
CFM Logistics Reforça Presença na Cadeia do Gás com Operação Inédita Nacala–Afungi
- Movimentação de cerca de 180 toneladas de varões de aço destinados às infra-estruturas de Afungi evidencia a crescente especialização da logística nacional para responder às exigências dos megaprojectos energéticos e ampliar a participação moçambicana nas fases menos visíveis — mas decisivas — da cadeia de valor do gás.
Questões-Chave
- A CFM Logistics coordenou, a partir do Porto de Nacala, o manuseamento e embarque de cerca de 180 toneladas de materiais de construção destinados a Afungi.
- A operação envolveu descarga rodoviária, içamento, armazenamento temporário, estiva, coordenação marítima e preparação do recebimento da carga no destino.
- O movimento sinaliza uma crescente inserção de operadores nacionais na logística especializada de apoio aos projectos de petróleo e gás.
- Em 2025, a CFM Logistics registou volume de negócios de 15,2 milhões de dólares, mais 119% do que em 2024, segundo os CFM.
- A consolidação do conteúdo local dependerá da capacidade de transformar operações pontuais em competências, activos, fornecedores e serviços nacionais permanentes.
O cais de Nacala recebeu recentemente uma operação que, pela natureza da carga e pelo destino, ultrapassa a simples movimentação portuária. Ao coordenar o embarque de cerca de 180 toneladas de varões de aço destinados à construção de infra-estruturas em Afungi, a CFM Logistics voltou a colocar-se no centro de uma dimensão decisiva da economia do gás: a capacidade de organizar, com recursos e competências nacionais, a complexa cadeia logística que sustenta os megaprojectos em Cabo Delgado.
A operação envolveu a chegada contínua de camiões ao cais, a descarga dos materiais, o içamento por gruas de grande capacidade, a armazenagem temporária e o posterior embarque marítimo. Por detrás dessa sequência aparentemente rotineira esteve um trabalho de coordenação entre agentes marítimos, equipas de estiva, terminais portuários, operadores logísticos e técnicos responsáveis pelo controlo da carga.
O destino final era Afungi, onde se concentra uma parte significativa das infra-estruturas de apoio aos projectos de gás natural da Bacia do Rovuma. A importância da operação reside, precisamente, na sua inserção numa cadeia onde atrasos, falhas de comunicação ou deficiências de planeamento podem gerar custos elevados e comprometer cronogramas sensíveis de construção, instalação e abastecimento.
Para António Frederico, capitão da CFM Logistics, o manuseamento de cargas desta natureza constitui uma demonstração concreta da posição que a empresa procura conquistar na economia energética. “Ao fazer este manuseamento, a CFM Logistics marca a sua posição”, referiu, associando a intervenção ao apoio ao desenvolvimento energético de Moçambique.
Logística Como Infra-Estrutura da Economia do Gás
A logística dos megaprojectos não se reduz ao transporte de um ponto para outro. É uma actividade que exige sincronização entre a chegada da carga, a disponibilidade de espaços portuários, os meios de manuseamento, a janela de embarque, a programação marítima, a documentação, a segurança e a capacidade de recepção no destino.
No caso da operação para Afungi, a carga passou por diferentes etapas antes de seguir viagem: descarga de camiões, içamento, organização da área de armazenamento, verificação operacional e preparação para a saída marítima. A execução exigiu turnos prolongados, de dia e de noite, numa demonstração de que a competitividade logística depende tanto da infra-estrutura física como da disciplina operacional.
Paulo Sousa, gestor de projectos da CFM Logistics, sublinhou que a principal pressão está no tempo. Nos projectos de grande dimensão, os materiais são frequentemente requisitados em janelas muito curtas, o que coloca as equipas perante exigências de resposta imediata. Esta realidade confirma que, na cadeia do gás, a previsibilidade e a velocidade de execução são tão importantes quanto a disponibilidade de navios, gruas ou armazéns.
A operação também envolveu a LBH Mozambique como agente do navio e da carga, numa articulação que ilustra a natureza integrada dos serviços exigidos pelos grandes projectos. Segundo José Fijamo, colaborador da empresa, a CFM Logistics foi indicada como responsável pela gestão da carga destinada à região Norte e a Afungi.
Nacala Procura Consolidar-se Como Plataforma de Apoio
A utilização do Porto de Nacala nesta operação reforça uma tendência que ganhou maior expressão desde a entrada da CFM Logistics no segmento de apoio marítimo à indústria de petróleo e gás. A subsidiária dos CFM posiciona-se como fornecedora de serviços integrados de logística, manuseamento de carga, armazenamento, operações marítimas e gestão de projectos para o sector energético.
A empresa iniciou oficialmente as operações marítimas ligadas ao sector de petróleo e gás no Porto de Nacala em 2024, como parte da estratégia dos CFM de participar directamente na logística associada à exploração e produção de recursos energéticos. A orientação foi assumir uma presença nacional em actividades que, durante muito tempo, permaneceram largamente dependentes de operadores internacionais especializados.
A maturidade logística não se mede apenas pelo volume de carga movimentada. Mede-se pela capacidade de oferecer resposta integrada: desde a atracação e pilotagem de embarcações até à armazenagem, manuseamento, transporte, controlo de segurança e acompanhamento de cargas destinadas a ambientes operacionais complexos.
É neste sentido que a participação do Porto de Nacala, dos Terminais do Norte e de outras entidades técnicas ganha relevo. Denilson Hamide, administrador operacional dos Terminais do Norte, sublinhou que o porto dispõe de equipamentos e preparação técnica para este tipo de operações, salientando que os operadores portuários devem manter capacidade de prontidão para responder a diferentes perfis de carga.
Capacidade Marítima Ganha Escala
A operação Nacala–Afungi ocorre num momento de expansão da capacidade operacional da CFM Logistics. Dados divulgados pelos CFM em Abril indicam que, em 2025, a empresa passou a contar com três rebocadores — um dos quais alugado — e quatro barcos-piloto próprios, reforçando a presença em Nacala, Pemba e Afungi. Na mesma altura, os CFM indicaram que três dos barcos-piloto estavam afectos a Afungi.
O reforço dos meios flutuantes tem implicações que vão além da capacidade de navegar ou atracar. Permite reduzir tempos de espera, elevar a regularidade das operações, responder a picos de procura e acompanhar o crescimento do tráfego marítimo associado à actividade energética.
Em Fevereiro, a empresa anunciou a incorporação de dois novos barcos-piloto e indicou que a frota passaria a operar com sete embarcações nos portos de Nacala e Pemba e em Afungi. O investimento integra uma estratégia mais ampla de modernização e expansão da capacidade marítima, num contexto em que os projectos de gás aumentam a exigência sobre os serviços de apoio portuário e offshore.
Conteúdo Local Não se Resume à Origem da Carga
A discussão sobre conteúdo local é habitualmente associada à contratação de mão-de-obra nacional ou ao fornecimento de bens produzidos no País. Mas a experiência de operações como a realizada em Nacala mostra que a participação nacional tem uma dimensão igualmente relevante na prestação de serviços especializados.
A logística é uma das áreas em que o conteúdo local pode gerar efeitos económicos cumulativos. Uma operação conduzida por uma empresa moçambicana mobiliza equipas nacionais, competências técnicas, contratos de apoio, serviços marítimos, actividades de estiva, transporte, armazenagem, manutenção e relações comerciais com fornecedores locais.
A diferença entre participar de forma episódica e consolidar uma posição sustentável está na capacidade de transformar estas experiências em activos permanentes: pessoal certificado, equipamentos próprios, sistemas de gestão, historial de cumprimento, padrões de segurança e credibilidade comercial perante operadores, empreiteiros e subempreiteiros.
Os CFM assinalaram que a CFM Logistics alcançou, em 2025, um volume de negócios de 15,2 milhões de dólares, correspondente a um crescimento de 119% face a 2024. A evolução sugere que a empresa começa a ganhar escala e autonomia no mercado de serviços especializados ligados à logística energética.
De Operações Isoladas a Uma Plataforma Nacional
A carga de 180 toneladas que seguiu de Nacala para Afungi tem uma dimensão física limitada quando comparada com os volumes globais de um megaprojecto de gás. Mas a relevância da operação não se encontra apenas no peso dos materiais embarcados. Está no que ela demonstra sobre a possibilidade de empresas nacionais assumirem segmentos críticos da cadeia de abastecimento, num ambiente onde a eficiência, a segurança e o cumprimento de prazos constituem requisitos inegociáveis.
A consolidação desta presença dependerá da continuidade dos investimentos em frota, equipamentos, formação, processos de certificação, digitalização e parcerias técnicas. Dependerá também da existência de um ambiente contratual que valorize desempenho, transferência de capacidades e integração efectiva de empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento.
A operação de Nacala oferece, assim, uma imagem concreta de uma transição em curso: a passagem de uma economia que observa os grandes projectos a partir da margem para uma economia que procura dominar serviços, competências e infra-estruturas capazes de reter uma parcela crescente do valor gerado no seu próprio território.
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