia e a Índia têm minimizado a perspectiva de criação de uma moeda comum, reforçando a percepção de que a integração dos sistemas de pagamentos constitui uma prioridade mais imediata do que a unificação monetária.
As iniciativas financeiras do BRICS+ desenvolvem-se, assim, num contexto de competição económica internacional, mas continuam condicionadas pelas diferentes prioridades dos países participantes.
África do Sul e Economias Africanas Podem Beneficiar de Maior Interoperabilidade Financeira
A participação da África do Sul no BRICS confere ao debate uma dimensão particularmente relevante para os mercados financeiros africanos.
A economia sul-africana desempenha um papel importante nas relações comerciais e financeiras regionais, incluindo nas operações de importação, exportação e investimento realizadas com países da África Austral.
A eventual modernização dos mecanismos de pagamentos entre os membros do BRICS+ poderá facilitar determinadas transacções com parceiros comerciais relevantes, incluindo China, Índia e Brasil.
Contudo, os benefícios dependerão das condições concretas de funcionamento dos sistemas, da disponibilidade de liquidez nas moedas utilizadas e da capacidade das instituições financeiras nacionais de assegurar conversões e liquidações em condições competitivas.
A utilização de moedas locais não elimina automaticamente o risco cambial. Quando duas economias apresentam desequilíbrios comerciais persistentes, a liquidação de operações nas respectivas moedas pode gerar necessidades adicionais de conversão, gestão de posições cambiais e acesso a mercados financeiros líquidos.
Por conseguinte, os ganhos potenciais de eficiência deverão ser avaliados em função dos custos totais das transacções, incluindo taxas bancárias, spreads cambiais, prazos de liquidação e mecanismos de cobertura de risco.
Para os países africanos, a expansão de alternativas de pagamento pode contribuir para diversificar os instrumentos disponíveis no comércio internacional, mas a sua eficácia dependerá da integração com os sistemas financeiros existentes.
Moçambique: Novas Soluções de Pagamento Podem Interessar ao Comércio com China, Índia e África do Sul
Embora Moçambique não seja membro do BRICS, o desenvolvimento dos mecanismos financeiros do agrupamento merece acompanhamento, considerando as relações comerciais e de investimento do País com economias como China, Índia e África do Sul.
Estes mercados desempenham funções relevantes no fornecimento de equipamentos, produtos industriais, bens de consumo e serviços, bem como na aquisição de determinadas matérias-primas e produtos de exportação.
A eventual utilização de mecanismos alternativos de liquidação comercial poderá criar novas possibilidades para empresas moçambicanas que realizem operações com instituições financeiras integradas nesses sistemas.
No entanto, a participação de bancos moçambicanos dependeria de acordos específicos, compatibilidade tecnológica, condições regulatórias e capacidade de assegurar liquidez nas moedas envolvidas.
A questão assume particular importância perante as dificuldades de acesso a moeda estrangeira que têm condicionado determinadas operações de comércio externo. Um sistema de pagamentos em moedas alternativas poderá reduzir a necessidade de utilização do dólar em algumas transacções, mas não resolveria, por si só, os desequilíbrios estruturais entre receitas externas e necessidades de importação.
Se uma empresa moçambicana precisar de liquidar uma operação em yuan ou rupias, continuará a necessitar de obter essas moedas em condições adequadas. Por outro lado, a aceitação de pagamentos em meticais dependeria da disposição dos parceiros comerciais para deter a moeda nacional ou da existência de mecanismos de conversão que permitissem transformar esses saldos noutras divisas.
Por isso, a redução da dependência do dólar deve ser analisada conjuntamente com as questões de liquidez internacional, competitividade das exportações e funcionamento do mercado cambial. Não existe, nos elementos divulgados, indicação de que Moçambique tenha aderido a um sistema conjunto de pagamentos do BRICS+ ou assumido compromissos para integrar as iniciativas em desenvolvimento.
Integração Financeira Depende da Tecnologia, Regulação e Confiança
A construção de um mecanismo internacional de pagamentos exige condições que ultrapassam a simples interligação de plataformas tecnológicas.
As instituições participantes terão de assegurar regras compatíveis de identificação de clientes, prevenção do branqueamento de capitais, combate ao financiamento ilícito, segurança informática e supervisão das operações transfronteiriças.
Será igualmente necessário definir mecanismos de compensação e liquidação, responsabilidades das instituições participantes e procedimentos para resolução de incidentes operacionais.
A questão da confiança assume uma importância decisiva, particularmente quando os pagamentos envolvem moedas com diferentes níveis de convertibilidade e mercados cambiais sujeitos a restrições.
O BRICS+ terá ainda de estabelecer soluções capazes de assegurar que os recursos transferidos entre países sejam efectivamente disponibilizados aos respectivos beneficiários, sem atrasos ou custos que comprometam as vantagens pretendidas.
A declaração de Nova Deli reconheceu estes desafios ao defender mecanismos eficientes, transparentes e seguros, respeitando simultaneamente as prioridades nacionais.
BRICS+ Enfrentam Escolha Entre Integração Operacional e União Monetária
O relatório divulgado pelo BRICS+ Thinking introduz uma avaliação pragmática sobre as perspectivas de integração financeira das economias emergentes.
A criação de um sistema conjunto de pagamentos apresenta condições de viabilidade mais favoráveis, porque permite preservar as moedas nacionais e a autonomia dos respectivos bancos centrais.
Uma moeda comum, pelo contrário, exigiria compromissos institucionais muito mais profundos, incluindo uma autoridade monetária partilhada e a convergência de políticas económicas entre países com realidades substancialmente diferentes.
A análise ajuda a separar dois objectivos frequentemente associados no debate internacional, mas que apresentam requisitos económicos distintos.
A modernização dos pagamentos pode desenvolver-se através da interoperabilidade tecnológica e da cooperação financeira, enquanto uma união monetária pressupõe decisões sobre soberania, circulação de capitais e governação económica comum.
O desenvolvimento mais relevante poderá, assim, ocorrer sem a criação de qualquer nova moeda: se os países do BRICS+ conseguirem realizar pagamentos comerciais de forma mais rápida, barata e segura, utilizando as suas próprias moedas, terão dado um passo concreto na integração financeira.
O desafio imediato consiste em transformar as iniciativas actualmente em desenvolvimento num sistema operacional com escala, liquidez e aceitação suficientes para competir com os mecanismos internacionais já estabelecidos.
O dólar continuará a desempenhar um papel central no comércio e nas finanças internacionais, mas a evolução dos sistemas de pagamentos poderá ampliar as opções disponíveis para empresas, bancos e economias emergentes.














