
Cabo Delgado Quer Transformar Mega-Projectos Em Cadeias De Valor Locais
- Na abertura da CIAGRO 2026, Salim Valá defendeu uma agenda que ligue gás, mineração e infra-estruturas à agricultura, indústria transformadora, emprego juvenil e fortalecimento das empresas nacionais.
Questões-Chave
- A Conferência Internacional sobre Industrialização e Agronegócio decorre em Pemba, nos dias 22 e 23 de Junho, sob o lema “Agronegócio e Industrialização, Catalisando as Cadeias de Valor para o Desenvolvimento Económico Sustentável de Cabo Delgado”.
- O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, defendeu que os mega-projectos devem funcionar como âncoras para empresas, produtores, jovens e comunidades locais.
- A agenda provincial coloca o caju, algodão, soja, gergelim, feijão bóer, pecuária, avicultura, pesca, aquacultura, processamento alimentar, minerais e turismo entre os sectores prioritários.
- O Governo considera a estabilidade, a paz, a conectividade territorial, a energia, a logística, o financiamento e a qualificação profissional como condições indispensáveis para acelerar a transformação produtiva.
- Salim Valá anunciou que o Banco Mundial aprovou, a 18 de Junho, o Projecto MozCommunity, avaliado em US$ 250 milhões, para apoiar comunidades e infra-estruturas resilientes em Cabo Delgado, Niassa e Nampula.
- A CIAGRO pretende gerar projectos bancáveis, parcerias empresariais, memorandos de entendimento e um mecanismo de acompanhamento pós-conferência.
Cabo Delgado quer deixar de ser visto apenas como território de grandes reservas de gás, recursos minerais e potencial turístico, para se afirmar como uma plataforma de produção, transformação industrial, emprego e investimento inclusivo no Norte de Moçambique.
Esta foi a mensagem central deixada pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, na abertura da Conferência Internacional sobre Industrialização e Agronegócio — CIAGRO 2026 — que decorre em Pemba sob o lema “Agronegócio e Industrialização, Catalisando as Cadeias de Valor para o Desenvolvimento Económico Sustentável de Cabo Delgado”.
Ao intervir perante representantes do Governo, empresários, investidores, instituições financeiras, universidades, cooperativas, produtores e parceiros de cooperação, o Ministro afirmou que a conferência deve ser entendida como uma plataforma de mobilização de investimento e de construção de parcerias, e não apenas como mais um encontro institucional.
“Esta conferência não é apenas mais um evento no calendário institucional da Província”, declarou Salim Valá. “Ela representa uma afirmação de confiança no futuro de Cabo Delgado; uma declaração de visão e ambição económica; e, sobretudo, uma convocação à acção colectiva.”
A realização da CIAGRO ocorre num momento em que Cabo Delgado procura consolidar a recuperação socioeconómica, reforçar a confiança dos investidores e converter o potencial dos seus recursos em benefícios mais visíveis para as comunidades, empresas e famílias.
Recursos Naturais Devem Gerar Produção E Emprego
Para o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, a questão central não é apenas a disponibilidade de recursos, mas a capacidade de criar ligações concretas entre os grandes investimentos e a economia local.
Cabo Delgado reúne potencial em áreas como gás natural, mineração, agricultura, pesca, pecuária, florestas, turismo e logística. A província é um dos principais produtores nacionais de castanha de caju e possui oportunidades nas cadeias de cereais, gergelim, feijão bóer, soja, algodão, avicultura, pesca, aquacultura, processamento alimentar e transformação de minerais.
Contudo, Salim Valá defendeu que este potencial só poderá assumir uma dimensão verdadeiramente transformadora se for integrado numa estratégia de industrialização baseada em matérias-primas locais, formação de competências, expansão empresarial e criação de mercados.
“O desenvolvimento de Cabo Delgado não pode ser entendido apenas pela dimensão dos grandes projectos de gás, da mineração ou energia”, afirmou. “O seu impacto será verdadeiramente transformador apenas se conseguirmos estabelecer ligações concretas entre os mega-projectos, as micro, pequenas e médias empresas, os produtores locais, os jovens, as mulheres, os fornecedores nacionais e as comunidades locais.”
A declaração traduz uma visão de desenvolvimento em que os grandes investimentos devem gerar procura por bens e serviços locais, apoiar a certificação de fornecedores, estimular a formação técnico-profissional e ampliar a participação de empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento.
Para o Ministro, o conteúdo local não deve ser reduzido a percentagens ou obrigações formais. Deve representar a construção de capacidade produtiva nacional, o reforço da qualidade, a melhoria da gestão empresarial e a criação de oportunidades concretas para produtores, empreendedores e trabalhadores moçambicanos.
Caju, Pesca, Soja E Avicultura Na Agenda Produtiva
A CIAGRO foi desenhada precisamente para aprofundar esta agenda. Os termos de referência do encontro identificam cadeias de valor estratégicas capazes de apoiar uma economia provincial mais diversificada, menos dependente da exportação de matérias-primas em bruto e mais orientada para a transformação local.
Entre os sectores destacados encontram-se a revitalização da cadeia do algodão, a estruturação da cadeia do caju, o desenvolvimento da soja e de outras oleaginosas, a avicultura comercial, a pecuária, a pesca industrial, a aquacultura, o processamento de pescado, a transformação de cereais e a expansão de parques agro-industriais.
A província pretende igualmente atrair investimento para zonas de regadio e áreas produtivas como Chipembe, Nguri, o Vale do rio Lúrio, Rovuma, Mirate-Nropa-Mapupulo, em Montepuez, e Namara-Impire-Kwe-kwe, em Balama. A expectativa é que esses investimentos possam melhorar a oferta de matérias-primas, reduzir perdas pós-colheita, ampliar a produção comercial e criar condições para a instalação de unidades de processamento.
Salim Valá sublinhou que o desenvolvimento das cadeias de valor exige uma ligação contínua entre produção, acesso a insumos, financiamento, armazenamento, conservação, transformação, certificação, transporte, comercialização e mercados.
“O agricultor precisa de sementes de qualidade, assistência técnica, água, fertilizantes, equipamentos e mercados seguros. A pequena empresa precisa de crédito adequado, energia confiável, logística eficiente, informação, tecnologia e condições para competir. O investidor precisa de previsibilidade, transparência, segurança jurídica, boa governação e projectos viáveis”, afirmou.
Infra-Estruturas Como Base Da Transformação
O Ministro defendeu uma leitura integrada das infra-estruturas, lembrando que estradas, energia, água, portos, armazenagem e conectividade não devem ser vistos apenas como obras físicas, mas como instrumentos de transformação económica e social.
Uma estrada, referiu, reduz custos de transporte, facilita a chegada da produção aos mercados e diminui perdas pós-colheita. A energia permite conservar pescado, processar caju, operar sistemas de irrigação, refrigerar produtos hortícolas e criar pequenas indústrias. Os portos representam portas de acesso ao comércio, à exportação e à integração de Cabo Delgado nas cadeias de valor regionais e internacionais.
Esta visão está alinhada com a agenda da CIAGRO, que inclui debates sobre infra-estruturas críticas, corredores logísticos, portos de Pemba, Mocímboa da Praia e Palma, energia, água, saneamento, regadios, parcerias público-privadas e mecanismos de financiamento para projectos estruturantes.
O encontro deverá igualmente discutir o papel de parques industriais, zonas económicas especiais e centros logísticos na dinamização da indústria local e na aproximação entre produção, transformação e mercados.
A aposta é que Cabo Delgado possa aproveitar a sua localização geográfica, a extensa costa marítima, os portos, as áreas produtivas e a proximidade de mercados regionais para se consolidar como pólo de produção e comércio no Norte do País.
Paz E Estabilidade Como Activos Económicos
A intervenção de Salim Valá atribuiu particular importância à ligação entre desenvolvimento económico, paz, estabilidade e inclusão social.
Segundo o Ministro, não haverá desenvolvimento sustentável sem segurança, confiança, reconciliação e oportunidades económicas capazes de melhorar a vida das famílias. A estabilidade, disse, é indispensável para atrair investimentos, recuperar actividades produtivas, proteger comunidades e garantir que o trabalho, a produção e o comércio possam florescer.
“A paz não se consolida apenas com segurança”, afirmou. “Consolida-se quando as pessoas têm acesso a trabalho, rendimento, escola, saúde, mercados, serviços e esperança no futuro.”
Neste sentido, o agronegócio, a industrialização, a formação profissional, o emprego juvenil e o empreendedorismo feminino são apresentados como instrumentos de estabilização e construção de paz.
A mensagem ganha especial relevância num território que viveu os impactos da instabilidade, da deslocação de populações e das assimetrias de desenvolvimento, mas onde estão em curso esforços de reconstrução da actividade económica e de reforço da coesão social.
O Ministro anunciou que o Conselho de Administração do Banco Mundial aprovou, a 18 de Junho, o Projecto MozCommunity, avaliado em US$ 250 milhões, destinado a apoiar as províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula.
Segundo Salim Valá, o projecto pretende reforçar as capacidades das comunidades, ampliar oportunidades económicas e de emprego, sobretudo para a juventude, e investir em infra-estruturas resilientes nos 56 distritos abrangidos. A iniciativa será domiciliada na Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte.
Grandes Projectos Como Âncoras Da Economia Local
No plano económico, Cabo Delgado continua a ocupar uma posição estratégica devido ao peso dos projectos de gás natural, à mineração de grafite e rubis e ao potencial de outras actividades produtivas.
O Ministro referiu que o Coral Sul continua a ser uma referência da inserção de Moçambique no mercado internacional de gás natural liquefeito. O desenvolvimento do Coral Norte, a retoma do Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, e a evolução do projecto Rovuma LNG, associado à ExxonMobil, poderão ampliar a capacidade exportadora do País, mobilizar investimento, estimular a formação e criar novas oportunidades para empresas nacionais.
Mas o verdadeiro significado desses investimentos, sublinhou, será medido pela sua capacidade de gerar encadeamentos internos e transformar a estrutura produtiva.
“Precisamos de empresas moçambicanas mais preparadas para fornecer bens e serviços, de jovens com competências adequadas às exigências do mercado, de maior participação das mulheres na economia e de comunidades que reconheçam, de forma concreta, os dividendos da paz e da estabilidade”, afirmou.
A mineração surge igualmente como uma área com perspectivas relevantes. A produção de grafite, rubis, ouro, tantalite, areias pesadas e outros minerais pode reforçar a actividade económica, mas também impõe o desafio de criar fornecedores locais, promover processamento, melhorar a logística e assegurar que uma parte maior do valor permaneça nas economias locais.
CIAGRO Quer Sair Do Debate Para A Execução
A conferência reúne cerca de 300 participantes e está organizada em seis painéis temáticos, que abrangem o panorama de desenvolvimento da província, infra-estruturas, paz e estabilização, cadeias de valor estratégicas, industrialização e promoção de investimentos.
Além dos painéis, estão previstas sessões de negócios entre investidores e empresas, grupos de trabalho temáticos e a elaboração de recomendações destinadas a integrar um documento final de compromissos.
Mas Salim Valá alertou que o sucesso da CIAGRO não será medido pela qualidade dos discursos ou pelo número de memorandos assinados. O essencial, afirmou, será garantir execução, acompanhamento e impacto efectivo.
“Esta Conferência deve produzir resultados concretos. Não basta que seja um espaço de discursos, diagnósticos, reflexões eruditas e um exercício retórico baseado em boas intenções”, advertiu.
O Ministro defendeu que o portefólio de investimentos de Cabo Delgado deve ser transformado em projectos bancáveis, com estudos técnicos adequados, modelos de negócio consistentes, estruturas claras de financiamento e capacidade de execução e monitoria.
A criação de um mecanismo de acompanhamento pós-conferência é apontada como condição essencial para evitar que as recomendações fiquem limitadas a relatórios e declarações finais. O objectivo é converter ideias e compromissos em investimentos, empresas, empregos, infra-estruturas e desenvolvimento local.
Uma Convocação Aos Investidores
Na parte final da intervenção, Salim Valá dirigiu uma mensagem aos investidores nacionais e estrangeiros, reafirmando que Moçambique está aberto ao investimento responsável, produtivo e sustentável.
“Cabo Delgado está aberto a parcerias que criem valor, respeitem as comunidades, protejam o ambiente, desenvolvam capacidades locais e contribuam para uma economia mais forte, inclusiva e diversificada”, declarou.
A mensagem é que a província não pretende apenas receber capital, mas estabelecer parcerias de longo prazo que permitam produzir, transformar, competir e prosperar.
A CIAGRO 2026 surge, deste modo, como uma tentativa de posicionar Cabo Delgado numa nova fase da sua trajectória económica: uma fase em que os grandes recursos naturais, a agricultura, a pesca, a indústria e as infra-estruturas devem convergir para criar cadeias de valor mais inclusivas, resilientes e capazes de gerar prosperidade partilhada.



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